Alfonso
Eu a vi se afastar com os ombros rígidos e a alma exposta. E por mais que eu quisesse correr atrás, segurá-la, prometer que tudo ficaria bem... eu sabia que precisava de mais do que palavras.
Anahi estava com medo.
E se ela estava com medo, então havia perigo real. E se havia perigo real, o que quer que estivesse por trás daquela história antiga precisava ser eliminado — antes que ganhasse força.
Fechei a porta do meu escritório com mais força do que o necessário. Tirei o paletó, afrouxei a gravata e fui direto ao painel de segurança interno da empresa. Não era um hábito comum vasculhar rotinas digitais, mas os tempos não eram comuns. Abri um canal direto com Alisha, minha chefe de segurança da informação.
— Preciso que rastreiem todas as possíveis movimentações que envolvam a HE, meu nome ou o de Anahi Portilla nos últimos sete dias. Deep web incluída. Quero saber se algo foi replicado ou compartilhado.
— Certo, senhor Herrera. Alguma palavra-chave específica?
— Sim. Nate. Nathaniel. Nate Archibald. — Minha voz saiu firme. — Cruzem tudo com o nome dele. Redes sociais, mensagens encriptadas, transferências bancárias, qualquer resquício.
— E se encontrarmos algo?
— Me tragam imediatamente. E discretamente.
Desliguei.
O nome dele soava como veneno na boca.
Nate.
O tipo de homem que sorri enquanto te joga no fogo. Durante anos, ele se apresentou ao mundo como o marido ideal, o médico carismático, o cara que todos admiravam. E muitos ainda compravam essa versão. Até que você visse a verdade de perto. Até que ele te deixasse sangrar.
Peguei o celular e digitei:
Mensagem de Alfonso
Preciso falar com você. Agora. Na minha sala. É sério.
A resposta veio em segundos:
Mensagem de Ian
Indo.
Quando Ian entrou na sala, segurando uma garrafa térmica de café, seu rosto fechou assim que viu o meu.
— Aconteceu alguma coisa com ela? — ele perguntou direto, sem rodeios.
Balancei a cabeça em um gesto contido, mas firme.
— Ainda não. Mas pode acontecer.
Ele se sentou lentamente, os olhos em mim com a intensidade de quem já pressentia a tempestade.
— Fala.
— Você conhece o passado da Anahi tanto quanto eu. Você esteve lá. Esteve com ela quando ela fugiu... enfim, você conhece bem a história.
Ian assentiu, o olhar pesado.
— Eu fui testemunha de tudo aquilo. E sinceramente, Alfonso, sinto muito orgulho de Anahi e da forma como ela reconstruiu depois de tudo que viveu. Fiquei verdadeiramente feliz por ela ter se reerguido!
— Sim, o problema é o ex-marido. Você, assim como metade das pessoas não sabe quem ele é.
— Claro que sei. Mas você precisa me dizer por que está falando disso agora. Ele apareceu?
— Na verdade, você acha que sabe, mas tenho certeza que não sabe que ele manipulava Anahi, que ele quer arruinar a vida dela, que não a deixa sair do casamento e dificulta tudo para ela tentando faze-la mudar de ideia.
— Eu realmente não sabia, inclusive, achei que já estivessem resolvido, já que vocês aparentemente estão juntos. Mas enfim, por que está falando isso? Ele apareceu? Está na cidade?
— Ainda não sei. Mas recebi um pacote anônimo. Um dossiê sobre ela. Fotos. Relatos. Coisas antigas. E ela... ela está assustada. Se afastou de mim. Evita falar. Mas eu vi nos olhos dela. É o Nate. Só pode ser.
Ian ficou em silêncio por um momento, os punhos fechados sobre os joelhos.
— Você acha que ele tá tentando destruí-la publicamente?
— Sim. Talvez usando o passado contra ela. E se for isso, se ele estiver preparando alguma jogada de exposição... preciso agir antes.
— Você quer que eu me mexa?
Assenti.
— Quero que use suas conexões. Você conhece Nova York melhor que qualquer um. Tem amigos em todas as áreas: imprensa, jurídico, segurança, cultura... até em eventos sociais. Se o Nate se movimentou, se falou com alguém, fez contato com algum jornalista, hacker ou advogado... alguém viu. E se alguém viu, você pode descobrir.
Ian respirou fundo e passou a mão no rosto.
— Por ela... e por você, eu faço isso sem pensar duas vezes. Você sabe disso. Mas, Alfonso... talvez tenha chegado a hora de vocês enfrentarem isso juntos. De verdade.
— O que você quer dizer?
— Que talvez ela precise ter essa conversa com a sua família também. Com os seus. Não dá mais pra viver sob ameaça. Se vocês não contarem a verdade, o Nate vai usar isso como arma. Vai pintar ela com a pior tinta possível. E aí... a narrativa não será mais de vocês.
Fechei os olhos por um segundo.
— Você acha que a minha família vai entender? Que Maite vai entender isso?
— Talvez não de primeira. Maite é impossível quando quer, você conhece sua irmã melhor do que eu, mas a verdade... é mais fácil lidar com ela do que com o escândalo. E você sabe disso. Você viu o que ela passou. Eu vi. Você a ama. Protegê-la não é só calar os inimigos. Às vezes, é ajudá-la a não precisar mais se esconder.
Permaneci em silêncio por um tempo. O peso das palavras de Ian caiu como um tijolo no peito.
— Você vai mesmo procurar?
— Até o fim. Hoje ainda. Se tiver qualquer movimento estranho vindo do Nate, ou qualquer boato rodando por aí, você vai ser o primeiro a saber.
Ele se levantou e caminhou até a porta, mas antes de sair, parou e virou-se para mim.
— Ela confiou em mim quando ninguém mais estava por perto. Agora, ela confia em você. Não deixa esse cara vencer de novo.
E saiu.
Fiquei sozinho.
A cidade lá fora continuava girando, como se nada estivesse em jogo. Mas pra mim, tudo estava.
Minha empresa. Meu nome.
Anahi.
E se alguém ousasse tocar nela novamente, não encontraria o CEO da HE. Encontraria um homem disposto a tudo.
Incluindo destruir Nate, de uma vez por todas.
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THE ESCORT
FanfictionOntem quando saí da cama osol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou foi eu e eu já não sei se isso é vida.
