Capítulo 101

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Depois de algum tempo ouvi uma voz atrás de mim, era a Vicky.

Vicky: Oi...

Eu: Oi... – suspirei. – Quer? – dei o baseado a ela e ela pegou deu um trago e me devolveu.

Vicky: Muito tempo que não fumo... Está fumando desde quando?

Eu: Desde o câncer. Era alivio de dor para a Natalie então eu fumava com ela. Minha filha que não escute.

Vicky: Ah sim... É alto aqui... O que acha de sair da beirada?

Eu: Estou bem aqui.

Vicky: Mas eu estou tonta só de ficar aqui... O que você tem? Soube que você ficou na cama o dia todo, que anda chorando escondido. – eu suspirei.

Eu: Ela viu né?

Vicky: Sim, viu... E ela está preocupada com você. Você é esposa dela, ela te ama e quer ajudar.

Eu: Esse ano foi muito intenso pra mim. Em menos de um ano olha tudo que aconteceu na minha vida, na minha casa com a minha família. É demais pra uma pessoa suportar não acha?

Vicky: É, eu acho sim. É demais pra uma pessoa suportar. Mas você está sofrendo agora e não precisa passar por isso sozinha.

Eu: Quarenta e cinco minutos... Por quarenta e cinco minutos eu achei que minha filha estava morta. Eu senti a pior dor da minha vida. Nós tivemos três filhos lindos e saudáveis, minha gestação não foi fácil. Não foi fácil segurar o Ethan, mas ele é perfeito e muito saudável. Foram 3 fertilizações que deram certo, não sofremos nenhum aborto e isso é maravilhoso e é tão comum perder um bebê numa fertilização. E fomos muito abençoadas e sou grata todos os dias por isso. A Bia é a minha garotinha, e ela vai ser pra sempre a minha menininha, mesmo a Nininha sendo uma bebê ainda, a Bia vai ser sempre a minha garotinha. E por 45 minutos o meu coração sentiu a dor absurda de ter que aprender a conviver com a ausência da minha garotinha. – secava as lágrimas – Foram os piores 45 minutos da minha vida. Quando aquele corpo foi descoberto e eu vi que aquela não era a minha filha eu senti um alivio e ao mesmo tempo um pavor e uma dor pelos pais daquela menina. O que mais falta nos acontecer? Por que tudo isso está acontecendo com a gente? O que fizemos de errado? Aquela mulher matou duas crianças porque o filho dela foi condenado pelo que ele fez de errado. Pelo crime que ele cometeu. Foi justo ele pagar pelo que fez. O que nós fizemos de errado? O que minha filha fez de errado para ser exposta, pra ser violentada, para ser atropelada e hoje estar usando um andador para se locomover. O que minha esposa fez de errado por ter câncer nas duas mamas de uma só vez aos 36 anos e ter feito 6 meses de tratamento, ter ficado mal, ter chegando no ponto de achar que morreria, de bater o carro por estar se sentindo mal e machucar nossa bebê? O que meu filho fez de errado para ver a mãe sofrer, a irmã quase morrer, ser atingido num atentado na porta da escola? O que minha bebê fez para quase perder a mãe? Quase perder os irmãos? Qual o sentido de tudo isso?

Vicky: Não tem sentido mesmo Pri, nunca saberemos o motivo disso tudo, mas olha para vocês hoje... Vocês estão bem, vocês estão vivas, estão saudáveis, a Bia está se recuperando. Você está exausta e precisa de ajuda psicológica porque você aguentou a barra de tudo isso. É muita coisa pra você Priscilla, e por mais que haja uma rede de apoio a nossa mente não aguenta em algum momento. Estamos aqui para te ajudar. Me deixa ajudar você? Vamos ao médico, vamos cuidar da sua mente?

Eu: Não sei se minha mente tem conserto...

Vicky: Tem sim, se você deixar tem sim. Vem – me estendeu a mão e eu segurei. – Desce dai primeiro. – eu me virei e desci e ela me abraçou.

Eu: Eu estou com medo de respirar... – comecei a chorar.

Vicky: Eu sei... Mas vamos ajudar você. Não precisa fazer isso sozinha, não precisa ficar sozinha nisso, não precisa sentir isso sozinha Pri, é pesado demais pra ser só você. – conversamos um tempo ali no terraço.

Eu: Obrigada por isso...

Vicky: Estarei sempre aqui ok? Assim como você e Natalie sempre estão comigo... Você é a minha melhor amiga, a pessoa que mais me ajudou a me reerguer, que sempre esteve do meu lado. Eu não te deixaria sozinha nunca.

Eu: Obrigada... – ela foi embora eu desci e fui tomar banho, escovar os dentes. Quando sai do closet tinha uma bandeja na cama com dois super sanduiches, coca cola e batata frita.

Nat: Achei que estaria com fome e eu estou com fome.

Eu: Estou sim e um sanduiche agora é tudo que eu preciso. – me sentei na cama peguei o sanduiche e dei uma bela mordida. – Que delícia.

Nat: Está bom né?

Eu: Sim, está...

Nat: Nina falou assim hoje "Mamãe quelo tatata fita, caninha e depois um tetezinho bem quentinho" – eu explodi numa risada.

Eu: Batata frita com carne e mamadeira? Que dor de barriga.

Nat: Essa criança não tem fundo. Fiz a batata frita pra ela jantar a carninha. Cruzou até as perninhas pra comer. E ela falou que quer um carro também.

Eu: Ai meu Deus...

Nat: Quer... Um carro igual da mamaim... Eu quelo um calo igual da mamaim... – a imitou.

Eu: Eu já tenho que gastar uma grana comprando um carro pra adolescente da casa agora tenho que dar um carro pra criança de quase 2 anos também? – rimos.

Nat: O aniversário dela tá chegando, podemos comprar um elétrico pra ela.

Eu: A gente vê isso...

Nat: Ela vestiu uma roupa hoje, ela pegou uma saia de preta de tule uma boina dela, uma  bolsa e com a dificuldade dela ela vestiu falando assim " mamãe, igual mamaim xaindo baiá" (Mamãe saindo pra trabalhar)- eu gargalhei. - Tirei uma foto - me mostrou a foto e eu quase morri de amores. 

Obs: Essa Nina kkkkkkk

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Obs: Essa Nina kkkkkkk

Eu: Eu não vou trabalhar assim... Essa menina está demais. - demos risada.  Terminamos de comer escovamos os dentes e fomos deitar.

Nat: Amor?

Eu: Hum?

Nat: Quer conversar sobre tudo?

Eu: Eu não estou segurando a barra... É muita coisa.

Nat: Eu sei. Você foi muito forte todo esse tempo, mas não precisa fazer isso sozinha tá? – me deu um selinho.

Eu: Eu te amo.

Nat: Eu também te amo. – eu fui ao médico que a Virginia marcou. Natalie, Vicky e Virginia foram comigo. Eu estou com depressão, vou tomar uma medicação e fazer terapia. Tudo ficaria bem...

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