Capítulo 92

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Alfonso

Algumas pessoas passam a vida inteira tentando encontrar o amor da sua vida. Eu encontrei o meu e perdi. E agora, contra todas as probabilidades, ele estava de volta.
Anahi estava de volta.
E por uma semana inteira, ela foi minha de novo.

Acordar com ela todas as manhãs era como reviver um sonho que eu já tinha enterrado. Eu abria os olhos e via seus cabelos bagunçados no travesseiro ao lado, o rosto calmo, a respiração serena. E, por alguns segundos, antes que o mundo real nos engolisse, tudo fazia sentido.

Durante o dia, ela andava pelos corredores da HE com uma naturalidade desconcertante, como se nunca tivesse partido. Meus funcionários percebiam. Claro que percebiam. Era óbvio demais. Meus olhos a seguiam em silêncio. Meus gestos ficavam mais suaves perto dela. Eu confiava em Anahi com um tipo de vulnerabilidade que quase me envergonhava. Mas era real.

Ela e Dulce mergulharam nos projetos da imersão com uma entrega que me surpreendeu. Anahi estava mais madura, mais firme, mais inquisitiva. Havia fogo no olhar dela. E cada vez que ela me fazia uma pergunta desafiadora durante as reuniões, eu sentia o peito inflar de orgulho. Ela não estava ali só por mim. Ela queria aprender. Queria se provar. E estava fazendo isso com maestria.

Mas mesmo no meio dessa bolha onde tudo parecia finalmente dar certo, havia um fio de tensão puxando meu estômago.

Maite.

Na sexta-feira ela apareceu na empresa, sem aviso, entrando sala a dentro com Lia no colo e os olhos faiscando, eu soube que o fio de tensão que me puxava estava prestes a estourar.

Eu vi o susto no rosto de Dulce, o sobressalto de Anahi, o pânico da minha assistente tentando impedir a cena. Eu fiquei parado. Porque parte de mim sabia que era inevitável. Mais cedo ou mais tarde, o passado viria bater à porta. E, com Maite, ele não bate — ele arromba.

Ela lançou aquele "então é verdade" e o olhar dela perfurou direto minha alma. Eu só consegui responder com um sim. Não havia mais o que esconder.

A discussão foi rápida, intensa, como só Maite sabe fazer. Ela falou sobre dor, sobre como Anahi me destruiu, sobre como ela não merecia amor nenhum. E cada palavra me atingia porque Maite acreditava mesmo naquilo. Ela achava que estava me defendendo.

E eu não pude dizer nada. Porque tudo o que eu queria era protegê-las — as duas.

Quando Anahi pediu para ficar a sós com Maite, meu corpo inteiro protestou.

Ela ia contar tudo?
Contaria sobre nosso acordo? Sobre o que ela fazia antes?
Ela ia dizer que, sim, quando nos conhecemos, eu a paguei pra fingir ser minha namorada?

O silêncio que se seguiu, enquanto as duas ficaram sozinhas na sala, foi um inferno.

Esperei do lado de fora, como se a qualquer momento o chão fosse abrir. Dulce, como sempre, chegou sorrateira ao meu lado e soltou:

— Você tá suando frio, hein, chefão?

Revirei os olhos, mas ela continuou, sentando na beirada da mesa, com aquele jeito debochado e sério ao mesmo tempo.

— Ela vai contar – eu disse, mais para mim do que para ela

— Talvez conte. Talvez não. Mas do que você tá com medo, chefão? – perguntou - Olha, se você ama mesmo a Anahi — e já deu pra ver que ama —, precisa deixar de ter medo do que os outros vão pensar. Você sabe o que viveram. E sabe o que ela passou. Você superou, Alfonso. Você escolheu ficar.

Fiquei em silêncio. Porque ela tinha razão. Eu sabia. Não havia mais vergonha, nem receio. Eu tinha virado aquela página. Mas minha família... era um campo minado. E eu só queria estar pronto quando tudo explodisse.

O tempo passou devagar. Longo. Até que a porta se abriu.

Maite saiu primeiro. Com Lia dormindo no colo, passou por mim como um furacão silencioso. Nenhuma palavra. Nem um olhar. Só o som dos saltos e o peso do julgamento que ainda pairava no ar.

Anahi veio logo atrás. Os olhos cansados, mas firmes. Ela me olhou e disse, com a voz baixa:

— Eu disse o que precisava ser dito.

— E ela?

— Escutou o que precisava ouvir. Mas ainda tem coisas que... eu vou ter que contar. — Ela me encarou. — E você também.

Abracei ela ali mesmo, no corredor. Não importava quem passasse. O prédio podia desmoronar. Eu só precisava sentir que ela ainda estava comigo.

Depois de despedidas rápidas com Dulce, fomos pra minha casa. O silêncio do carro foi confortável. Taylor dirigia tranquilo, como se nada tivesse acontecido. E eu agradeci por isso. Quando ele acenou discretamente para Anahi ao revê-la, depois de tantos anos, ela sorriu de volta, e eu ri. Porque era nesses detalhes que o passado e o presente se fundiam, como se a vida estivesse tentando se ajustar sozinha.

Em casa, depois de um banho quente e um jantar leve, deitamos juntos.

— Não importa o que venha, Anahi. — murmurei, com os braços ao redor dela. — Você não tá sozinha. Nem vai estar. Eu tô com você. Até o fim.

Ela respirou fundo contra meu peito, os dedos deslizando devagar pela minha pele.

— E se o fim for doloroso?

— Então a gente vai viver tanto antes disso, que vai valer a pena.

Ela sorriu. E eu soube que, apesar de tudo, estávamos no lugar certo. E prontos — ou quase — pro que viesse.

Porque o que vinha... já estava a caminho.

THE ESCORTOnde histórias criam vida. Descubra agora