Alfonso
O som das turbinas ainda ecoava na minha cabeça quando pisei de volta em Nova York. O frio bateu no rosto como um lembrete incômodo de que a vida real estava esperando por nós. E, de fato, estava.
Assim que cruzei o portão de desembarque, meus olhos bateram na cena que, por alguns segundos, me fez esquecer como se respirava: minha mãe, Maite e Lía estavam ali. Paradas. Esperando. Me olhando. Três gerações de mulheres que, de formas diferentes, definiam tanto da minha vida.
O primeiro impacto foi a tensão. A mãe com aquele olhar que misturava decepção, orgulho ferido e um amor que, mesmo torto, ainda existia. Maite segurava Lía no colo, mas me encarava com olhos marejados, entre o orgulho que tinha de mim como irmão e a dor das feridas que tínhamos aberto um no outro. E Lía... ah, Lía. Minha pequena. Me olhou, abriu um sorriso largo e esticou os bracinhos na minha direção.
Abracei aquela menininha como se fosse minha própria vida. Porque, de algum jeito, era.
Ao meu lado, Anahi apertou minha mão. Estava tensa, eu sentia. Mas também sentia a coragem que ela juntou pra encarar aquilo. E Dulce, sempre firme, como se estivesse pronta pra nos proteger do mundo.
Fomos direto pra cobertura. O caminho foi quase silencioso. Uma tensão palpável preenchia cada centímetro daquele carro. Eu sabia que aquele momento precisava acontecer. Que o reencontro, por mais desconfortável que fosse, era necessário pra tudo que vínhamos construindo.
Assim que chegamos, Anahi pediu pra conversar. E, com uma dignidade que me fez ter certeza de que estava prestes a me casar com a mulher mais incrível que eu poderia encontrar nesse mundo, ela contou tudo.
Falou do passado. Sem floreios. Sem buscar desculpas. Narrou quem ela foi, quem ela precisou ser pra sobreviver, quem ela escolheu se tornar depois. Cada palavra parecia um soco, mas também um ato de coragem. Minha mãe empalideceu. Maite chorou. E eu... eu senti um orgulho absurdo. Porque enquanto o mundo julgava, ela estava ali, de pé, inteira, mostrando que nenhuma cicatriz tinha o poder de definir quem ela era.
E então veio minha vez.
Pela primeira vez na vida, admiti em voz alta minha culpa. Pedi desculpas. Pela forma como agi no passado, pela arrogância, pela omissão, pelo orgulho que tantas vezes me fez errar com quem eu mais amava. Falei olhando nos olhos da minha mãe, da minha irmã. Disse que minha prioridade é Anahi. Que ela é a mulher que eu escolhi. E que se, pra isso, precisasse perder tudo... eu perderia. Mas, olhando em volta, percebi que não tinha perdido nada. Na verdade, tinha ganho tudo.
A convivência dali em diante? Talvez mais difícil. Talvez mais cuidadosa. Mas não me importava. Porque ela era minha noiva. E isso bastava.
Naquela noite, quando a casa finalmente se calou, levei Anahi pro nosso quarto. E ali, no meio dos lençóis, depois de tudo que enfrentamos, fizemos amor como se fosse a primeira vez. Mas não era. Era diferente. Porque agora, não havia medos. Não havia fantasmas. Não havia mais mentiras. Só existia amor. Verdadeiro, bruto, intenso. Durante cada toque, cada suspiro, cada gemido, sabíamos que estávamos curando tudo. E, sim, nos emocionamos. Porque sabíamos que aquele amor tinha atravessado o inferno pra chegar até ali.
Os dias foram passando. Voltei pra HE, que seguia a plenos vapores. Ian e eu... voltamos a ser irmãos. A amizade que tinha sido ferida, agora estava mais forte que nunca. Ríamos das velhas brigas, planejávamos novos projetos, e sabíamos que nossa lealdade nunca mais seria colocada à prova daquela forma.
Minha vida virou uma correria deliciosa. A HE batia recordes de faturamento. Anahi trouxe a empresa dela pra Nova York, e eu tinha um orgulho absurdo de ver quem ela era no mundo dos negócios. Inteligente, perspicaz, brilhante. Ela era uma força da natureza. E, juntos, faturávamos milhões.
Os meses foram passando. Lía agora tinha dez meses. E Deus, como eu era apaixonado por aquela menina. Apesar de tudo que aconteceu entre Maite e eu, ela nunca afastou Lía de mim. Ao contrário. A menina era colada em mim. E, pra minha alegria, também colada na Anahi. Ver as duas juntas era como assistir ao milagre da vida se refazendo.
Minha mãe, Ruth... se aproximava aos poucos. Começou a frequentar a cobertura. Começou a aceitar, ainda que lentamente, que o amor que Anahi e eu construímos não era menor, nem mais fraco, por causa de um passado que não definia mais nada.
Ucker... aquele cafajeste virou romântico. Estava completamente apaixonado por Dulce, e os dois eram a definição de caos e amor na mesma medida. E eu? Eu nunca tinha visto meu amigo tão feliz.
E numa noite qualquer, sentados no chão da nossa sala, rodeados de catálogos, listas de fornecedores e taças de vinho, Anahi e eu planejávamos nosso casamento. Olhei pra ela, com aquele sorriso que fazia meu coração disparar desde o primeiro dia. E tive a certeza absoluta de que aquele era o único lugar que eu poderia estar. Que aquela mulher era a mulher da minha vida. A minha casa. Meu porto seguro. Meu tudo.
Porque, no fim das contas, a vida pode até tentar derrubar. Mas quando se ama de verdade... o amor sempre vence.
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THE ESCORT
FanfictionOntem quando saí da cama osol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou foi eu e eu já não sei se isso é vida.
