Alfonso
O relógio parecia zombar de mim. As horas passavam, lentas, torturantes, e cada segundo sem notícia dela me arrancava o ar. Andava de um lado para o outro na sala da cobertura, mãos no cabelo, coração esmigalhado no peito. Liguei. Liguei de novo. Mais uma vez. Nada. Celular desligado. Nenhuma mensagem, nenhum sinal. O vazio absoluto.
— Atende, Anahi... Pelo amor de Deus, atende. — Minha voz era um sussurro rouco, sufocado.
O som do interfone me fez quase quebrar o pescoço ao virar. Corri até ele.
— Ian e Dulce — informou o porteiro.
— Sobe. Agora. — Apertei o botão, quase esmagando com o dedo.
Segundos depois, a porta escancarou. Dulce entrou primeiro, pálida, aflita. Ian vinha logo atrás, com o notebook já aberto nas mãos.
— Alfonso, a gente conseguiu. — Ian não perdeu tempo. — A equipe da cybersegurança puxou as imagens do aeroporto.
Ele girou o notebook na minha direção. Meu estômago afundou.
Ali estava ela.
Anahi. Saindo do terminal. A mala na mão, o rosto abatido, olhos fundos de quem não dormia. E então... ela acenando para um táxi. Entrando.
— Isso foi há horas! — Minha voz estourou no ambiente. — Ela entrou e depois...? O que tem depois?!
Ian fechou os olhos, tenso.
— Depois... nada. O carro sumiu. Sem placas identificáveis, sem rastros. Desligaram qualquer sistema de localização. Mas... — Ele respirou fundo. — Conseguimos um ping. O celular dela foi ligado, mesmo que por poucos segundos. Estamos rastreando.
Meus joelhos quase cederam.
— Isso significa que ela... que ela está... viva? — Minha voz fraquejou.
— Sim. Pelo menos até pouco tempo atrás. — Ian confirmou, correndo os dedos freneticamente pelo teclado.
— Eu vou pra LA. — Decidi, pegando o telefone. — Agora.
— Eu vou com você. — Dulce se adiantou. — Ela é minha melhor amiga, Alfonso. Eu não vou ficar esperando sentada.
-— Eu gostaria de ir, mas não posso sair daqui e deixar Maite, ela não entenderia e eu estou tentando amenizar o seu lado, Alfonso.
— Tudo bem, Ian. Eu prefiro que você fique e continue nos enviando os dados que conseguir!
Peguei o celular e liguei para meu piloto pessoal. — Prepare o jato. Partimos pra Los Angeles em vinte minutos. — Desliguei antes de ouvir qualquer resposta.
O tempo de arrumar minha mala com algumas mudas de roupa e documentos pessoais até o trajeto para o aeroporto foi apenas um borrão. No jato, sentei na ponta do assento, mãos tremendo, pernas balançando sem controle. Dulce apertou minha mão.
— Ela vai ficar bem. — Disse. Mas sua voz não convencia nem ela mesma.
As seis horas que se passaram pareciam intermináveis, chegamos lá já era madrugada, o pouso foi brusco, impaciente, mas assim que as rodas tocaram o solo, desci correndo. Fui direto à delegacia.
— Quero registrar um desaparecimento. — Minha voz era seca, urgente. — E tenho provas de quem está por trás.
Mostrei as imagens. Entreguei todos os dados que Ian tinha levantado. E então...
— Senhor Herrera — o detetive olhou para mim com seriedade. — Existe uma medida protetiva vigente contra o senhor Nathaniel Archibald. Ele é, naturalmente, o principal suspeito. Vamos acionar nossa equipe imediatamente.
Senti o chão fugir.
— Medida protetiva? — Minha voz era um sopro, incrédulo. — Por que ela nunca me contou?
Dulce respirou fundo, apertou meus ombros, e a dor nos olhos dela me quebrou.
— Alfonso... quando vocês voltaram das Bahamas, teve um tempo em que Anahi sumiu, parou de responder suas mensagens, não pense nem por um minuto que foi porque ela quis, mas sim, porque Nate quebrou o celular dela durante uma discussão que aconteceu na casa que eles viviam, eles brigaram. — Ela segurou minha mão, apertando forte. — Ele tentou... bem, ele tentou estupra-la — A voz dela falhou. — Tentou forçá-la. Eu cheguei a tempo, impedi, ela ficou em minha casa por alguns dias. Fomos juntas à delegacia, ela fez um boletim de ocorrência seguido de uma medida protetiva. Ele sumiu a partir dai, mas claramente estava sondando — As lágrimas escorriam dos olhos dela. — Ela te ama, sempre amou.
Um grito preso rasgou meu peito. Meu punho acertou a parede mais próxima com tanta força que senti os ossos estalarem.
— Eu vou matar esse desgraçado. — Rosnei, trincando o maxilar, os olhos queimando. — Eu juro por Deus, Dulce. Se ele encostar um dedo nela...
O celular vibrou no bolso. Ian.
— Conseguimos! — A voz dele era afiada, ansiosa. — O sinal do telefone dela apareceu. Foi ligado por menos de trinta segundos, mas conseguimos puxar a geolocalização.
— Onde?! — Quase berrei.
— Uma propriedade nos arredores de Los Angeles. Isolada. Estão te enviando agora.
Quando a localização chegou, meu coração disparou num ritmo que parecia me matar.
— Eu vou até lá. — Falei, decidido, já saindo. — Com ou sem vocês.
Dulce segurou meu braço.
— A gente vai juntos. E a polícia também.
— Eu consegui limpar tudo da internet. — Minha voz quebrou. — Tudo. As matérias. As fotos. As acusações. Emiti uma nota oficial. Disse que foi um ataque malicioso, que já acionamos a justiça. Eu queria que ela soubesse... — Minha voz se tornou um sussurro. — Que a empresa dela não vai ruir. Que ela não vai perder nada. Eu resolvi, Anahi. Eu te protegi. Eu só... só preciso que você volte pra mim.
Sentei em um dos bancos da delegacia, as mãos no rosto, o corpo inteiro tremendo. As lágrimas vieram sem controle. Desesperadas. Pesadas.
Dulce ajoelhou do meu lado, me abraçando forte.
— Ela vai voltar, Alfonso. Ela vai. — Mas nem ela acreditava totalmente.
Tudo o que eu queria... tudo... era o meu amor de volta. VIVA. E eu não ia parar até conseguir.
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THE ESCORT
FanficOntem quando saí da cama osol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou foi eu e eu já não sei se isso é vida.
