Alfonso
Acordei naquele domingo com a mente turva, um nó apertado no peito que eu tentava a todo custo ignorar. O que mais me incomodava, além do silencio de Anahi, era a sensação de que, talvez, eu tivesse perdido a chance mínima de ser ao menos seu amigo, sei lá, de saber da sua vida, de saber que ela estava bem. Eu sabia que a frustração estava tomando conta de mim, mas, por mais que eu tentasse me convencer de que o melhor era dar espaço a ela, não conseguia afastar o misto de tristeza e desespero que me assombravam.
Decidi que o melhor era focar tempo e energia em outra coisa e acabei na academia, mas a mente seguia longe, cada repetição parecia mais uma forma de adiar as respostas que eu sabia que não receberia.
Ao fim do treino, sentei-me e tomei uma garrafinha de água, enquanto olhava para o meu celular, ignorando todas as outras notificações e direcionando os olhos a conversa dela que ainda não tinha resposta, com um suspiro cansado, decidi que deixaria o celular de lado, ficar encarando-o não estava ajudando.
Depois da academia tomei um banho, me aprontei e foquei em trabalho, mas não por muito tempo, pois fui ao hospital visitar Maite, que claramente também não estava bem e eu tive a constatação assim que entrei no quarto e vi a mesma aos prantos. Ian estava ao lado dela, mas não parecia saber lidar com a situação.
- Ela teve alta, mas Lía não – explicou Ian, a frustração evidente em sua voz.
Maite mal conseguia olhar para mim, mas quando me aproximei, ela se soltou em meus braços, chorando sem parar. A tristeza dela era palpável. Com toda a calma, abracei e tranquilizei, garantindo que logo Lía estaria com ela e que era só uma questão de tempo, mas a angustia de Maite não parecia se dissipar e ela precisava do tempo dela.
O resto da tarde foi mais silencioso que nunca. Levei Maite para o apartamento dela, com a promessa de que ela poderia visitar Lía no hospital logo cedo, como recomendava a equipe médica. Ela mal falava, e quando chegamos, ela preferiu ficar deitada em seu quarto.
Enquanto me preparava para ir embora, Ian me chamou para uma cerveja, como nos velhos tempos, como se os dias tranquilos de amizade ainda existissem. Eu não recusei. Conversamos sobre algumas questões de trabalho, mas logo o assunto Lía surgiu. Ian também estava abatido, era visível em seu rosto e eu não conseguia mensurar os sentimentos deles nesse momento.
Um silencio se instalou na sala, as garrafas de cerveja em nossas mãos já estavam meio vazias, Ian parecia tentar achar algo mais leve para conversar, mas era obvio que havia uma certa tensão no ar, fosse pela situação de uma forma geral, fosse pela amizade que há anos havíamos deixado de ter.
- Você sabe que não sou de me meter na vida dos outros – começou Ian, tomando um gole de cerveja enquanto me observava – mas, se tem uma pessoa que eu conheço bem, essa pessoa é você, e quando fica assim, com a cabeça longe, preocupado é porque está com uma mulher na cabeça e essa mulher tem nome e eu a conheço bem também. – franzi o cenho, um pouco surpreso pela observação direta. Eu sabia que Ian me conhecia bem, mas não imaginava que fosse e estivesse tão óbvio. Tentei desviar, mudando de assunto, mas Ian não deixou. – não me venha com essa de "nada" – Ian disse, rindo de leve, tentando dissipar a tensão do momento. Fiquei em silêncio por alguns segundos, tentando controlar minhas expressões. Olhei para a cerveja na minha mão, mas sabia que não ia conseguir me esquivar por muito tempo. Ian me conhecia demais
- Não, não é isso, Ian – respondi rapidamente, quase nervoso demais – não é ela, não agora. – Ian levantou uma sobrancelha, um pouco cético. Ele sabia que eu estava tentando desviar da conversa, mas não iria deixar barato.
- Ah, claro – Ian disse com uma leve ironia, soltando um suspiro – você está dizendo isso porque não quer admitir pra si mesmo – senti a tensão e a raiva começando a crescer em meu peito. Eu sabia exatamente pra onde essa conversa estava indo, e não estava pronto pra enfrentar isso, especialmente com Ian, que sempre teve uma ligação com Anahi que eu nunca aceitei completamente. Aquilo, aquele ciúmes, aquela situação do passado ainda não estava completamente enterrada.
- Não é isso, Ian – repeti, dessa vez com mais firmeza – eu... eu não vou ficar aqui discutindo sobre ela. Já faz tempo que isso acabou, não é? – falei virando o último gole de cerveja. Ian não pode deixar de rir um pouco, mas o riso era amargo, como se ele tivesse perdido alguma coisa também.
- Não seja hipócrita, Alfonso – Ian falou, deixando a cerveja de lado e olhando para mim com seriedade – você ainda está preso nisso, mesmo depois de tudo. Eu não sei o que aconteceu agora, nem se a culpa é sua ou dela, mas te conheço o suficiente pra saber que é algo relacionado a Anahi.
- E você... – falei, sem conseguir esconder a raiva que vivia dentro de mim – não ajudou muito, não é?! Se não tivesse ajudado ela a sumir, se tivesse me dito onde ela estava, talvez as coisas fossem diferentes. – Ian ficou em silêncio por um momento, e eu soube que a lembrança do que aconteceu não era fácil pra nenhum de nós dois.
- Eu fiz o que achei certo – Ian respondeu, mais calmo agora, mas sem esconder o peso daquilo. – você não estava ouvindo, e eu... não queria ver Anahi se machucar mais. E, se eu ajudei Anahi a se afastar, foi porque eu sabia que você não estava pronto para encarar as coisas como elas realmente eram. Mas, olhando agora, posso ver que talvez tenha sido um erro, mas somente porque não era minha responsabilidade determinar o que vocês estavam prontos para viver ou não, mas somente por isso. De toda forma, eu não estou mais nesse jogo de vocês. – encarei Ian com uma expressão que se misturava com raiva e tristeza. Eu queria dizer algo mais, mas as palavras não vinham. Ian se afastou, sumindo pela cozinha e voltando de lá com mais uma garrafa de cerveja, abriu a mesma, empurrando-a em minha direção
- Pode beber essa aí sozinho, Ian. Já deu pra mim hoje – disse com a voz baixa, carregada, enquanto colocava a garrafa vazia sobre a mesa de centro. Ian franziu a testa, encostando-se no sofá com a cerveja na mão
- Não precisa ir embora agora, cara. Podemos tomar mais uma, conversar, como nos velhos tempos. – suspirei, passando a mão pelo rosto, sentindo o cansaço acumulado do dia pesar ainda mais
- Não estou no clima, Ian. E, sinceramente, não quero discutir. Já tive muito disso por hoje. – Ian pareceu desconcertado por um instante, mas depois deu de ombros e deu um gole em sua cerveja
- Tudo bem. Só achei que, sei lá, a gente podia distrair um pouco a cabeça.
- Qualquer coisa sobre Maite ou Lía, é só me ligar – falei levantando-me e pegando o blazer que havia jogado no encosto do sofá mais cedo. Olhei para Ian com uma expressão séria, mas não fria – obrigado pela conversa. – Ian observou por um momento antes de dar um aceno curto
- Sempre que precisar, Alfonso. Você sabe disso. – caminhei em direção à porta, mas antes de sair, virei-me para Ian uma última vez
- Boa noite. E não esquece de dizer a minha irmã que estarei por perto se ela precisar de qualquer coisa – Ian ergueu a garrafa em um gesto de despedida.
- Pode deixar. Boa noite, Alfonso.
Sem mais palavras, sai do apartamento, fechando a porta suavemente. O ar fresco da noite me atingiu em cheio, oferecendo um breve alívio para a mente confusa e o coração pesado. Segui em direção ao carro, decidido a encerrar aquele dia e tentar, pelo menos, encontrar algum tipo de paz em casa.
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Oioi, pessoal.
Como vocês estão? Espero que bem :)
Passando pra desejar um feliz natal.
Comentem bastante pra eu saber o que estão achando, talvez eu ainda libere mais capítulos hoje.
Um beijo!
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THE ESCORT
Fiksi PenggemarOntem quando saí da cama osol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou foi eu e eu já não sei se isso é vida.
