Capítulo 91

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Anahi

A semana passou como um sopro, intensa e silenciosa como um segredo bem guardado.

Os dias começavam cedo, mas nunca cedo o bastante para mim. Acordar com ele ao meu lado fazia tudo parecer irreal — como se o tempo tivesse nos dado uma segunda chance e, desta vez, não pretendêssemos desperdiçar. A HE era tudo o que eu imaginava... e mais. A estrutura, a metodologia, o ritmo — tudo impecável. Mas o que realmente me impressionava era ver Alfonso naquela posição. Líder, mentor... dono de si. E, de certa forma, de mim também, mesmo que eu não quisesse admitir em voz alta.

Durante o dia, eu era aluna. Aplicada, firme, observadora. À noite, era mulher. Sua mulher. E não importava se o cenário era sua cobertura elegante ou o canto discreto de sua sala — estávamos, enfim, nos pertencendo de novo.

Na quarta-feira, voltei ao seu apartamento depois de tantos anos. Fiquei parada na entrada por longos segundos, sentindo o perfume que ainda era o mesmo. A mobília tinha mudado, claro, mas o ambiente... aquele era o nosso lugar, mesmo que a gente tenha negado isso por tempo demais. Fizemos amor ali, em sua cama, pela primeira vez. Não houve promessas, nem juras. Apenas o som da nossa respiração e o conforto de estar exatamente onde eu devia estar, mesmo que anos atrás ele tivesse dito que eu jamais me deitaria naquela cama, ali estava eu.

E foi ali, naquela cama, que eu entendi que não importa quanto tempo passou, nem tudo o que dissemos. Ainda existia nós dois.

No dia seguinte, Ian me encontrou pelos corredores da HE.

— Você? — ele disse, me puxando num abraço apertado. — Eu achei que fosse miragem.

— Não. Em carne, osso e contrato de confidencialidade. — brinquei.

— Alfonso sabe? — ele perguntou, curioso. Ri.

— Melhor do que ninguém. Foi ele quem me recebeu na segunda.

Conversamos por alguns minutos, como os velhos amigos que sempre fomos. A amizade com Ian foi uma das poucas coisas que me doeu deixar para trás, e vê-lo feliz por me ver ali foi reconfortante. Ele sempre soube ler além do óbvio, então eu apenas disse "Bahamas" e ele entendeu tudo.

Na sexta-feira, estávamos na sala de Alfonso. Dulce rabiscava anotações numa folha à parte enquanto eu fazia perguntas pontuais. Alfonso, sério, exibia os gráficos na tela da TV ao fundo, explicando tendências de comportamento e projeções de risco.

Era mais uma tarde produtiva, até a porta da sala se abrir bruscamente.

— Senhora, a senhora não pode... — a assistente de Alfonso tentou impedir, mas já era tarde.

Todos viramos o rosto ao mesmo tempo.

Maite.

Com Lia nos braços, os olhos marejados e o rosto em fúria.

— Então é verdade — ela disse, com a voz firme, olhando diretamente para mim. — Você está aqui.

Dulce se enrijeceu na cadeira, Alfonso largou o controle do gráfico como se tivesse levado um soco no estômago.

Meu peito apertou.

A sala inteira parou. Até o tempo pareceu segurar o fôlego.

Maite avançou mais um passo, e o silêncio virou um campo minado.

— E você — ela apontou para Alfonso, furiosa — deixou isso acontecer? Deixou ela entrar aqui, como se nada tivesse acontecido?

Eu senti meus ombros tensos, minhas mãos frias.

THE ESCORTOnde histórias criam vida. Descubra agora