Nate
Dois dias. Foram dois dias inteiros desde que eu a trouxe pra cá. E, mesmo assim, ela insiste. Insiste em me provocar. Insiste em negar o que sempre foi nosso.
O cheiro desse maldito galpão começa a se misturar com o cheiro dela. O cheiro da minha Anahi. Porque ela é minha. Sempre foi.
Caminhei de um lado para o outro, apertando as têmperas, sentindo o coração acelerar cada vez que ela desviava o olhar, cada vez que se mantinha calada, recusando-se a sequer olhar na minha direção.
O prato com a comida fria já estava no chão há horas. Ela não tocou. Não aceitou a água. Nem um pingo de misericórdia. Pra ela... eu não existia.
— Anahi... — falei, a voz baixa, mas carregada de uma tensão que beirava o rompante. — Por que você está fazendo isso? Por que você me obriga a ser assim?
Ela permaneceu quieta. Olhos fixos no chão, as pernas encolhidas, os braços cruzados sobre o peito como se isso fosse suficiente pra me afastar dela.
A paciência se rompeu. Veio como um estalo. Como um fio que se parte no meio de uma tensão insuportável.
Levantei a mão. Alto. E o estalo seco ecoou no galpão.
Ela levou a mão ao rosto de imediato, os olhos arregalados. O corte no lábio inferior já começava a sangrar.
O gosto do sangue dela no ar me fez recuar. Me fez perder o controle de um jeito que nem eu mesmo esperava.
— Não... não, não, não... — bati a cabeça contra a parede, uma, duas, três vezes. Forte. Cada impacto fazia minha visão tremer. — Eu não queria! Eu não queria! Por que você me faz perder o controle?!
As lágrimas escorriam. A respiração falhava. Meu corpo tremia.
— Sempre foi você... Sempre, Anahi. Eu te amei quando você não era nada! Eu te quis quando todo mundo te chutava, te olhava como lixo. E você fez o quê? Corre praquele maldito... praquele verme engravatado assim que ele estala os dedos!
Ela gritou.
— EU NUNCA TE AMEI, NATE! Nunca! Você sempre foi um erro na minha vida! SEMPRE!
Aquela frase. Aquilo. Me atravessou como uma faca. O peito queimava, e, num rompante, me lancei sobre ela.
A segurei pelos braços, a puxei contra mim, esmagando sua boca contra a minha. O gosto de sangue, salgado e quente, se misturava ao gosto das lágrimas dela. Ela lutava, se debatia, chorava, empurrava meu peito com as mãos pequenas, mas eu segurava. Forte. Como quem segura algo que está prestes a se desfazer pra sempre.
Me deitei sobre ela, apertando seus pulsos acima da cabeça, sentindo a respiração dela se tornar desesperada, entrecortada.
— VOCÊ É MINHA! SEMPRE FOI MINHA!
E então... um estalo.
Não. Mais que um estalo. Um estouro. Como uma bomba de pequeno porte arrebentando a porta dos fundos do galpão.
O som ensurdecedor reverberou em cada osso do meu corpo.
Levantei no mesmo segundo, puxando a arma da cintura. Corri até a porta, mas ela já vinha abaixo. Estilhaços de metal voaram. Luzes, gritos, comandos.
Comecei a atirar. A esmo. Pra todos os lados. Desesperado.
— VOCÊS NÃO VÃO TIRAR ELA DE MIM!
Outro disparo. Outro.
Mas então olhei pra minha mão. Vermelha.
Sangue. Meu.
O corpo fraquejou. O som ficou abafado. As luzes pareciam dançar na minha visão. E, no fundo, no fundo, eu soube.
Talvez... fosse o fim.
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THE ESCORT
FanfictionOntem quando saí da cama osol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou foi eu e eu já não sei se isso é vida.
