Capítulo 90

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Alfonso

A semana começou de fato para mim somente na terça-feira, já que na segunda cheguei de viagem e depois da reunião resolvi apenas questões básicas. Então, a terça-feira seria um caos, e começou exatamente como eu temia: lotada de reuniões inúteis, prazos estourando e e-mails demais de gente que queria mais do que entregava. E, pra melhorar, eu ainda tinha que separar os projetos para os vencedores da maldita imersão que prometeram nas Bahamas — uma decisão que eu não participei, mas que, de alguma forma, caía no meu colo como se tivesse sido ideia minha.

Ensinar. Nunca tive paciência. Nem vocação. Sempre preferi fazer. Ver acontecendo. E agora lá estava eu, separando dossiês, estruturando cronogramas, montando apresentações como se minha agenda não estivesse sufocante o bastante.

A verdade é que, naquela altura, o que mais me consumia era a sensação de que Anahi estava diferente. As mensagens que trocamos ao longo da semana tinham sido poucas, espaçadas, quase protocolares. Eu me peguei relendo algumas delas tentando identificar se tinha dito algo errado. Se havia passado algum limite.

Ela estava fria? Ou era só coisa da minha cabeça?

No meio disso tudo, ainda tive que lidar com Maite. Eu a amo, mais do que qualquer coisa. Mas às vezes ela me pressiona como se eu devesse satisfações por cada passo que dou. Me ligou numa noite qualquer da semana dizendo o quanto estava feliz por ver que eu "finalmente tinha esquecido Anahi".

— Não sei com quem você tá, mas irei descobrir. De toda forma, fico feliz que tenha seguido em frente — ela disse, com aquela entonação passivo-agressiva que só irmãos sabem usar.

Mal sabe ela.

Na segunda-feira, acordei atrasado. Tinha dormido mal, virado de um lado pro outro, inquieto. O trânsito estava um inferno. Meu motorista tentava aliviar, mas a cidade parecia conspirar contra mim.

— Senhor, quer que eu tente pegar o desvio pela 5ª?

— Quero que você voe, se possível — respondi, com ironia seca, os olhos grudados no relógio.

Cheguei na HE quase explodindo de irritação. Pedi café duplo. Fingi escutar a assistente falando sobre os compromissos do dia e entrei na sala onde aconteceria a primeira apresentação da imersão. Fui checar quem eram as ganhadoras, afinal.

E lá estavam elas.

Dulce eu reconheci de imediato. Já a outra...

Meu mundo parou por exatos três segundos.

Anahi.

Senti o coração bater de um jeito que não batia há muito tempo. O cabelo preso com um coque meio desfeito, a postura atenta, os olhos focados. Como se estivesse ali desde sempre. Como se nunca tivesse ido embora.

Engoli em seco, mas mantive o controle. Minha voz saiu firme quando dei as boas-vindas, embora cada célula do meu corpo gritasse por respostas.

— Vocês foram escolhidas entre dezenas de profissionais — comecei. — E durante esse mês, vão trabalhar diretamente comigo em dois projetos reais da empresa. Um deles é uma reestruturação de marca para um cliente internacional. O outro, um planejamento de expansão de atuação em solo latino. Vocês terão autonomia, mas também responsabilidade.

Enquanto falava, percebi os olhares dos funcionários, cochichos discretos. Era óbvio. Eu estava diferente. Só de vê-la ali, todo o meu eixo tinha mudado.

Durante o dia, me mantive focado. Quase. Eu a observava mais do que devia. Era impossível não notar como ela se conectava com tudo ao redor. Como dominava aquele ambiente com a calma de quem nasceu pra isso.

THE ESCORTOnde histórias criam vida. Descubra agora