Ayla
- Amor? - meu pai chamou com cautela.
Ela piscou lentamente, como se saísse de um transe.
- Eu... só estava verificando... se estava tudo bem. - Sua voz saiu baixa, quase monótona.
Ele franziu o cenho, mas não pressionou. Eu também permaneci em silêncio, mas a inquietação que aquela cena me causou foi impossível de ignorar. Ela estava estranha... mais do que nunca.
(...)
Deitada na cama do meu antigo quarto, me aconcheguei no cobertor que meu pai tinha trazido mais cedo. O silêncio era tão absoluto que o tique-taque do relógio na parede parecia ensurdecedor.
Um leve bater na porta me fez virar na cama.
- Entre... - murmurei.
Edson entrou, carregando duas xícaras de chá fumegante.
- Achei que não conseguiria dormir. - Ele sorriu de lado.
Sentei-me, aceitando a xícara com um sorriso suave.
- Obrigada, pai... por tudo.
Ele se sentou ao meu lado, apoiando os cotovelos nos joelhos, como fazia quando estava pensativo.
- Você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe? - Sua voz estava rouca, mas firme. - Sempre vou estar aqui por você.
Meus olhos se encheram de lágrimas antes que eu pudesse evitar.
- Eu sei, pai... - respirei fundo. - Eu só queria que as coisas fossem mais fáceis... como antes.
Ele assentiu lentamente, seu olhar perdido no vapor que subia de sua xícara.
- Também queria isso... - sussurrou. - Queria poder te proteger de tudo, mas parece que, quanto mais tento, mais as coisas escapam do meu controle.
Coloquei minha mão sobre a dele.
- Você já fez mais do que eu poderia esperar... Só o fato de estar aqui já significa tudo pra mim.
Ele me puxou para um abraço apertado, seguro e familiar. Era como voltar para casa.
- Eu te amo, filha. Sempre. - Ele murmurou contra meus cabelos.
- Eu também te amo, pai... mais do que você imagina.
(...l
Desci as escadas e entrei na cozinha, onde meu pai estava de avental, mexendo com concentração em uma frigideira. Ele não me percebeu até que eu encostei na bancada.
- Bom dia, chef! - Falei com um sorriso, já sabendo que ele ia fazer algum comentário.
Ele se virou e, com um ar de mistério, levantou a sobrancelha.
- Ah, bom dia, Ayla. Estava só preparando a melhor refeição do dia. O que você acha que vai ser? - ele disse, fazendo uma pausa dramática.
Olhei para a frigideira e, com uma careta divertida, disse:
- Se for igual da última vez, vou pedir para o bombeiro ficar de prontidão.
Ele fez uma expressão de surpresa, fingindo que ficou ofendido.
- Como assim? Eu sou um chef de mão cheia, Ayla! Quem mais aqui faz ovos mexidos de maneira tão... única?
Eu ri, lembrando de quando ele queimou a metade da comida da última vez que tentou impressionar.
- Única? Essa é uma palavra interessante para descrever uma mistura de carvão com ovo. - Falei, rindo.
Meu pai fez uma cara de quem estava exagerando na tristeza, mas não conseguiu segurar o riso por muito tempo.
- Você tem razão... Eu me empolguei com o tempero e acabei criando um prato exclusivo. Mas hoje, eu juro que vou surpreender.
Aquela brincadeira me fez sorrir. Eu me sentei à mesa, tentando me concentrar no momento, quando Fernanda entrou na cozinha, ainda meio sonolenta.
- O que está acontecendo aqui? Parece até uma competição de chefes. - ela disse, rindo baixinho.
Meu pai não perdeu tempo.
- Ah, nada disso. Só estou tentando convencer minha filha a ser mais generosa com os elogios. Ela acha que eu sou um desastre na cozinha.
Eu cruzei os braços, me fazendo de difícil.
- Eu sou exigente, Edson. Não é qualquer prato que vai me convencer.
Fernanda deu um sorriso, parecendo divertida com a troca de provocações. Então, meu pai, com um gesto exagerado, colocou o prato na mesa, se inclinado dramaticamente.
- Prontinho! E aí, Ayla, está preparada para a verdadeira obra-prima? Prepare-se para o melhor ovo mexido da história.
Olhei para o prato, dando uma olhada desconfiada, e então olhei para ele, com um sorriso desafiador.
- Bem, se isso for uma obra-prima, você vai ter que me convencer muito bem. - Respondi, e ele fez uma cara de quem estava ansioso para ver minha reação.
Peguei o garfo e dei uma mordida, sem esconder meu sorriso.
- Hmm... não está tão mal assim. Acho que você ainda vai sobreviver na cozinha por mais alguns dias. - Falei, rindo.
Edson ergueu os braços como um verdadeiro vencedor.
- Sim! Eu sabia que meu talento era inegável!
Fernanda observava tudo em silêncio, um sorriso no rosto, enquanto meu pai parecia um verdadeiro mestre da culinária.
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Continua...
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Aquele Idiota
RomanceAyla é uma garota que enfrenta desafios que vão muito além da adolescência. Sob o mesmo teto que sua meia-irmã Sienna e seu padrasto abusivo, Marcos, ela luta diariamente para se proteger de um pesadelo que parece não ter fim. Na escola, Ayla é rotu...
