Aquele Idiota 3 - 10_ Queimar viva

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Manoela

No caminho até a escola, o vento entrava pela janela do carro e bagunçava meu cabelo, mas eu mal sentia. Kimberly ia no banco da frente, comentando sobre horários e professores com o Wellington. Eu só fingia que ouvia.

Porque, na real, eu ainda tava lá.

No bar.
Naquela noite.
Naquela maldita lembrança.

— Tá tudo bem aí atrás, Manu? — a voz do Wellington cortou meus devaneios. Ele olhou pra mim pelo retrovisor, a expressão suave, mas com aquele traço de preocupação que ele nem disfarçava mais.

Assenti devagar.

— Só... cansada.

Ele não respondeu. Só fez aquele som de nariz de quem não acreditou muito, mas respeitou. O tipo de silêncio que só alguém que gosta muito da gente sabe fazer.

Quando chegamos no colégio, o caos já tinha começado: alunos correndo, professor perdido, fila na secretaria. O primeiro dia nunca era normal.

— Já já te vejo na sala, tá? — Wellington disse, beijando minha testa antes de sair.

Sorri de leve.

Kimberly riu enquanto ajeitava a mochila.

Assim que pisamos no pátio, minha irmã veio praticamente correndo, com os olhos brilhando como se tivesse visto o próprio Justin Bieber.

— Gente! — ela sussurrou, parando na nossa frente — Tem um aluno novo no terceiro ano A. Chegou hoje! Juro por Deus, ele parece um personagem de fanfic.

— Lá vem. — murmurei.

— Alto, cara de mau, meio misterioso... e MUITO gato. É o que tava no bar ontem! Eu reconheci na hora! Tava de jaqueta preta, encostado no balcão… ai, sério, parece até ilegal ser tão bonito.

Minha respiração travou.

— Como é o nome dele? — perguntei, num fio de voz.

— Drake. — Larah respondeu, completamente desavisada. — Imagina se ele cai na sua sala? Eu morro.

Meu estômago virou do avesso.

Kimberly me olhou na mesma hora. E o olhar dela dizia tudo.

Fudeu.

— Ele… vai estudar no terceiro A? — perguntei, tentando soar natural.

— Sim! Acabei de ouvir duas meninas falando. Ele tá na sua sala, Manoela. Sua sala! Arruma ele pra mim, mana!  — ela falou rindo, sem nem perceber o desespero tomando conta do meu rosto.

Eu não consegui responder. Só comecei a andar, como se minhas pernas tivessem tomado controle próprio.

Kimberly veio atrás, sussurrando:

— Você tá bem?

— Não sei. — respondi.

Atravessamos o corredor. Meu coração batia no ritmo de um alarme. Cada passo me levava mais perto de algo que eu não sabia lidar. Algo que eu não queria encarar. Algo que já tinha quebrado tudo dentro de mim uma vez.

Quando entrei na sala, o cheiro do lugar me acertou antes de tudo. Giz, desinfetante, perfume barato de adolescente. Mas nada disso importava.

Porque ele tava lá.

Encostado na janela, de braços cruzados, a mesma jaqueta preta.

Drake.

O mesmo olhar. O mesmo sorriso.

Ele me viu.

E o mundo parou por dois segundos.

Ele ergueu o canto da boca, num sorrisinho lento, quase debochado. Como se dissesse “olha quem veio.”

Wellington — que também iria ser ser da minha sala — que estava sentado em uma das mesas também notou meu corpo travar. Ele franziu o cenho, sem entender nada.

Mas eu entendi.

Drake não tava só de volta.

Ele tava na minha escola.
Na minha sala.
Na minha rotina.

No meu inferno pessoal.

E eu?

Eu tava prestes a queimar viva.
.
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Continua...

Aquele IdiotaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora