Nate
Ela achou mesmo que podia me apagar.
Como se eu fosse só um erro do passado, uma lembrança incômoda que ela podia colocar dentro de uma caixa e esconder no fundo de uma gaveta.
Não.
Eu era a única verdade que ela tinha. E agora, eu seria o responsável por lembrar ao mundo inteiro quem era Anahi de verdade. Antes das roupas de marca, antes da pose de executiva, antes da moral reinventada. Antes de Alfonso Herrera, o seu conto de fadas distorcido.
Com o celular em uma mão e um copo de uísque na outra, revisei o e-mail pela última vez. O anexo estava lá: um PDF de oitenta e duas páginas, minuciosamente organizado. O título na primeira página era direto, cirúrgico:
"ANAHI PORTILLA — A VIDA ESCONDIDA DA MULHER QUE ENGANOU O IMPÉRIO HERRERA."
Não era só um dossiê. Era uma sentença.
Montei tudo ao longo dos últimos dois meses. Cada detalhe. Cada visita ao motel. Cada comprovante bancário. Cada nome falso usado em cadastros de sites para acompanhantes. Fotografias antigas, capturas de tela de conversas, vídeos de câmeras de segurança. Clientes que paguei para abrirem a boca. Depoimentos de funcionários de hotéis e bares. Era um mosaico de podridão.
E cada peça levava a ela.
Anahi.
A mulher que me feriu. Que me tratou como nada. Que escolheu Alfonso — como se ele fosse alguma salvação, algum símbolo de dignidade, como se ela mesma fosse digna de amor.
Mas ninguém ama lixo. E hoje, eu ia provar isso.
Respirei fundo e apertei "Enviar".
O e-mail foi direto para a redação da Revista Prisma, uma das revistas mais lidas do país, especializada em escândalos. E o melhor: eu já tinha feito uma ponte com um dos editores, sob identidade falsa, me apresentando como um ex-sócio da HE, um "cidadão indignado", com provas de que Alfonso estava envolvido com uma ex-prostituta — e que isso, em breve, afetaria a imagem da empresa.
A manchete que sugeri? Simples. Infame.
"A PROSTITUTA DO CEO – O ESCÂNDALO QUE PODE AFUNDAR O IMPÉRIO HERRERA."
A capa teria a foto de Anahi sendo puxada pelo braço por Alfonso no estacionamento do hotel onde ela costumava "atender". A imagem era antiga, capturada de uma câmera de segurança que eu consegui invadindo o sistema meses atrás. Borrada, mas inegável. Um retrato do horror. Ou, para mim, da verdade.
Peguei o celular e liguei para o número do editor.
— Alô?
— É você? — disse ele, com a voz apressada.
— É. Enviado.
— Nate, isso é... isso é dinamite. — ele riu, quase sem fôlego. — Isso vai vender como água no deserto.
— Eu quero a capa. E quero que seja publicado em três dias, no máximo. Cópia impressa e digital. Entendeu?
— Já estamos finalizando a diagramação. Você será creditado?
— De jeito nenhum. Sigilo total.
O editor riu como um cão satisfeito.
— Considere feito.
Desliguei. E, por um segundo, deixei que o silêncio tomasse o quarto.
Me aproximei da janela e encarei a cidade lá fora. As luzes, os prédios, os carros se movendo em linhas perfeitas. Pessoas que nem imaginavam o caos que eu estava prestes a liberar.
Mas não bastava. Eu queria mais. Eu queria que Alfonso recebesse o impacto de frente. Eu queria ver sua reação. Sua frustração. O colapso do império emocional que ele estava reconstruindo com ela.
Caminhei até a pasta preta que estava sobre a mesa. Caprichosamente montada. Dentro dela, imprimi todo o dossiê. Encadernei. Coloquei marcador de páginas. Destaquei com post-its os trechos mais "relevantes". Acompanhado de uma carta falsa, assinada por um "acionista anônimo preocupado com a reputação da empresa".
"Prezada Diretoria,
Venho por meio desta trazer à luz informações delicadas sobre a vida pregressa da senhora Anahi Portilla.
Tais informações podem comprometer a imagem pública da HE International, especialmente junto aos investidores e stakeholders tradicionais.
Recomendo averiguação imediata e medidas cabíveis para proteção da marca.
Assinado: Um investidor leal."
Simples, neutro. Como uma bomba disfarçada de pacote corporativo.
Deixei tudo com o motoboy, um profissional anônimo que eu contratara por fora. Pedi para entregar diretamente na sede da HE, com urgência, "aos cuidados do Sr. Alfonso Herrera".
Feito isso, sentei no sofá, servi outro uísque e dei um gole longo, deixando o líquido descer queimando.
Ah, como eu queria ver a cara dele.
Aquela expressão de superioridade desabando. O orgulho se transformando em frustração. A forma como ele perceberia que, embora ele e Dulce soubessem da verdade, o mundo... ainda não sabia. E o mundo julga. O mundo condena. O mundo exige máscaras perfeitas.
E ela? Anahi?
Ela sentiria o chão sumir. Veria seu nome manchado em todas as redes sociais. Entrevistas resgatadas. Fotos virais. Comentários cruéis. O olhar das pessoas mudando. A família de Alfonso? Iriam exigir explicações. A elite ao redor dele? Ririam por trás das portas de vidro fumê. A HE? Teria que lidar com uma crise de reputação. E mesmo Ian, por mais leal que fosse, não conseguiria blindar a fúria do resto da família Herrera.
E tudo isso começou... comigo.
Sorri.
Me levantei devagar e caminhei pelo apartamento escuro. A cidade ainda brilhava lá fora, mas dentro de mim havia apenas escuridão.
Peguei uma das fotos antigas de Anahi. A primeira vez que a vi não foi naquela imagem borrada no estacionamento, mas na clínica. Aquele dia, ela entrou no consultório, vestindo jeans e uma camiseta branca. Veio acompanhar a evolução da avó. E mesmo naquela simplicidade... ela tinha algo. Um olhar ferido e ao mesmo tempo forte.
Foi ali que tudo começou.
E é por isso que eu vou ser o responsável por terminar tudo.
— Eu te avisei. — sussurrei. — Te avisei que não era pra brincar comigo.
Estava tudo pronto.
Em três dias, a edição da Prisma estamparia os balcões. A versão digital explodiria nos grupos de WhatsApp, nos stories, nos blogs. A HE receberia a pasta. Alfonso abriria. Anahi veria seu nome nas notícias. E tudo pelo que ela lutou, todo esse disfarce de mulher perfeita, cairia em mil pedaços.
E então... quem sabe... ela voltaria pra mim. Não por amor. Mas porque, como sempre, seria a única porta aberta.
A única mão estendida.
A única opção depois da vergonha.
Sorri.
Sozinho.
No escuro.
Três dias.
E o mundo dela acabaria.
Última semana.
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THE ESCORT
FanfictionOntem quando saí da cama osol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou foi eu e eu já não sei se isso é vida.
