No final do expediente, Alexandre encorajou-se e,com jeitinho meigo aproximou-se de Raquel arrastando-se em sua cadeira para junto da mesa da colega. Curvando-se mais ainda,ele colocou o rosto colado na mesa da jovem,fazendo um semblante piedoso no olhar e sorrindo docemente,pediu com modos engraçados. - Vamos ao Shopping aqui em frente para tomar um suco? - Como? - perguntou Raquel ,que começou a rir pelo modo como ele se colocava e pedia. Ainda na mesma posição,ele tornou a dizer: - Ao invés de ir embora para casa,vamos sair um pouco. Podemos ir ao shopping e tomar um refrigerante ou um suco. Quem sabe um lanche? Alexandre ergueu-se e ansioso, ficou á espera de uma resposta positiva. Raquel surpreendeu-se com convite e ficou embaraçada sem saber o que responder. - É que... -" É que ..." - risonho ele a arremedou diante da pausa,depois continuou animado: - Que nada! Guarde suas coisas e vamos. - Desculpe-me Alexandre... Olhando-a fixamente nos belos olhos amendoados,irradiando ternura ,ele pediu: - Por favor,vamos? Prometo que não sairemos tarde e lá. Quero só conversar um pouco. Estou me sentindo só. Raquel sorriu timidamente e,sem entender,viu-se dominada por uma vontade sem igual e, como que atordoada pelo tom de voz,pelo jeito carinhoso e olhar sereno do colega,que não exibia outras intenções,aceitou o convite. Logo,depois ,o casal via-se sentado na praça na alimentação do referido shopping que Alexandre mencionara. - Que tal um lanche? Ou prefere uma refeição?- ofereceu animado. - Não. Você disse que não iríamos demorar. Alexandre não disse nada nem se expressou fisionomicamente,mas Raquel percebeu sua insatisfação. - Desculpe-me.Não sou uma boa companhia. Dizendo isso educadamente,ela se levantou como quem decide se retirar. O mesmo espírito de outras vezes dizia-lhe que ela não agradava a ninguém e só incomodava os outros com suas preocupações e tristezas. Alexandre, ligeiro, pô-se de pé à sua frente e delicadamente a segurou pelo braço: - Por favor, Raquel,fica. Está tudo bem. Eu vou pegar um suco para nós,certo? Sente-se por favor. - Eu o incomodo, Alexandre. Percebi,em seus olhos,que ficou contrariado. - Não. Não é isso. Eu só pensei que,se fizéssemos um lanche agora,eu não teria que comprar alguma coisa pra levar para minha casa. - E,meio sem jeito confessou: - Não tenho nada pronto para comer e pensei em me alimentar por aqui. Só isso. Está tudo bem. Eu já venho ,tá? Fique aqui. Raquel se sentou novamente e o aguardou. De volta à mesa,o rapaz via-se embaraçado e sem saber o que fazer.Por fim,perguntou: - Está bem? Quer mais açúcar? - Não. - Não está bom? - perguntou ele sorrindo e brincando para confundi-la. - Sim - tornou ela. - Então vou pegar o açúcar. - Não! Espera - respondeu sorrindo e atrapalhada. Depois explicou: - O suco está ótimo e não precisa de açúcar,certo? Ambos riram e Alexandre se viu mais à vontade.Puxando conversa,ele resolveu saber mais sobre Raquel: - De onde você é mesmo? - Sou do Rio Grande do Sul. E você? - Sou daqui.Meus pais são filhos de imigrantes italianos.Engraçado,você não tem sotaque do Rio Grande do Sul. - Talvez seja por causa da minha mãe. Ela é de Goiás e foi criada no Distrito Federal. Só após se casar com meu pia foi para o sul e a sua convivência lá a fez adquirir um pouco do sotaque.Você também não tem sotaque nem modos italianos. - É,creio que se vai perdendo com o tempo.Meus pais também não os têm. - Após pequena pausa, ele continuou:- Tenho duas irmãs. Uma casa é casada e tem dois filhos.Essa mora no Rio de Janeiro. A outra é noiva e mora com meus pais.E seus pais, Raquel, onde moram? - No Rio Grande do Sul,mesmo. Meu pai é tetraplégico. Vive em uma cama. Além disso,ele não é mentalmente capacitado por causa de um acidente que o deixou assim. Ele e minha mãe moram com meus avós paternos.Tenho o Marcos e mais dois outros irmãs casados. Todos mais velhos. - Seus avós são imigrantes? Pergunto isso,por que no extremo sul,encontramos muitos imigrantes. - Meus avós são de um lugar chamado " Polônia Russa" ou " Reino da Polônia", que sofreu várias invasões alemãs e ataques da Rússia,que reivindicava parte do seu território. Eles chegaram ao Brasil escondidos no porão de um navio e ganharam a nacionalidade brasileira com o nascimento do primeiro filho. Ao todo,eles tiveram quatro. - Um pouco pensativa,ela completou: - Os dois primeiros já morreram. - O pessoal daquela região é muito sério,não é? - Sabe,Alexandre,eu não sei dizer. Creio que a seriedade ou simpatia não depende da origem,mas sim do coração de cada um. Contudo,meu avô é muito rigoroso e... Diante da longa pausa,ele insistiu: - E?... - E até cruel - respondeu ela impensadamente e com o olhar perdido. - Cruel?! Alertando-se sobre o que falra,Raquel corrigiu: - Não foi bem isso que eu dizer.Eu o acho rigoroso. Ele é duro demais. Meu avÔ foi criado naquele costume católico ortodoxo que há na Rússia e traz consigo muitas exigências.
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Um motivo para viver
SpiritualRaquel nasceu em uma fazenda,numa pequena cidade do Rio Grande do Sul.Morava com o pai,a mãe,três irmãos e o avô,um rude e autoritário imigrante clandestino da antiga Polônia russa. Na mesma fazenda,mas em outra casa,residia seu tio Ladislau,com a m...