Aquele Idiota 2 - 70_ Talvez eu seja

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Ayla

O silêncio do quarto parecia amplificar cada batida do meu coração. Minhas mãos tremiam enquanto eu puxava, inutilmente, contra as correntes que apertavam meus pulsos. A pele já estava vermelha e marcada.

Marcos tinha saído, mas isso não significava que eu estava sozinha. Clara, Sienna e Theo estavam por perto. Eu podia sentir.

Fechei os olhos com força, tentando não me perder no desespero que ameaçava me engolir.

Você precisa pensar.

Minha respiração estava descompassada, mas comecei a contar mentalmente. Um, dois, três… O mesmo método que Dylan me ensinou pra quando eu sentisse um ataque de pânico chegando.

Dylan…

Ele viria.

Eu sabia que ele viria.

Mas… e se fosse tarde demais?

Sacudi a cabeça, espantando o pensamento. Não. Eu não podia deixar o medo me consumir.

O colchão rangeu quando me ajeitei melhor, encostando as costas na parede de madeira. Meu olhar vagou pelo quarto. Cada detalhe importava. Se houvesse qualquer maneira de sair, eu precisava encontrá-la.

A porta estava entreaberta, mas eu sabia que Marcos trancava do lado de fora.

Meus olhos correram até uma pequena janela no canto. Estava suja e enferrujada, mas talvez…

Arrastei o corpo lentamente, as correntes se esticando. Cada movimento me fazia morder o lábio para não gritar de dor. Quando cheguei mais perto, estiquei o pescoço para ver melhor.

A janela era pequena demais para eu passar por ela. Mesmo que conseguisse quebrá-la, as grades do lado de fora impediriam qualquer tentativa de fuga.

Meu peito afundou em desânimo.

Mas, então, algo brilhou em um canto próximo à porta.

Um pedaço de metal, pequeno, quase imperceptível.

Engatinhei devagar, o som das correntes ecoando pelo quarto. Meus dedos deslizaram até o objeto, pegando-o com cuidado. Era um prego velho, enferrujado, mas resistente.

Talvez eu consiga forçar a fechadura…

Respirei fundo, tentando ignorar as mãos trêmulas.

O plano era arriscado. E se Marcos voltasse? Se Clara ou Sienna me vissem?

Mas ficar parada não era uma opção.

Com o prego em mãos, voltei a me sentar no colchão, escondendo o pedaço de metal no cós do meu jeans, debaixo da blusa larga.

O som de passos ecoou do lado de fora.

Meu corpo se encolheu automaticamente.

A porta rangeu mais uma vez, e Clara entrou.

— Ah, você acordou. — Ela sorriu, cruzando os braços.

Tentei manter a expressão neutra, mas por dentro eu estava fervendo de raiva.

— O que você tá fazendo aqui, Clara? — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.

Ela se aproximou lentamente, se agachando ao meu lado.

— Eu só vim ver se você tá confortável.

— Confortável? — Soltei uma risada irônica. — Você acha que acorrentar alguém é conforto?

Clara inclinou a cabeça, me analisando como se eu fosse algum tipo de experimento.

— Você nunca entendeu, Ayla. O Marcos tá certo sobre você.

Engoli o ódio que subiu pela garganta.

— Ele não tá certo. Ele é um monstro. E você… — meus olhos se estreitaram — …é tão doente quanto ele.

Clara riu baixo, mas o sorriso não chegou aos olhos.

— Talvez eu seja.

Ela se levantou, caminhando até a porta.

— De qualquer forma, você vai ficar aqui por um bom tempo.

Antes de sair, ela parou, olhando por cima do ombro.

— E, Ayla… não tenta nada estúpido.

A porta se fechou, e o som da chave girando ecoou novamente.

Aquele prego parecia pesar o dobro no meu jeans.

Ela não faz ideia.

Eu ainda tinha uma chance.

E eu ia usar.
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Continua...

Aquele IdiotaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora