Naquele momento,no apartamento de Alexandre,Raquel estava muito deprimida ao arrumar a cozinha depois do jantar. Eles não conversaram e ela mal havia tocado na comida. - Raquel chamou Alexandre-, deixe isso e venha aqui,por favor.Precisamos conversar. Ela concordou e foi para sala,onde ele a esperava. - Sente-se,por favor. Ocupando o lugar indicado gentilmente,ela aceitou ,mas não o encarava,abaixando o olhar. Controlando-se para não mimá-la,Alexandre procurou ser generoso,porém firme,perguntando o que mais lhe intrigava. - Por que não me esperou no estacionamento conforme combinamos. - Não sei - respondeu ela,com voz fraca sem olhá-lo. - Fiquei de um lado para outro procurando você feito um louco.Que falta de consideração ,Raquel!Nem para me telefonar. Permanecendo na mesma posição,ela ficou calada. Insistente,ele perguntou: - O que tem para me dizer. Após longa pausa,ela respondeu: - Não sei o que dizer.Eu não queria ser despedida.Desculpe-me,mas não pude fazer nada.Sei que sou um estorvo,por isso vou dar um jeito de sair daqui. Alexandre começou a ficar nervoso com a maneira de vê-la encarar a situação,pessimista e sem visão lógica da realidade. Aumentando o tom de voz,ele perguntou firme: - Quem falou que você vai sair daqui. - Ninguém.Eu... Ele irritado,a interrompeu ,levantando-se ao falar: - A primeira coisa que você vai fazer é parar com essa história de que me incomoda e é um estorvo! E outra,entenda,de uma vez por todas,que você vai ficar aqui! Não forçada por mim,mas pelas próprias circunstâncias da vida. Caramba Raquel! Pare de se subestimar! Procure ver que você não está sozinha nessa situação.Estou com você.Na minha casa estará segura,amparada.Para onde irá se sair daqui. Sem pensar,ela respondeu: - Para a rua,de onde vim.Lembra-se. Você não me encontrou em um bom lugar.Foi a rua que vim para cá. Alexandre estava incrédulo! Procurando controlar sua impulsividade,ele moderou a voz,parou próximo dela,abaixou-se e perguntou: - Por que você faz questão de me agredir assim. Já parou para pensar o quanto me ofende ,me magoa ,dizendo isso.Observe o que está jogando fora! Sei que teve dificuldades horríveis,no entanto Raquel,quem mais a está maltratando,deixando-lhe na penúria,é você mesma.Seu coração está sendo vaidoso por não aceitar o pouco que lhe ofereço.Seus sentimentos estão sendo orgulhosos por não poder se sensibilizar com aquele que ainda se preocupa com você.Agindo desse jeito,está se autoflagelando,Raquel. Nesse instante,por causa do silêncio,ela ergueu o olhar lacrimoso,encarando-o. Alexandre ,que estava abaixado na sua frente,acreditou ser aqueles o momento decisivo. Tomando coragem,continuou firme: - Eu a amo,Raquel - ele afirmou,sem conter as lágrimas. - Eu a amo como nunca amei alguém. Não posso crer que você não sinta nada por mim,nem mesmo consideração ou respeito. Raquel caiu num choro copioso e ele teve que se fazer forte para não abraçá-la,mantendo-se a distância. Pouco depois,continuou: - Hoje,fiquei feito um louco,aflito,procurando-a em todo lugar que pude imaginar.Você nem para telefonar e dizer:" Estou dando uma volta.Quero ficar só,não se preocupe". Puxa,Raquel! Posso não ser nada seu! Posso não significar nada para você,posso não ter importância alguma,mas acho que mereço um pouquinho de consideração e respeito da sua parte. Você pode não ter sentimento algum por mim,mas pelo amor de Deus! Eu sei que tem educação ,eu sei que é atenciosa. Raquel chorava muito.Ela estava confusa. Alexandre ainda de joelhos,olhando-a firme e decidido,e sem perder a postura,prosseguiu: - Eu disse a você que vou ajudá-la,aconteça o que acontecer.Estou disposto a isso para que se estabilize,para que consiga vencer seus medos,para que possa trazer sua filha para junto de si. Acredito que é o fato de vivermos juntos ,assim como estamos,que a incomoda tanto,e por saber que a amo,vive em conflito. E para provar que quero ajudá-la mesmo,e que a amo de verdade,amanhã eu estarei deixando esse apartamento. Raquel ficou paralisada e ele continuou: - Estou saindo daqui e indo morar ,a princípio na casa dos meus pais.Você receberá todas as provisões que necessitar e pode ficar aqui o tempo que for preciso.Se for eu que a incomodo com minha presença,com meu jeito ,com meu amor ,estou indo embora. Alexandre se levantou e quando ia se virando ,ela se ergueu e num grito,agarrou-o pela camisa. - Não! - gritou em meio ao choro,implorando aflita: - Pelo amor de Deus,não me abandone! - Raquel abraçou-se ao amigo,em desespero e com a voz entrecortada pelos soluços,confessou: - Eu não posso ficar sem você. Há algo errado comigo... Eu também o amo! Alexandre a abraçou ,fazendo-a sentar novamente,duvidando do que ouvira. E, tirando-lhe os cabelos do rosto,fazendo-lhe um afago,generoso com voz afável,perguntou incrédulo: - Você me ama,Raquel. Em meio ao choro,ela confirmou: - Sempre o amei. - Escondendo o rosto em seu peito ,ela continuou com a voz abafada: - Sempre o amei ,Alexandre.Sempre senti algo muito forte por você.Desde quando começamos a trabalhar juntos. Só que eu tenho medo... Eu... Não sei o que é ... Ele a apertou com força,sussurrando-lhe ao ouvido: - Calma. Está tudo bem.Eu a amo muito, Raquel.Muito! - Não saia daqui... Fique comigo,por favor - pedia a moça sem poder controlar as emoções. - Não. Eu não vou sair. Cuidarei de você.Eu prometi isso e quero fazê-lo. Raquel,escondendo o rosto em seu peito,abraçava-o e ainda aflita,chorava. Enternecido,ele beijou-lhe os cabelos,trazendo em seu sentimentos um misto de surpresa,alegria e tristeza por conseguir tê-la perto de si,mas com tantos obstáculos a transpor e medos a superar.
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Um motivo para viver
EspiritualRaquel nasceu em uma fazenda,numa pequena cidade do Rio Grande do Sul.Morava com o pai,a mãe,três irmãos e o avô,um rude e autoritário imigrante clandestino da antiga Polônia russa. Na mesma fazenda,mas em outra casa,residia seu tio Ladislau,com a m...
