Aquele Idiota 3 - 01_ Menos safado

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Manoela

Na minha casa, sábado de manhã nunca foi sinônimo de silêncio.

Eu acordei com a voz do meu pai cantando alto — e terrivelmente desafinado — alguma música antiga que ele jurava ser um clássico. Desci as escadas ainda de pijama e encontrei a cena típica: minha mãe na bancada da cozinha, rindo com uma xícara de café na mão, e meu pai fazendo panquecas.

— Bom dia, meu anjo — ele disse, virando para minha mãe com aquele sorriso besta de apaixonado que ele sempre teve.

— Meu anjo já sou eu, viu? — brinquei, me jogando numa das cadeiras.

— Você é minha obra-prima, mas sua mãe é meu anjo. — Ele piscou pra mim, e minha mãe deu um leve tapa no ombro dele, rindo.

Ayla — a minha mãe — parecia ainda mais linda do que de costume. Cabelo preso no alto, moletom folgado e olhar tranquilo.

Larah apareceu segundos depois, com uma blusa claramente minha e uma cara de sono insuportável.

— Bom dia — disse, como se não tivesse acabado de roubar minha roupa sem pedir.

— Linda a blusa, hein? De quem será? — perguntei, cruzando os braços.

— A culpa é da genética. Eu fico linda com qualquer coisa — respondeu, se sentando como se nada tivesse acontecido.

Antes que eu retrucasse, a porta da frente se escancarou.

— AAAAAH! QUE SAUDADE DAS MINHAS SOBRINHAS MAIS LINDAS DESSE PLANETA! — Hazel entrou como um furacão de glitter, óculos escuros, cropped e aquele batom vermelho que já era marca registrada.

— Tia Hazel! — eu e Larah falamos juntas, correndo pra abraçar ela.

— Meu Deus, como vocês crescem cada dia mais! Tô me sentindo com 80 anos! — ela exagerou, apertando a gente com força.

Ela entrou rebolando até a cozinha e tascou um beijo estalado na bochecha da minha mãe.

— Ayla, cunhadinha, como você tá sempre tão diva assim? A vida inteira humilhando as outras mães.

— E você continua exagerada. — minha mãe disse, rindo, mas retribuiu o carinho com aquele jeito doce que era só dela.

— Quer café, mana? — meu pai perguntou.

— Não, quero beijo — ela respondeu, se inclinando para a bochecha dele e fazendo um estalo dramático. — Meu irmão favorito.

— Mas eu sou seu único irmão, maluca.— Dylan revirou os olhos, com um sorriso torto.

— E o melhor mesmo assim — ela piscou.

Larah se jogou no sofá com uma almofada no colo.

— Cadê o Aiden, tia? — Larah perguntou pelo namorado da nossa tia. — Veio sozinha hoje?

— Tá trabalhando, meu amor. Disse que vinha depois. — Hazel fez uma pausa e completou com um sorrisinho malicioso: — Mas me mandou um áudio que, se eu desse play aqui, vocês duas iam sair traumatizadas.

— ECA! — gritei na hora.

— HAZEL! — minha mãe falou junto comigo, segurando o riso.

— Ai, gente, vocês acham que vão crescer e o mundo fica menos safado? É só o começo — ela piscou.

Meu pai limpava a frigideira, fingindo que não estava ouvindo.

— Você vai traumatizar nossas filhas antes do café da manhã, Hazel. Parabéns.

— Amor — minha mãe se virou pra ele, pegando o prato das mãos dele —, deixa ela. Pelo menos elas já sabem de onde veio o temperamento delas.

— Aí depende... da parte doce ou da parte insuportável? — ele perguntou com um sorrisinho.

Minha mãe revirou os olhos, mas não respondeu. Apenas deu um beijo rápido na bochecha dele. E eu, como sempre, fiquei só observando os dois e pensando:
É, esses dois continuam sendo aquele casal.

— Bom — disse Hazel, se jogando no sofá —, agora que estou aqui, o dia vai ser mais animado. Qual é o plano?

— Dormir — respondi.

— Comer — Larah disse ao mesmo tempo.

— Ser feliz — Dylan completou, sentando-se com a xícara de café e esticando o braço pra colocar a mão na cintura da minha mãe, puxando ela de leve pro colo dele.

— Meu Deus — murmurou Hazel, pegando o celular —, alguém grava esses dois. Isso aqui é um casal de cinema. Ainda chamando de “meu anjo” depois de tantos anos... quero ver qual homem faz isso hoje em dia.

— Eu faço — disse meu pai, dando um beijo na testa da minha mãe. — Só não repito, senão vira clichê.

— Você é o clichê, Dylan — minha mãe respondeu, rindo, se encaixando no colo dele.

E ali, entre panquecas, blusas roubadas e declarações sem vergonha, o dia começava como todos os outros por aqui: com amor, zoeira e um pouco de gritaria.
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Continua...

Aquele IdiotaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora