- Nossa! Estamos em cima da hora. - Já?! - Vamos? - disse ele,levantou-se. - Claro. Alexandre sentia-se bem melhor. Desde quando tudo ocorrera,era a primeira vez que tocava naquele assunto,tão detalhadamente, com alguém. Ambos caminharam lado a lado e,após alguns minutos de silêncio, Raquel perguntou: - Por que tira o rótulo do vidro de remédio? - Para evitar perguntas.Quando alguém questiona,digo que são vitaminas. Não gosto de tocar nesse assunto. Vão perguntar:" Por quê? Como começou? O que aconteceu?" - Mas não seria bom alguém saber que você precisa desse medicamento? O colega sorriu satisfeito pela preocupação e esclareceu: - Você! Você sabe,agora. Raquel sorriu e ambos voltaram ao trabalho. No decorrer do dia, Alexandre ficou pensativo.Era estranho confiar tal segredo a alguém. Ele nunca fizera isso. Estava cedendo aos seus impulsos e não sabia dizer se isso seria bom. " Será que Raquel vai me encarar de outro jeito?" pensava ele." Será que é minha amiga? Passei a acreditar que não tenho amigos, e agora?" Por um segundo,Alexandre se arrependeu de ter contado tudo aquilo. Um pouco mais tarde,passando a observar Raquel, que parecia totalmente voltada para o trabalho,ele pensava: " Ela está séria demais. Será que pensa em mim e em tudo o que lhe confiei? Naquele instante Raquel precisou sair de sua mesa,pois o diretor a chamou em outra sala.Pouco depois,ela retornou cabisbaixa. Seus olhos vermelhos e brilhantes denunciavam choro. Alexandre não conteve seus impulsos e empurrou sua cadeira para próximo da amiga e questionou,quase sussurrando, para que os outros não ouvissem: - Hei, Raquel! O que foi? Ao tentar encará-lo ,a moça lembrou-se do ocorrido e não conseguiu deter as lágrimas que começaram a rolar outra vez. - Raquel! - tornou ele em baixo tom de voz e preocupado. - O que aconteceu? - Eu não sei ... - respondeu a jovem entre soluços. Alexandre tentava ser discreto a fim de não atrair a atenção dos outros colegas. As divisórias que separavam os funcionários,não tinham altura suficiente que proporcionasse muita privacidade a ponto de conter o som. - Como, não sabe? - insistiu o amigo. - Aconteceu alguma coisa. Você não iria chorar por nada. - Estou morrendo de raiva. É isso. - Foi o senhor Valmor,não foi? A moça acenou com a cabeça e ele continuou: - Não se amargure por pouca coisa - sussurrou. Com olhos banhados de lágrimas e tentando secar o rosto,Raquel o encarou e ele disse: - Sabe,chefes como ele ,que exigem tudo com imposição,orgulho,cara feia e voz rude,são criaturas incompetentes e incapacitadas que necessitam se impor constantemente para se sentir temidas,pois normalmente não têm valor,capacidade nem moral. Esse é o único jeito deles terem auto-estima. Ela perdia o olhar pensativa,deixando transparecer certa mágoa. - Espere - pediu Alexandre ,que se levantou e retornou logo trazendo um copo com água e dizendo: Toma. Isso vai acalmá-la um pouco.

VOCÊ ESTÁ LENDO
Um motivo para viver
SpiritualRaquel nasceu em uma fazenda,numa pequena cidade do Rio Grande do Sul.Morava com o pai,a mãe,três irmãos e o avô,um rude e autoritário imigrante clandestino da antiga Polônia russa. Na mesma fazenda,mas em outra casa,residia seu tio Ladislau,com a m...