Anahi
Acordei com o coração pesado. A madrugada engolia os contornos do quarto, e um silêncio espesso me envolvia como um cobertor sujo. Estendi o braço e encontrei apenas o lençol frio. Alfonso não estava ali.
O travesseiro ao lado ainda guardava o vinco de sua cabeça, mas ele se fora. Havia um bilhete sobre a mesa de cabeceira, dobrado com cuidado. Abri com mãos trêmulas:
"Precisei resolver algumas questões na cobertura. Volto antes que você dê falta. Impossível não voltar por você."
Impossível.
Era isso que a vida parecia naquele instante.
Sentei-me devagar, como se o peso do mundo estivesse inteiro sobre meus ombros. Peguei o celular no chão, e mal liguei a tela, o estômago afundou: centenas de notificações. E-mails, mensagens, ligações perdidas. O ícone da mídia piscava como um alerta vermelho. Meu nome era um espetáculo em tempo real.
Abri as mensagens dos funcionários da empresa. Alguns diziam não acreditar no que estavam lendo. Outros me chamavam de mentirosa. De oportunista. Havia quem me defendesse, quem dissesse que o passado não apaga a competência de uma mulher. Mas eram poucos. Muito poucos.
Vi os nomes de clientes cancelando contratos. Gente dizendo que não queria mais associar sua imagem à "minha história". A cada nova notificação, uma lâmina rasgava mais fundo.
A imprensa já sabia que eu estava em Nova York. Um vídeo meu chegando ao prédio da HE viralizou. Manchetes me chamando de "a garota de programa por trás da consultora de risco mais promissora da Costa Oeste". Havia jornalistas na porta do prédio, segundo mensagens de Dulce.
Tudo doía.
Mas havia algo ainda mais dilacerante que a vergonha: o medo. O medo de perder tudo que construí com sangue, suor, mentiras e lágrimas. A empresa era meu legado. Minha redenção. E estavam tirando isso de mim.
Fui para o chuveiro. A água escorria quente, mas minha pele não sentia. Lavava o corpo como se pudesse lavar o passado. Como se as manchetes pudessem escorrer pelo ralo.
Vesti-me devagar, silenciosa. Separei meus documentos, um casaco, meus fones. Respirei fundo, mas o peito continuava em chamas. Quando saí do quarto, Dulce estava enrolada no sofá, o celular no colo, olhos cansados.
— Anahi? — ela sussurrou, ao me ver com a mochila nas costas. — O que você tá fazendo?
— Eu preciso ir pra Los Angeles.
— Você enlouqueceu?
— Minha empresa tá caindo, Dulce. Nossa empresa. Os contratos tão sendo encerrados. As pessoas tão me massacrando. Eu não posso simplesmente sentar e esperar tudo virar pó.
— Você não pode ir agora! — Ela se levantou, desesperada. — A cidade tá em chamas por sua causa. Os jornalistas tão na sua porta! Você tem noção do que pode acontecer se você sair?
— Eu não sou covarde — disparei, a voz embargada. — Eu construí aquela empresa. Com as mãos. Com a alma. Eu não vou deixar Nate ou qualquer outro desgraçado acabar com isso.
Ela se aproximou, as mãos tremendo.
— E se for uma armadilha? Se for ele que quer que você corra? Você acha que esse vazamento foi coincidência?
— Eu não tenho escolha. Eu preciso reagir. Preciso tentar consertar. Nem que seja a última coisa que eu faça.
Dulce segurou meu rosto, desesperada.
— Por favor, espera. Deixa Alfonso te ajudar. Espera mais um dia. Você não precisa carregar tudo sozinha...
Afastei-me, os olhos marejados.
— Eu sempre carreguei. Sozinha ou não... sou eu quem vai resolver isso.
Antes que ela dissesse mais, saí. O coração disparado, os passos firmes, mesmo com o chão cedendo por dentro. Comprei a passagem pelo celular, respirei fundo, e enviei uma mensagem para Alfonso:
Mensagem de Anahi
Preciso conter os danos. Não posso ver tudo ruir sem tentar impedir. Estou indo para LA, mas volto. Juro que volto.
O aeroporto era uma extensão do caos. Um fotógrafo chegou a apontar a câmera pra mim. Embarquei com a alma latejando. O avião decolou, e lá de cima, vi as luzes de Nova York sumirem sob nuvens espessas. Era como cair num buraco sem fundo.
Durante as horas de voo, tentei dormir, mas os pesadelos vinham mesmo de olhos abertos. Li e reli as mensagens que já haviam chegado. Alfonso havia me mandado áudios, mensagens curtas, tentando não parecer desesperado.
Mensagem de Alfonso
Me avisa quando pousar. Estou indo atrás de você.
Respondi com os dedos trêmulos, assim que pousei em LA.
Mensagem de Anahi
Acabei de pousar. Vou direto para a empresa.
Saí do saguão com a mente em frangalhos. Chamar um Uber parecia impessoal demais. Acenei para o primeiro táxi que passou. Entrei e digitava uma nova mensagem para Alfonso. A cabeça latejava.
— Para o centro, por favor — murmurei.
O carro arrancou. E algo... algo começou a parecer errado.
O banco estava quente demais. Meus olhos pesavam. Tentei focar na tela, mas as palavras embaralhavam. A luz da rua piscava, e o mundo parecia se distorcer, como um vidro trincando devagar.
Então olhei para o retrovisor.
E vi.
Aqueles olhos.
Meu sangue gelou.
Ele sorriu.
Um sorriso torto. Frio. Sádico.
— Descanse, querida esposa — disse Nate, com a voz venenosa. — Você está segura agora.
A última coisa que vi antes do mundo apagar foi a cidade sumindo pela janela.
E a certeza de que eu tinha caído direto no inferno.
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THE ESCORT
FanfictionOntem quando saí da cama osol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou foi eu e eu já não sei se isso é vida.
