Aquele Idiota 2 - 69_ Me encontra

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Marcos

A luz fraca do abajur iluminava o quarto mofado. O colchão velho no canto rangia sob o peso do corpo desacordado de Ayla.

Eu encarei a cena, e um sorriso de pura satisfação se formou nos meus lábios.

Eu venci.

Porra, eu venci.

Levantei, passando a língua pelos dentes, saboreando o gosto da vitória. A sensação era quase intoxicante. Ver Ayla ali, tão indefesa, me dava uma paz que eu não sentia há muito tempo.

Agora ela é minha.

Cada detalhe desse plano foi meticulosamente calculado. Anos de espera. Cada movimento, cada peça encaixada perfeitamente. A falha? Zero.

Ela nunca esteve tão perto de mim como agora.

O celular vibrou na minha mão. Olhei para a tela. Uma notificação.

Desaparecimento de Ayla.

Eu ri. Um riso baixo e seco.

— Tá todo mundo tão preocupado... — murmurei, deslizando pelo feed. — Pobrezinhos.

As fotos dela estavam em todos os lugares. Estavam atrás de Ayla.

Mas eles não iam encontrá-la.

Porque ninguém sabia onde procurar.

O farfalhar de passos ecoou do lado de fora da porta. O trinco girou, e Clara entrou, seguida por Sienna e Theo.

Clara sorriu ao me ver. Ela era a única que compreendia o que significava estar no controle.

— Tá tudo certo com ela? — Clara perguntou, encostando-se à parede.

— Tá. Dormindo feito um anjo. — Cruzei os braços, ainda olhando pra Ayla. — Ela vai se acostumar.

Theo se aproximou, as mãos nos bolsos, inquieto. Ele olhou de relance para o colchão, mas desviou rápido, como se não quisesse encarar o que tinha feito.

— E aí, Theo... — Sentei de novo na cadeira, girando devagar. — Dormiu bem depois da festa?

Ele deu um sorriso nervoso.

— Bem até demais. Não todo dia que a gente vê esse tanto de dinheiro na conta.

Clara riu de leve.

— Aposto que nunca viu nem metade do que o Marcos te deu.

Theo balançou a cabeça.

— Nem fudendo. Foi o suficiente pra largar a faculdade se eu quiser.

(...)

Ayla

Uma dor latejante na nuca me fez gemer assim que abri os olhos. A luz fraca do quarto queimou minha visão, forçando-me a piscar repetidamente.

O que... onde eu tô?

Tentei mexer o braço, mas algo me impediu. Meu pulso estava frio, preso por algo metálico que rangia toda vez que eu me movia. Olhei para baixo, o coração disparando.

Correntes.

Meus olhos correram pelo lugar. As paredes eram de madeira, desgastadas, como se aquele cômodo estivesse abandonado há anos. O chão estava sujo, o cheiro de umidade se misturava com o cheiro fraco de cigarro que parecia impregnado em tudo.

Isso não tá acontecendo.

Minha respiração começou a falhar, cada inspiração parecendo uma luta contra o pânico que subia pela minha garganta.

— S-socorro... — Minha voz saiu num sussurro rouco, fraco demais.

Engoli em seco, lutando contra o nó que apertava minha garganta.

— S-socorro. — Forcei minha voz, um pouco mais alta, mas cada palavra parecia arranhar por dentro.

A porta rangeu.

Eu congelei.

O som dos passos ecoou no chão de madeira, aproximando-se lentamente até a silhueta de Marcos preencher o batente.

— Bom dia, filhinha. — O sorriso dele era calmo demais. Como se nada daquilo fosse errado.

Minhas correntes se agitaram enquanto eu tentava puxar os braços, me afastar o máximo que podia, mesmo sabendo que não tinha para onde correr.

— Me tira daqui... — Minha voz falhou. — Por favor...

Ele inclinou a cabeça, me observando como se eu fosse um animal ferido.

— Eu sabia que você ia acordar assustada. Mas não precisa disso, Ayla. — Ele se aproximou, agachando-se ao meu lado. O colchão afundou levemente sob o peso dele.

Eu virei o rosto, sentindo as lágrimas encherem meus olhos.

— Por favor... — Repeti, a voz quebrando. — Me deixa ir.

— Não dá. — Ele passou a mão pelo meu cabelo, afastando uma mecha do meu rosto. Eu me encolhi com o toque. — Você sempre me força a fazer isso, sabia?

A sensação dele tão perto me revirou o estômago.

— Você tá doente. — Minha voz tremia, mas eu não conseguia parar de falar. — Isso não é normal, Marcos. Eu não sou sua.

A mão dele parou.

O ar ficou pesado.

— Não diz isso. — Ele apertou meu rosto com força, os dedos cravando na minha pele. — Você não entende nada, Ayla.

— Me solta! — Tentei me afastar, mas as correntes me puxaram de volta.

Ele me soltou bruscamente, se levantando.

— Eu tô sendo paciente. — Ele caminhou até a porta, as mãos nos bolsos. — Mas não brinca comigo, porque paciência tem limite.

As lágrimas desceram antes que eu pudesse contê-las.

Ele olhou pra mim uma última vez antes de sair, deixando a porta entreaberta.

Assim que ouvi o clique da chave girando, meu corpo desabou.

Eu solucei baixinho, tentando não fazer barulho.

Dylan...

Por favor...

Me encontra.
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Continua...

Aquele IdiotaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora