96

54.3K 2.8K 695
                                        

— Me deixa sair, senhor!

Gritei, ofegante.

— Do nada, eu sou senhor? Dá pra você me explicar o que aconteceu?

— Gustavo, me deixa sair, por favor, só me deixar sair daqui.

Pedi, engolindo em seco. Parecia estar sufocada.

Gustavo levou as mãos ao seu rosto, alisando e respirou fundo. Senti que toda paciência dele se recarregou naquela respirada. Ele me encarou e desencostou da porta.

— Gabriela, vamos lá. Eu só quero uma explicação. Não é difícil. A gente tava super bem. O que eu fiz? Ou por acaso você é alguma maluca? Tá fazendo isso por que, do nada?

— Não, eu não sou maluca. Quer dizer, pode ser que eu esteja ficando. Quando eu sair desse inferno que você me colocou, eu procuro ajuda pra saber e te dar essa resposta. Com certeza, depois disso tudo, se eu sair viva, vou precisar. Mas, assim, agora, eu só quero sair daqui.

— Já chega! Caralho, você acha que eu sou o que, porra? Palhaço? Puta que pariu, garota geniosa do caralho! 

Ele gritou, furioso e socou a porta atrás dele. Cheguei um pouco para trás, dando espaço.

— Nossa, quantos palavrões foram aí? O "Caralho" foi, no mínimo, uns dois, né?

Debochei, depois do mini show dele.

Gustavo me fuzilou com os olhos. Ele ficou alguns minutos olhando para o lado, respirando fundo. Parecia pensar em algo.

— Vou perguntar pela última vez, por que? Não estava tudo bem? Me dá só uma resposta e eu vou te deixar sair.

A serenidade forçada na voz rasgada dele era notável.

Eu queria fugir daquilo tudo e dos sentimentos que estavam crescendo dentro de mim. Eu sabia que tudo ia acabar em segundos, se eu não fizesse aquilo.

A sensação de ver Gustavo nos braços da noiva perfeita dele, eu conhecia. E não era nem um pouco boa pra mim. O que de fato Gustavo era lá fora, o que ele representava no coração e na vida das meninas desse lugar, não era nem um pouco bom pra mim. Eu precisava recolher a minha única dignidade existente. O meu único orgulho. Que era, mediante a isso tudo, não abandonar a mim mesma.

— Porque...

Tentei, mais uma vez, sem olha-lo.

— Gabriela?

Chamou ele, mais uma vez, paciente. Logo, ele foi se aproximando devagar. Aqueles olhos pretos pareciam me deixar em hipnose.

— Calma, vamos do começo, vem cá..

Gustavo levou sua mão esquerda para meu braço, tocando com a ponta dos dedos e acariciando devagar. Sua mão direita agarrou meu rosto, com firmeza, fazendo com que eu não pudesse olhar para o lado.

Era a jogada de mestre. Me arrepiei, cedendo um pouco em suas mãos.

— Não, Gustavo, não, não vem..

Sussurrei, mole e empurrei um pouco sua barriga. Ele não se moveu e firmou um pouco mais nossos corpos, mordendo o lábio.

— Certeza?

Ele sussurrou de volta, deslizando as mãos para dentro de meus cabelos e dando uma leve puxadinha.

Oh pai, oh Deus, vem sim...

— Não. Quer dizer, vem, vem sim, vem.

Agarrei seu quadril, fechando os olhos e arranhando suas entradinhas. Ele semi-serrou nossas bocas e minha consciência deu um grito tão grande, que quase estourou tudo dentro de mim. Meu cérebro capturou a imagem estampada de sua noiva.

Não Gabriela, porra!

Abri os olhos e abaixei a cabeça, empurrando, agora, com força, seu corpo.

— Não! Quer dizer, não, não vem! Não vem!

Que confusão. Meu Deus, concentra!

— Tem certeza?

Ele sorriu, malicioso, dando um passo para frente. Dei outro passo para trás e gesticulei que não para ele.

— Tenho, fica aí. É isso, é isso que eu to tentando dizer, não vem, não vem. Fica aí e me deixa sair, por favor, Gustavo. Não quero explicar nada, só quero ficar longe de você. A questão é essa, eu quero ficar longe de você.

Terminei de falar e senti a dor de cabeça vindo. Eu havia pensando demais por hoje.

— Gabriela, você..

Ele me respondeu com o tom escroto em que eu era acostumada. A máscara mansa que ele colocava havia sumido. Como podia ser tão bipolar, eu não sabia.

— Tudo bem. Chega, vai. Bom dia!

Ele falou pausadamente e saiu do caminho. Me virei para onde ele estava.

— O que você ia falar?

— Nada. Vaza!

Ele gritou, apontando a porta. Revirei os olhos.

— Bom dia!

Bom dia, babacão! — Gritei, em pensamento.

La putaOnde histórias criam vida. Descubra agora