Capítulo 93

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Anahi

Acordei antes dele.

O quarto ainda estava mergulhado na penumbra suave da manhã, e Alfonso dormia profundamente, virado de lado, uma das mãos estendida na cama, como se me procurasse mesmo inconsciente. Me aproximei devagar, beijei seu ombro exposto e deixei os dedos traçarem o contorno de sua coluna, com leveza.

Era assim que meus dias começavam agora: ao lado dele.
Na sua cama.
No seu mundo.

Minha cabeça dava um giro só de pensar o quanto eu renunciei a isso, o quanto renunciamos, por escolhas erradas, por palavras não ditas, mas no final, aqui estávamos nós, procurando um pelo outro como havia sido desde o início.

— Bom dia — ele murmurou com a voz rouca, os olhos se abrindo devagar enquanto um sorriso preguiçoso se formava.
— Bom dia, Herrera — brinquei.
Ele riu. Daquele jeito que só ele ria, meio abafado, meio debochado.

Tomamos café na varanda da cobertura que nunca era utilizada, mas que eu amava. Apesar de Miranda estar a postos para servi-lo, como sempre, ele preparou panquecas se atentando ao jeito que eu gostava, enquanto falávamos sobre a reunião que teríamos na HE e sobre o caso de Dulce e Ucker que parecia ser algo que se desenvolvia a plenos vapores. Era impressionante como ele conseguia alternar entre o homem frio dos negócios, o cara que sabia exatamente a quantidade de mel que eu gostava no café e o cara que gostava das fofocas da vida da minha melhor amiga.

Chegamos à empresa pouco depois das nove.
Vestida com um vestido de alfaiataria e blazer claro, prendi o cabelo num coque e me sentei à frente do meu computador, revisando os detalhes finais do projeto que apresentaria mais tarde.

O mundo dos negócios tinha me conquistado sem esforço.
Havia algo profundamente satisfatório em montar estratégias, analisar cenários e encontrar soluções que movimentariam cifras milionárias.
E, no meio de tudo isso, nesse momento, havia Alfonso, me observando com aqueles olhos calculistas e cheios de emoção escondida.

Perto das dez, Ian entrou na sala com Lía no colo.
A bebê vestia um macacão azul-claro com bolinhas brancas e um laço que ocupava quase metade da cabeça.
Me derreti imediatamente.

— Olha só quem veio visitar a HE hoje — ele anunciou, a voz alegre preenchendo a recepção. — Lía, essa é a Anahi, a mulher que aparentemente tinha virado lenda urbana.

Soltei uma gargalhada espontânea, pegando a bebê com cuidado em meus braços. Lia soltou um resmungo e se aconchegou contra meu peito, fazendo meu coração derreter em uma ternura inesperada.

— Você é ainda mais linda do que imaginei — sussurrei para ela, sentindo os olhares sorridentes de Ian e dos outros funcionários.

Segurei Lía nos braços com o cuidado de quem manuseia um pedaço de paz.
Ela me olhou com curiosidade e me deu um daqueles sorrisos banguelas que parecem remédio para qualquer dor do mundo.
Dulce chegou segundos depois e quase arrancou Lía das minhas mãos de tanta empolgação, ela e Ucker estavam vivendo alguma coisa bonita, e eu adorava ver aquele brilho leve nos olhos dela.

Passei o resto do dia focada.
Apresentei meu projeto na sala de reunião principal da HE, com Alfonso sentado à cabeceira da mesa, observando cada palavra que eu dizia.
Ele não interrompeu.
Apenas ouviu.

Quando terminei, o silêncio foi seguido de um comentário dele:
— Sua leitura de risco está melhor que a do meu braço direito.
Me virei para encará-lo, surpresa, e vi o que ele não disfarçou: orgulho.
Verdadeiro. Quente.
Me senti inteira naquele instante.

À noite, saímos para jantar.
Eu, Alfonso, Dulce e Ucker.
Escolhemos um restaurante italiano discreto, de luz baixa e música suave.
Rimos tanto que doeu a barriga. Alfonso me segurava pela cintura, me servia vinho, me tocava com olhos e gestos.
Era um daqueles momentos em que a vida parecia finalmente ter se acertado.

E então, meu celular vibrou.
Uma notificação.
Número desconhecido.

Desbloqueei por impulso.

A imagem levou menos de um segundo para me tirar todo o ar.

Era antiga.
Eu estava sendo puxada por Alfonso, no estacionamento do hotel em que costumava atender.
Lembrava daquele dia.
O olhar dele, furioso.
O meu, cansado.
A chuva fina que não lavava nada.

Mas o que me desmontou foi a legenda:

"Uma vez prostituta, sempre prostituta. E logo todos saberão disso."

O mundo escureceu.

A taça de vinho tremeu na minha mão.
Minhas pernas ficaram frias.
As risadas viraram ruído de fundo.

Fechei a imagem.
Engoli em seco.
Sorri.

A pior parte de sobreviver ao passado é que ele sabe exatamente onde te ferir.
E eu entendi, ali, que aquela imagem era só o começo.
Ele ia me destruir.
E eu não sabia se conseguiria impedir.

THE ESCORTOnde histórias criam vida. Descubra agora