Marcos
A luz fraca do abajur iluminava o quarto mofado. O colchão velho no canto rangia sob o peso do corpo desacordado de Ayla.
Eu encarei a cena, e um sorriso de pura satisfação se formou nos meus lábios.
Eu venci.
Porra, eu venci.
Levantei, passando a língua pelos dentes, saboreando o gosto da vitória. A sensação era quase intoxicante. Ver Ayla ali, tão indefesa, me dava uma paz que eu não sentia há muito tempo.
Agora ela é minha.
Cada detalhe desse plano foi meticulosamente calculado. Anos de espera. Cada movimento, cada peça encaixada perfeitamente. A falha? Zero.
Ela nunca esteve tão perto de mim como agora.
O celular vibrou na minha mão. Olhei para a tela. Uma notificação.
Desaparecimento de Ayla.
Eu ri. Um riso baixo e seco.
— Tá todo mundo tão preocupado... — murmurei, deslizando pelo feed. — Pobrezinhos.
As fotos dela estavam em todos os lugares. Estavam atrás de Ayla.
Mas eles não iam encontrá-la.
Porque ninguém sabia onde procurar.
O farfalhar de passos ecoou do lado de fora da porta. O trinco girou, e Clara entrou, seguida por Sienna e Theo.
Clara sorriu ao me ver. Ela era a única que compreendia o que significava estar no controle.
— Tá tudo certo com ela? — Clara perguntou, encostando-se à parede.
— Tá. Dormindo feito um anjo. — Cruzei os braços, ainda olhando pra Ayla. — Ela vai se acostumar.
Theo se aproximou, as mãos nos bolsos, inquieto. Ele olhou de relance para o colchão, mas desviou rápido, como se não quisesse encarar o que tinha feito.
— E aí, Theo... — Sentei de novo na cadeira, girando devagar. — Dormiu bem depois da festa?
Ele deu um sorriso nervoso.
— Bem até demais. Não todo dia que a gente vê esse tanto de dinheiro na conta.
Clara riu de leve.
— Aposto que nunca viu nem metade do que o Marcos te deu.
Theo balançou a cabeça.
— Nem fudendo. Foi o suficiente pra largar a faculdade se eu quiser.
(...)
Ayla
Uma dor latejante na nuca me fez gemer assim que abri os olhos. A luz fraca do quarto queimou minha visão, forçando-me a piscar repetidamente.
O que... onde eu tô?
Tentei mexer o braço, mas algo me impediu. Meu pulso estava frio, preso por algo metálico que rangia toda vez que eu me movia. Olhei para baixo, o coração disparando.
Correntes.
Meus olhos correram pelo lugar. As paredes eram de madeira, desgastadas, como se aquele cômodo estivesse abandonado há anos. O chão estava sujo, o cheiro de umidade se misturava com o cheiro fraco de cigarro que parecia impregnado em tudo.
Isso não tá acontecendo.
Minha respiração começou a falhar, cada inspiração parecendo uma luta contra o pânico que subia pela minha garganta.
— S-socorro... — Minha voz saiu num sussurro rouco, fraco demais.
Engoli em seco, lutando contra o nó que apertava minha garganta.
— S-socorro. — Forcei minha voz, um pouco mais alta, mas cada palavra parecia arranhar por dentro.
A porta rangeu.
Eu congelei.
O som dos passos ecoou no chão de madeira, aproximando-se lentamente até a silhueta de Marcos preencher o batente.
— Bom dia, filhinha. — O sorriso dele era calmo demais. Como se nada daquilo fosse errado.
Minhas correntes se agitaram enquanto eu tentava puxar os braços, me afastar o máximo que podia, mesmo sabendo que não tinha para onde correr.
— Me tira daqui... — Minha voz falhou. — Por favor...
Ele inclinou a cabeça, me observando como se eu fosse um animal ferido.
— Eu sabia que você ia acordar assustada. Mas não precisa disso, Ayla. — Ele se aproximou, agachando-se ao meu lado. O colchão afundou levemente sob o peso dele.
Eu virei o rosto, sentindo as lágrimas encherem meus olhos.
— Por favor... — Repeti, a voz quebrando. — Me deixa ir.
— Não dá. — Ele passou a mão pelo meu cabelo, afastando uma mecha do meu rosto. Eu me encolhi com o toque. — Você sempre me força a fazer isso, sabia?
A sensação dele tão perto me revirou o estômago.
— Você tá doente. — Minha voz tremia, mas eu não conseguia parar de falar. — Isso não é normal, Marcos. Eu não sou sua.
A mão dele parou.
O ar ficou pesado.
— Não diz isso. — Ele apertou meu rosto com força, os dedos cravando na minha pele. — Você não entende nada, Ayla.
— Me solta! — Tentei me afastar, mas as correntes me puxaram de volta.
Ele me soltou bruscamente, se levantando.
— Eu tô sendo paciente. — Ele caminhou até a porta, as mãos nos bolsos. — Mas não brinca comigo, porque paciência tem limite.
As lágrimas desceram antes que eu pudesse contê-las.
Ele olhou pra mim uma última vez antes de sair, deixando a porta entreaberta.
Assim que ouvi o clique da chave girando, meu corpo desabou.
Eu solucei baixinho, tentando não fazer barulho.
Dylan...
Por favor...
Me encontra.
.
.
.
.
Continua...
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Aquele Idiota
RomanceAyla é uma garota que enfrenta desafios que vão muito além da adolescência. Sob o mesmo teto que sua meia-irmã Sienna e seu padrasto abusivo, Marcos, ela luta diariamente para se proteger de um pesadelo que parece não ter fim. Na escola, Ayla é rotu...
