Capítulo 102.

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O gosto amargo impregnado na minha boca foi o suficiente para me fazer abrir os olhos pela milésima vez

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O gosto amargo impregnado na minha boca foi o suficiente para me fazer abrir os olhos pela milésima vez. Pisquei devagar, sentindo o desconforto de engolir em seco. Minha boca estava seca e áspera, como se estivesse forrada de lixa. Levantei a cabeça, tentando encontrar algo ao redor para focar, mas, como das últimas incontáveis vezes em que despertei — ou pelo menos acho que despertei —, não consegui enxergar nada.

Minha cabeça latejava com tanta intensidade que me obrigava a fechar os olhos e ranger os dentes de pura agonia. Dor. Era tudo o que eu sentia. Sabia que estava sentado; a pressão na minha bunda deixava claro. Meus braços, amarrados e presos atrás da cadeira, puxavam meus ombros num ângulo insuportável, agravando ainda mais a dor do músculo perfurado e a tensão na clavícula.

Cada osso do meu corpo parecia gritar contra o frio, enquanto as roupas ainda úmidas provocavam calafrios intermitentes. Tudo doía. Absolutamente tudo.

Mas, de algum jeito doentio, eu estava aliviado. O galho passou tão perto da cabeça dela que, se tivesse acertado, ela teria morrido na hora, o crânio perfurado sem chance de reação. E eu teria morrido junto. Se eu não morresse, iria arrastar aquele velho desgraçado pro meu inferno e foder a bunda dele com o mesmo galho.

Eu vi todo o acidente. Não conseguia fechar os olhos, o medo de que algo mais nos atingisse e não houvesse volta me paralisava. Por mais que eu não pudesse fazer absolutamente nada, o pensamento martelava sem piedade na minha mente. Enquanto o carro descia descontrolado, capotando pelo bosque, um pedaço de madeira desgraçado me acertou. Não faço ideia de como essa porra aconteceu; eu mal sentia a dor, de tão apavorado.

Quando finalmente olhei pra baixo e vi o galho a centímetros da cabeça dela, eu quase desabei. Quase morri só de imaginar o que poderia ter acontecido. Quando o carro finalmente parou, eu arranquei o galho às pressas, jogando-o pela janela sem pensar, e me virei para verificar se ela estava inteira. Nem um arranhão. Porra, nem um arranhão.

A água gelada e todo aquele frio entorpeciam meu corpo, ajudando a aliviar a dor, enquanto a adrenalina explodia no meu peito. Mas quando Angel parou de mexer os braços e as pernas na água, o desespero tomou conta de mim. Sem pensar, acabei deixando Diana para trás. Não podia, não conseguia de jeito nenhum deixá-la morrer nos meus braços.

Ignorei cada dor que rasgava meu corpo e nadei como um maluco em direção à margem do rio, puxando Angel com toda a pressa que o pânico me permitia. Tirei-a da água, e meu coração quase parou ao vê-la.

Seus lábios estavam quase pretos, seu rosto tão branco quanto a neve. Quis começar a reanimá-la ali mesmo, mas então o peso da realidade me acertou. Angel nunca me perdoaria por abandonar a mãe dela — que havia acabado de "voltar dos mortos" — para morrer outra vez.

Com o peito pesado e uma raiva que queimava mais que o frio, voltei para aquela maldita água. Diana ainda tentava nadar, mas se afogava mais do que avançava. Perdi-a de vista por um segundo que pareceu uma eternidade. Fiquei louco, vasculhando com os olhos e as mãos aquele rio escuro e gelado pra caralho, até que finalmente a achei. Segurei-a nos braços e a tirei dali, jogando seu corpo no chão sem o menor cuidado. Não me importava com essa merda. Minha prioridade era Angel.

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