Capítulo 113

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Anahi

O vento gelado de Nova York não parecia mais tão cortante. Ele agora trazia cheiros de vida, de possibilidades, de recomeços. Eu caminhava pelas ruas dessa cidade que, um dia, me engoliu com suas garras afiadas, mas que hoje me acolhia como uma velha amiga.

O reflexo no vidro dos prédios não era mais de uma mulher fugindo do passado. Era de uma empresária reconhecida, dona de uma empresa que agora tinha não apenas sede em Nova York, mas também uma filial em Los Angeles. O que eu construi... era meu. Cada tijolo. Cada pedaço. Cada cicatriz.

E ao meu lado, todos os dias, estava Alfonso. O homem que um dia foi apenas um cliente, depois um contrato, e se tornou o amor mais grandioso, dolorido e, sobretudo, verdadeiro que eu poderia sonhar. A gente se perdoava todos os dias. A gente se escolhia todos os dias. A gente se amava de um jeito que só quem sabe o que é quase perder tudo pode entender.

Nosso amor não era perfeito. Era real. Cheio de desejo, de cumplicidade, de olhares que diziam mais que mil palavras. Acordar ao lado dele era lembrar que o amor não é sobre não errar. É sobre não ir embora. Nunca.

Os meses foram passando. E, sem que eu percebesse, me vi apaixonada por um serzinho que chegou na minha vida como um presente inesperado. Lia. A sobrinha de Alfonso. Minha sobrinha, agora. Aqueles olhos brilhantes, aquele sorriso banguela e aquele jeito de estender os bracinhos pedindo colo... Lia me desmontava, me fazia rir em meio ao caos, me fazia querer ser melhor.

Era engraçado ver Alfonso completamente rendido a ela. O CEO impiedoso, temido, calculista... se ajoelhava no chão pra brincar de bloquinhos, pra ouvir histórias inventadas e pra fazer cafuné até ela dormir. E eu... eu olhava aquilo e tinha certeza: Deus me deu mais do que eu jamais ousei pedir.

Minha amizade com Dulce... ah, Dulce. A irmã que a vida me deu. A mulher que segurou minha mão quando tudo estava desabando. A mulher que me lembrou quem eu era, mesmo quando eu esquecia. A gente seguia lado a lado, não apenas nos negócios, mas na vida.

Numa manhã de primavera, estávamos no Central Park, deitadas na grama, olhando o céu absurdamente azul.

— Sabe, Anahi... — ela sorriu, olhando pra mim. — Eu olho pra gente hoje e penso: quem diria?

Eu ri.

— Quem diria, Dulce... A gente sobreviveu. A gente venceu. E olha só pra nós... Felizes. Com empresas prs... Felizes. Com empresas pr\u3c0ósperas. Com amor.

Ela apertou minha mão.

— E com paz. Pela primeira vez... paz.

E era verdade. Uma paz que eu nunca imaginei sentir. Uma paz que foi se construindo também na relação com Ruth. A mulher que, um dia, me olhou com nojo, com desprezo, hoje me recebia pra cafés longos, onde falávamos da vida, de receitas, de viagens. Ela não apenas me aceitou. Ela me amava. De um jeito torto, do jeito dela, mas amava.

Maite... minha antiga amiga, minha cunhada, meu passsado que ficou rachado por tanto tempo. A reconstrução com ela foi lenta. Cuidadosa. Feita de conversas, de pedidos de desculpas, de silências incômodos que, aos poucos, se transformaram em risadas sinceras.

Hoje ela era parte de mim de novo. Minha família.

E então... veio o casamento. Nosso casamento.

Escolhemos os Hamptons. Uma praia privada, com tendas brancas que dançavam com o vento. O mar, testemunha silenciosa de tudo que atravessamos.

Quando caminhei pelo corredor de areia, com meus pés descalços tocando aquele chão, vi Alfonso me esperando. Terno claro, os olhos marejados. E só havia ele no mundo inteiro.

Nossos votos foram ditos assim:

Ele segurou minhas mãos, olhou nos meus olhos e disse:

— Anahi... Eu te amei na escuridão. Te amei quando nem eu sabia amar. Te amei quando tudo parecia contra. E te amo agora, de peito aberto, inteiro. Prometo te escolher todos os dias, te proteger, te levantar quando o mundo tentar te derrubar. Porque você é minha luz, minha paz, meu lar. Eu faria tudo de novo. Cada erro. Cada dor. Cada queda. Desde que, no fim, fosse você.

As lágrimas nublaram minha visão, mas sorri. Respirei fundo e falei:

— Alfonso... Você me ensinou que o amor não é perfeição. O amor é resistência. É coragem. É ficar. Você segurou minha mão quando nem eu achava que merecia. Prometo te amar em cada amanhecer, em cada inverno, em cada primavera. Prometo ser tua casa, teu refúgio, tua loucura boa. E sim... Eu também faria tudo de novo. Absolutamente tudo. Se no final fosse você.

Aplausos. Risos. E o som do mar.

Nossa primeira valsa foi sob as estrelas. Uma música que não precisava de letra, porque nossos olhos falavam tudo.

Quando a festa terminou, quando as luzes se apagaram e ficamos ali, abraçados na areia, Alfonso segurou meu rosto e disse:

— Lutamos muito pra chegar até aqui... E faríamos tudo outra vez, Anahi. Cada segundo. Cada batalha. Porque valeu. Vale muito.

Eu sorri, com o coração explodindo de amor.

— Valeu, Alfonso. Valeu tanto... Eu te amo.

Ele beijou minha testa, segurou minha mão.

THE ESCORTOnde histórias criam vida. Descubra agora