Capítulo 100

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Alfonso

O céu de Nova York amanheceu encoberto. Uma névoa espessa repousava sobre os prédios como uma premonição. Era como se a cidade soubesse que algo estava prestes a acontecer — e de fato estava.

Estava.

Na minha cobertura, o silêncio só era interrompido pela vibração insistente das notificações. A cada nova mensagem, um aperto no peito. Estava tudo ali: manchetes, fotos, acusações. O dossiê que recebi dias atrás agora estava em todos os lugares. Blogs sensacionalistas, fóruns obscuros, perfis anônimos — todos repetindo as mesmas palavras sujas, a mesma narrativa deturpada, como se Anahi fosse um crime ambulante.

"Ex-prostituta se infiltra no topo do mercado corporativo."
"CEO renomado envolvido com mulher de passado duvidoso."
"Relacionamento construído sobre mentiras."

Mentiras.

A única mentira ali era essa histeria coletiva disfarçada de escândalo.

Ela nunca escondeu de mim quem era. Eu sabia exatamente com quem estava lidando desde o primeiro momento. E foi por isso que a escolhi. Foi por isso que me apaixonei. Ela enfrentava o mundo com uma força que eu invejava.

Mas agora... agora estavam destruindo tudo.

Arremessei um vaso contra a parede e apoiei os cotovelos na mesa. Respirei fundo. Era inútil tentar entender como aquilo tinha vazado — eu já sabia. Nate. Ele tinha jogado gasolina e riscado o fósforo.

Um alerta no notebook apitou. A equipe de segurança da HE rastreava movimentações digitais desde que o primeiro burburinho apareceu, e agora tinham certeza: múltiplos IPs mascarados, servidores em cadeia, arquivos criptografados. Tudo orquestrado para ser impossível de rastrear legalmente. Típico dele. Covarde demais pra me encarar, mas ardiloso o suficiente pra tentar quebrar a mulher que eu amo.

O telefone tocou. Atendi no primeiro toque.

— Alfonso, precisamos conversar — era Ian. A voz grave dele vinha com um peso que não me surpreendeu.

— Eu vi — respondi, já de pé. — Já está em todo lugar.

— Fiz o que pude, chamei contatos na mídia, tentei comprar tempo, desmentir, abafar. Mas... espalhou mais rápido do que qualquer um esperava.

— Vocês conseguem rastrear a origem?

— Já sabemos quem foi. Mas provar é outra história. E, Alfonso...

— Diga.

— Maite viu. E... sua mãe também. A família inteira está em polvorosa.

Fechei os olhos. A cabeça latejou.

Ruth.

Era só questão de tempo.

E, como o destino adora brincar com a desgraça, menos de uma hora depois a campainha da cobertura tocou. Não era preciso espiar pela câmera. Eu sabia quem era.

Abri a porta. Ruth entrou como um furacão, usando um casaco de lã cinza e óculos escuros mesmo dentro de casa. Tirou-os com um gesto brusco e me encarou como se estivesse diante de um estranho.

— Isso é verdade? — perguntou, sem preâmbulos.

— O que exatamente?

— Alfonso, pelo amor de Deus! — ela gritou, os olhos faiscando. — Estão dizendo que você está envolvido com uma mulher que foi... uma acompanhante. Uma prostituta!

Eu não desviei o olhar.

— Estão dizendo, sim. Porque é isso que vendem. Mas não estão dizendo quem ela é de verdade.

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