Capítulo 107

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Nate 

Dois dias. Foram dois dias inteiros desde que eu a trouxe pra cá. E, mesmo assim, ela insiste. Insiste em me provocar. Insiste em negar o que sempre foi nosso.

O cheiro desse maldito galpão começa a se misturar com o cheiro dela. O cheiro da minha Anahi. Porque ela é minha. Sempre foi.

Caminhei de um lado para o outro, apertando as têmperas, sentindo o coração acelerar cada vez que ela desviava o olhar, cada vez que se mantinha calada, recusando-se a sequer olhar na minha direção.

O prato com a comida fria já estava no chão há horas. Ela não tocou. Não aceitou a água. Nem um pingo de misericórdia. Pra ela... eu não existia.

— Anahi... — falei, a voz baixa, mas carregada de uma tensão que beirava o rompante. — Por que você está fazendo isso? Por que você me obriga a ser assim?

Ela permaneceu quieta. Olhos fixos no chão, as pernas encolhidas, os braços cruzados sobre o peito como se isso fosse suficiente pra me afastar dela.

A paciência se rompeu. Veio como um estalo. Como um fio que se parte no meio de uma tensão insuportável.

Levantei a mão. Alto. E o estalo seco ecoou no galpão.

Ela levou a mão ao rosto de imediato, os olhos arregalados. O corte no lábio inferior já começava a sangrar.

O gosto do sangue dela no ar me fez recuar. Me fez perder o controle de um jeito que nem eu mesmo esperava.

— Não... não, não, não... — bati a cabeça contra a parede, uma, duas, três vezes. Forte. Cada impacto fazia minha visão tremer. — Eu não queria! Eu não queria! Por que você me faz perder o controle?!

As lágrimas escorriam. A respiração falhava. Meu corpo tremia.

— Sempre foi você... Sempre, Anahi. Eu te amei quando você não era nada! Eu te quis quando todo mundo te chutava, te olhava como lixo. E você fez o quê? Corre praquele maldito... praquele verme engravatado assim que ele estala os dedos!

Ela gritou.

— EU NUNCA TE AMEI, NATE! Nunca! Você sempre foi um erro na minha vida! SEMPRE!

Aquela frase. Aquilo. Me atravessou como uma faca. O peito queimava, e, num rompante, me lancei sobre ela.

A segurei pelos braços, a puxei contra mim, esmagando sua boca contra a minha. O gosto de sangue, salgado e quente, se misturava ao gosto das lágrimas dela. Ela lutava, se debatia, chorava, empurrava meu peito com as mãos pequenas, mas eu segurava. Forte. Como quem segura algo que está prestes a se desfazer pra sempre.

Me deitei sobre ela, apertando seus pulsos acima da cabeça, sentindo a respiração dela se tornar desesperada, entrecortada.

— VOCÊ É MINHA! SEMPRE FOI MINHA!

E então... um estalo.

Não. Mais que um estalo. Um estouro. Como uma bomba de pequeno porte arrebentando a porta dos fundos do galpão.

O som ensurdecedor reverberou em cada osso do meu corpo.

Levantei no mesmo segundo, puxando a arma da cintura. Corri até a porta, mas ela já vinha abaixo. Estilhaços de metal voaram. Luzes, gritos, comandos.

Comecei a atirar. A esmo. Pra todos os lados. Desesperado.

— VOCÊS NÃO VÃO TIRAR ELA DE MIM!

Outro disparo. Outro.

Mas então olhei pra minha mão. Vermelha.

Sangue. Meu.

O corpo fraquejou. O som ficou abafado. As luzes pareciam dançar na minha visão. E, no fundo, no fundo, eu soube.

Talvez... fosse o fim.

THE ESCORTOnde histórias criam vida. Descubra agora