Na manhã seguinte,bem cedinho,Raquel desperta com o carinho delicado da mãozinha de Bruna,que tocava seu rosto. Alexandre não estava a seu lado e ela olhou para a filha que sorrindo,lhe disse: - Bom dia,mamãe! - Bom dia,meu amor! - Mamãe - avisou a garotinha com voz doce e meiga -,o papai já levantou. - É tão cedo,Bruna. Por que não está dormindo? - Eu tentei.Fechei os olhos assim,oh! - disse a pequena,espremendo os olhinhos. - Mas não adiantou nada.Por isso eu vim aqui dormir com você. Raquel sorriu,levantou-se e foi se arrumar para ir á procura do marido.Alexandre mexia em seu carro,tentando procurar o defeito.Ao ver a esposa parada na escada da varanda,ele sorriu e avisou: - Você nem vai acreditar! Foi um cabo da parte elétrica que talvez,pela estada esburacada,tenha se soltado de leve por não estar bem preso,por isso as luzes do painel acenderam.Quado ele acabou de desligar,o carro "apagou" por completo. Indo a seu encontro,Raquel beijou e perguntou sorrindo: - Então posso pegar as coisas para irmos? - Fique ,Raquel! - pediu a mãe,com jeito seco,que chegou na varanda e os observava. Com a educação que lhe era própria,a filha argumentou: - Obrigada,mãe.Mas é que realmente,preciso ir. A mulher não respondeu nada. O marido de Raquel,que havia se voltado para o carro,falou quase sussurrando ,com a cabeça sob o capô que estava levantado: - Se quiser,pode arrumar as coisas agora mesmo. Vou pedir para seu irmão dirigir o meu carro até a casa do seu tio.Tenho que devolver a pick-up o quanto antes. Raquel empalideceu imediatamente e o marido tentou tranquilizá-la,dizendo: - Tudo bem.Fique calma,estarei com seu irmão e voltaremos logo.
Chegando á casa do cunhado e dona Tereza,Alexandre pssou a ouvir alguns gritos em meio a gemidos de lamentos.Ao olhar para Pedro,ele pareceu assustado ao perguntar,sem palavras ,o que era aquilo. - Não se intrigue! Bah! - disse o cunhado com seu sotaque carregado e bonito,bem típico da região. - É minha tia.Ficou assim desde que as três gurias morreram. - Após poucos segundos,enquanto Alexandre ainda fechava a pick-up,ele lembrou: - Agora eu sei o que pesa na consciência.Ela também jurou contra minha irmã. Alexandre,ao entrar na casa chamando ,logo viu a cadeira de rodas de Ladislau,que novamente parecia esperá-lo. - Bom dia! Com licença.Vim devolver as chaves.A caminhonete está estacionada no mesmo lugar que a peguei.Obrigado.Muito obrigado.Ajudou-nos muito. Ladislau moveu-se até ele,pegou-lhe as chaves da mão e balançou a cabeça ,concordando. Sem ter mais nada a dizer,Alexandre se despediu rápido e saiu da sala seguindo Pedro,que já estava próximo de seu carro. Ladislau foi até a varanda, e antes de vê-lo descer os pouco degraus,chamou: - Hei! Alexandre se virou e ele gesticulou para que voltasse. - Pois não? - perguntou o rapaz,sentindo um mal-estar que parecia lhe correr por todo o corpo como um tremor frio que chegava a estonteá-lo. Encarando-o com modos frios,o homem curvo devido á altura,podendo-se perceber que fora muito forte,perguntou em baixo tom de voz,espremendo os miúdos olhsoa azuis. - Eu preciso saber de uma coisa. Aquela gurai,filha da Raquel,é tua filha mesmo,homem?! Alexandre sentiu-se gelar.Teve que se conter muito,pois mesmo vendo-o naquelas míseras condições,sentiu forte desejo de agredi-lo por tudo o que fizera á sua doce e indefesa,Raquel. Rapidamente lembrou-se do que aprendera sobre o perdão e das conversas que tinha com sua irmã Rosana sobre o fato de ter controlar seus impulsos.Em pensamento,o rapaz pediu:" Deus,me ajuda." Respirando fundo,olhando-o nos olhos,Alexandre respondeu ponderado. - Sim.O pai de verdade sou eu mesmo. Quanto ao pia biológico,esse pouco nos importa. Dizendo isso,ele sentiu-se tremer pelo nervoso,mas terminou de descer as escadas ,entrou em seu carro e se foi. Que grande prova para Alexandre a de ter que se conter diante daquela situação. São rápidos e corriqueiros acontecimentos que demonstram nosso aprendizado pela fé. No carro,Pedro perguntou o que o tio havia questionado,pois ele não conseguiu ouvir. Alexandre contou,e depois disse: - Atenda o único pedido que a Raquel te fez,Pedro. Não faça contra ele. Ela já sofreu muito e não sei o que pode acontecer se ainda tiver esse remorso,pois foi por ela que vocês souberam de tudo. - Nem chegue perto do asquerso por causa disso. Estou até suando frio! Bah! - expressou o cunhado,inconformado. - Não dormi esta noite e ainda estou passando mal. - Após pequena pausa,revelou: - Eu o Tadeu pesnamos que tinha sido o namoradinho que a tivesse prendido naquele casebre.Essa ideia não me saia da cabeça.Tu nem imagina com estava o lugar! Barbaridade! Chê! Alexandre tinha que se fazer firme pra controlar os sentimentos,ao ouvir aquilo que tanto o magoava,pois em sua mente pasavam cenas de como deveria ter sido. Pedro não conteve as lágrimas e após secar o rosto com as mãos num gesto um tanto bruto,devido ao ódio que sentia,esmurrou o painel do carro ,dizendo quase num grito: - Diabo!!! -E eu concordei com o Tadeu! Assustado,Alexandre perguntou: - Como assim? - Não conte nada para a Raquel,não. A gente agiu errado. - O que aconteceu,Pedro? - Eu e o Tadeu demos no fim no negrinho.Pobre moleque. - O quê!!! - perguntou o cunhado surpreso,que at parou o carro,pois se sentia mal .Questionando em seguida,incrédulo: - Vocês não fizeram isso? - Pensamos que tivesse sido ele,por que eu o Tadeu, quando soubemos pelo tio que ele queria namorar a Raquel,tivemos umas peleias com o cabra. - Peleia? O que é isso? - perguntou Alexandre, - Peleia? É pega. Briga.Sova,bah! Quebramos o guri umas três vezes ,numas quebradas por aí. Por isso acreditamos que ele ficou com raiva e fez aquilo tudo com nossa irmã,prendendo a Raquel lá no casebre. Depois,pensamos que ela acusou o tio Ladislau de tê-la violentado por vingança pelas surras que levava do nosso avô.Ficamos com dó na gurai,mas tinha que obedecer nosso avô,chê! Alexandre debruçou-se no volante querendo não acreditar no que ouvia,Pedro confessou: - Pensamos que por causa do negrinho a nossa irmã havia se perdido.Ficamos com tanta raiva do cabra,que pegmos ele,e demos um fim. - Com a voz embargada,Pedro desfechou:- O infeliz morreu jurando que não teve nada com ela. Atordoado,o cunhado perguntou com voz fraca: - Quem mais sabe disso? - Agora,só você. - Depois de pequena pausa,Pedro desabafou: - Não podiamos deixar do jeito que tava. Você tinha que ver como tava o casebre ,tinha que ver como a Raquel quando chegou á fazenda.Ela ficou presa lá por seis dias.Tava imunda e rasgada de dar dó. Após pensar um pouco,Alexandre perguntou: - Não foram por três dias que Raquel sumiu? - Não! Bah!QUe isso?! Eu ouvi,ontem,ela falando que ficou três dias lá,mas acho que ela perdeu o tempo e não conntou direito porque perdeu a noção ,desmemoriou,porque ela ficou fora,mesmo ,por seis dias.Tenho certeza! - Por que não foram conversar com ela quando tudo aconteceu? Por que não foram até a polícia? - Não sei,homem - disse Pedro atordoado.- Sabe,nós não conversávamos muito,não. A mãe sempre separou a Raquel da gente e só agora eu entendo porquê. O nosso vô sempre deu as ordens e a gente foi acostumado assim.Hoje é que eu penso diferente. - Como faz falta um diálogo,Pedro. Se vocês tivessem conversado mais... Se tivessem sido amigos... -Mas ela era guria pequena e miúda.Não dava para a gente conversar.Já éramos homens. - Eu tenho duas irmãs,uma delas,a Rosana ,é minha melhora amiga.Não sei o que faria sem ela. Somos companheiros,confidentes ,parceiros... Vendo que não adiantaria mais,pois só poderia torturá-lo,Alexandre se calou. Ele ficou perplexo com o que ouvia e não poderia fazer nada,nem mesmo contar a Raquel.Ela poderia se sentir pior,acreditando ser culpada pelo crime que os irmãos cometeram. Mesmo perturbado,ele ligou o carro e seguiu decidido a sair dali o quanto antes,entendendo que tudo o que precisava já havia feito e realizado.
Após saírem da fazenda,Alexandre resolveu aproveitar bem as férias. - Vamos! - dizia ele a esposa para convencê-la. - É uma pousada e tem lindos chalés de madeira e um distante do outro,ao pé da serra,com lareira,tapetes e colcas de pura lã de carneiro ,com dois ou três quartos,hidro... É um lugar lindo! Principalmente nessa época do ano,onde tudo deve estar florido. Se não quiser o chalé,ficamos num apartamento. É bem espaçoso e tem dois quartos,sala... - Minha vontade mesmo,depois de tudo o que passamos,é voltar para casa e... Quero abraçar seus pais,beijálos muito,muito,muito! E me esconder entre eles para me sentir segura.Agradecê-los por me adotarem... por me darem você de presente - riu. Alexandre sorriu,envolveu-a com um abraço e perguntou com jeito manhoso: - E comigo,você não se sente segura? - Seu bobo! Claro que sim! - Então vamos ficar nessa pousada.Temos mais de vinte dias de férias pela frente! Depois você terá todo tempo que quiser para pegar meus pais abraçá-los ,beijá-los,muito,muito,muito! Mas antes terá que fazer isso comigo,ou não a levo para casa. Raquel,bem mais alegre e segura,conscordou e eles passearam e se distraíram o resot das férias,conhecendo lugares maravilhosos que os faziam esquecer tudo o que tinham passado nos dias em que ficaram na fazenda.
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Um motivo para viver
SpiritualRaquel nasceu em uma fazenda,numa pequena cidade do Rio Grande do Sul.Morava com o pai,a mãe,três irmãos e o avô,um rude e autoritário imigrante clandestino da antiga Polônia russa. Na mesma fazenda,mas em outra casa,residia seu tio Ladislau,com a m...
