Anahi
Acordei com a sensação de peso sobre o meu corpo, a claridade fazia com que minha cabeça latejasse ainda mais e mesmo antes de abrir os olhos, sabia que estava na casa de Dulce e tudo que havia acontecido não tinha sido apenas um sonho ruim. O cheiro familiar de café fresco e o som distante de utensílios na cozinha eram reconfortantes, me traziam a sensação de acolhimento.
Ainda deitada no sofá, senti meu couro cabeludo sensível, uma lembrança vívida do quanto Nate havia perdido o controle, se é que um dia ele teve. Minha alma parecia esmagada pela humilhação e pelo pavor que experimentei no dia seguinte. As lágrimas começaram a descer lentamente, quentes, enquanto eu puxava o cobertor contra o rosto para abafar os soluços.
E se Dulce não tivesse chegado? O pensamento me atravessou como uma faca. Sabia que Nate podia ser manipulador e controlador, mas nunca, nem em meus piores momentos, pensei que ele fosse capaz de me machucar daquela forma. Agora, uma nova realidade se impunha em minha vida, Nate não era apenas o homem de quem eu queria me divorciar, ele era uma ameaça.
- Bom dia, Ani – a voz de Dulce soou suave, mas firme, interrompendo os meus pensamentos sombrios. Ergui o olhar, sabia que meus olhos ainda estariam inchados, vi Dulce entrando na sala com uma xícara nas mãos. Dulce sentou-se ao meu lado e, sem hesitar, me puxou para um abraço apertado – como você está se sentindo? – perguntou, afastando-se o suficiente para me olhar nos olhos
- Eu...estou cansada, Dul – respondi com a voz já embargada novamente – Do meu corpo, da minha cabeça, de tudo isso – Dulce segurou minha mão com firmeza, os olhos cheios de preocupação e determinação.
- Vamos sair disso juntas, Ani. Você não está sozinha.
- Eu quero dar entrada no divórcio o mais rápido possível – anunciei com a voz carregada de convicção enquanto Dulce assentiu, apertando a minha mão
- E vai. Vamos resolver isso. Você não precisa ficar pressa a ele.
- Eu só quero que isso acabe. Não quero mais sentir medo e nem viver assim.
- E você não vai, amiga. – afirmou Dulce, sua voz cheia de certeza. – Hoje mesmo a gente começa, se você quiser – eu assenti e senti um pequeno alívio no peito, uma fagulha de esperança em meio à escuridão. Olhando para Dulce, percebi que ela era a fortaleza que eu precisava naquele momento.
Dulce passou os braços por meus ombros novamente, segurando-me com um enorme carinho, como se eu fosse quebrar a qualquer momento
- Ani, você vai se reerguer e ele não vai mais te machucar, nem física, nem emocionalmente.
Dulce não desgrudou de mim o dia inteiro, me cercando de cuidado e carinho. Preparou o café da manhã, organizou o almoço e durante a tarde me obrigou a assistir uma comédia, tentando de alguma forma, distrair a minha mente. No entanto, eu permanecia ausente, como se algo me mantivesse presa aquele dia horrível. Apesar disso, Dulce respeitou o meu silencio, não deixando de estar ali, pronta pra segurar minha mão sempre que eu precisasse.
No final da tarde, enquanto tomávamos um café preto quentinho, percebi que estava sem celular e sem roupas de trabalho, já que Dulce havia preparado uma bolsa com algumas peças, mas nada que fosse adequado.
- Dul... estou sem roupas aqui – falei suspirando
- Não se preocupe, Ani. Você pode usar as minhas – respondeu tranquila
- Não quero incomodar mais, Dulce – disse com um olhar cansado – além disso, preciso de um celular novo.
- Vamos ao shopping então – respondeu, vendo em mim, um pequeno resquício da força que ela conhecia tão bem – vai ser bom pra você sair um pouco, mesmo que por algumas horas.
- Tudo bem – respondi e vi a animação de Dulce.
.
O caminho foi silencioso. Dulce dirigia atenta a estrada e eu divagava, os pensamentos longe, queria tanto a minha avó, minha família, queria tanto ter em quem me ancorar e me curar. Dulce novamente não interrompeu, respeitando meu espaço e só me chamando quando já havíamos chegado.
Caminhamos tranquilas, mas eu me sentia exposta, como se o mundo pudesse ver a vergonha e o medo que eu carregava, Dulce, ao meu lado, mantinha o tom animado, apontando vitrines e sugerindo lojas, tentando aliviar a tensão.
Escolhi algumas roupas, apenas o necessário para os próximos dias, e depois fomos à loja da apple, escolhi um novo aparelho e paguei, saindo da loja em seguida.
No caminho de volta, configurei o celular no carro e assim que terminei, o celular começou a vibrar desesperadamente, com muitas notificações, alguns e-mails de trabalho, mensagens de alguns conhecidos e, entre elas, uma serie de mensagens de Nate.
Mensagem de Nate
Se você acha que vai me destruir, está muito enganada.
Eu vou acabar com você antes de você sequer pensar em ir à polícia.
Ninguém vai acreditar em você.
Eu sabia que as ameaças eram vazias. A medida protetiva já estava em andamento, e Nate logo seria notificado, mas as palavras dele ainda faziam meu corpo estremecer.
Printei todas as mensagens e deletei em seguida, mas meus olhos pousaram em outra notificação: a mensagem de Alfonso. A foto do parque que ele havia enviado ainda estava lá, congelada no tempo. Me lembrei do breve sorriso que sentira ao receber a imagem na manha anterior, como um raio de luz antes da tempestade. Não havia nenhuma outra mensagem dele depois daquela e eu não pude deixar de sentir uma pontada de tristeza por aquilo.
De volta ao apartamento de Dulce, sentei-me no sofá com o novo celular em mãos e Dulce apareceu com um cobertor e uma taça de vinho, sentando-se ao meu lado.
- Alguma novidade? – perguntou apontando para o celular e eu balancei a cabeça
- Apenas mensagens dele. Ameaças. E algumas mensagens de trabalho. – Dulce levou a mão até a minha e a apertou
- Ani, ele vai tentar te intimidar de todas as formas, mas lembre-se sempre que ele não tem poder sobre você – apenas assenti, mas ainda sentia o peso das palavras de Nate sobre os meus ombros. O dia tinha sido exaustivo e minha mente estava em um turbilhão, o que me deixava ainda mais cansada. Agora eu estava presa à realidade. O divórcio era uma certeza, mas e o resto? Eu ainda não sabia. O vazio parecia insuportável. Afastei o celular, deixando-o sobre a mesa, e puxei o cobertor até os ombros. Dulce me encarou, notando o gesto, mas não questionou, respeitando o momento, apenas colocou a mão sobre a minha, apertando levemente para mostrar que estava ali.Fechei os olhos, desejando que, por alguns segundos, pudesse escapar da minha própria mente.
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THE ESCORT
Fiksi PenggemarOntem quando saí da cama osol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou foi eu e eu já não sei se isso é vida.
