|Cap. 28|

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–– Durante toda minha infância Mikhail foi meu maior herói. Ele nos protegia, a minha mãe, meu irmão e eu de qualquer maldade que o mundo oferecesse. Era sempre a maior vítima do ódio e descontrole do papai para evitar que mais alguém fosse punido. Me lembro das incontáveis vezes em que nos escondia no quarto da cozinheira Beth e trancava mamãe em seu quarto, indo enfrentar sozinho a raiva de um monstro. Me lembro de ver Beth cuidando dos seus machucados e de como ele odiava que víssemos sua dor. –– Helena diz entre lágrimas por memórias ainda tão vivas. –– Mikhail cresceu vivendo um inferno, Alexia. Viveu sendo constantemente torturado por um monstro sádico que chamávamos de pai, viu nossa mãe ser assassinada e, quando pensou que havia encontrado alguma felicidade, foi carregado ao inferno outra vez.

–– Por favor, Helena, não há mais necessidade em contar...–– digo sufocada, não querendo alcançar o pleno significado do inferno de Mikhail.

–– Mas você precisa saber, Alexia –– ela diz entre grossas lágrimas –– Meu irmão não pôde ter infância, e mal teve um contato com alguma vida de esperança quando tudo lhe foi roubado. Nunca pude ser forte o suficiente para ajudá-lo, e André, quando se deu conta daquela realidade, seguiu um caminho desconhecido. Mas o que tenho verdadeiramente a dizer, Alexia, é que Mikhail parece ter encontrado em você um pouco de paz para seu espirito tão defasado.

Não consigo chorar, apesar de meu coração estar abalado e meu olhos arderem. Sinto a garganta seca e dolorida, o que me obriga a tomar alguns goles de um chá que me parece não ter gosto. Há inúmeras coisas que gostaria de saber, inúmeros detalhes sobre esse pequeno e doloroso relato de Helena, mas que não me coloco no direito de perguntar.

–– Mas e Pedro, porque toda essa perseguição doentia?...–– forço minha boca em uma pergunta mais lógica e necessária para a constante realidade que tenho passado.

–– O Sr. Moskeihev pertence à um passado tão sujo que se torna quase impossível de apagar... Quando mais jovem, não me dei conta do que se passou com meu irmão, e hoje, pensando melhor, me parece que apenas André soube de algo. –– diz mais sombria e totalmente apegada às suas lembranças –– Quando mamãe morreu, nosso pai nos enviou para Londres, para viver com a irmã mais velha dela. Conhecemos um mundo novo, longe da prisão do Palácio. Conhecemos a liberdade e o amor em forma de amigos queridos. Mas depois de 3 anos papai mandou que Mikhail retornasse, ele estava ficando velho e queria que o primogênito continuasse seus rentáveis negócios. Como disse antes, não sabia do inferno de vida que meu irmão levou durante aqueles anos, fui egoísta demais saboreando a vida à minha volta. –– Helena diz entre lágrimas que banham suas bochechas e olhos tão brilhantes que mostram sua perturbada alma. Sei que não devo forçar toda esta dor sobre uma pequena e delicada criatura que só quer me ajudar, mas o desespero que me consome a cada instante só me faz perceber que faria coisas muito piores para proteger aquele homem sombrio, trazer de volta a luz nos olhos e o sorriso inocente daquele lindo garotinho do quadro. –– Mikhail foi forçado a voltar para Rússia, e aqui conheceu seu destino, um que estava ligado ao de Pedro. –– continua –– Meu pai mostrou o grande e vantajoso negócio que tinha em parceria com Sr. Moskeihev, o mesmo destinado ao meu irmão. –– suas lágrimas lentamente param de cair, e agora, em cada palavra, só escuto nojo pela criatura que foi capaz de forçar esse mundo sobre seu próprio filho. –– O tráfico de escravos sexuais! Meu pai, aquele monstro e seu amigo nojento, forçaram meu irmão a ver jovens, homens e mulheres, serem espancados, violentados e entregues como animais a algum outro doente. –– esbraveja colérica –– Meu irmão, um jovem inocente, foi obrigado a participar daquela nojeira, a ver outros da sua idade sofrerem com aquele destino, e a sofrer pesados castigos ao tentar intervir. E de-depoi-s da morte do meu p-pai, acabar de vez com aquele negócio desumano. –– termina cansada, de corpo e espirito, e assim sei que nada mais sairá de seus lábios sobre o assunto.

Estou em choque. São muitos sentimentos, emoções que dominam meu corpo ao saber a verdade. Agora me parece mais fácil compreender ao meu Sr. Sombrio e suas decisões.

–– Vamos, Helena! –– digo ao olhar para seu corpo curvado e cansado. ––Vamos para a cama, já é muito tarde e você precisa descansar. –– termino enquanto a ajudo a se levantar da mesa e caminhar pelo corredor até, finalmente, conseguir alcançar o quarto.

–– Por favor, Alexia... não o abandone! –– sua voz delicada sai em um soluço pouco antes de adentrar em seu aposento.

Caminho até o quarto que dormi com Mikhail na última vez, é óbvio pelo frio que o toma, que não foi preparado para receber nenhuma visita, mas as várias camadas de tecidos que cobrem a cama estão limpas e perfumadas, então aceito seu convite silencioso para esta noite, pois devido aos acontecimentos, não me sinto com vontade de pedir para que um dos empregados suba. Meu cansado corpo apenas quer poder se deitar e tirar um pouco do peso que foi o hoje. Caminho para interior do ambiente, deixo minha pesada respiração sair como um nó preso em minha garganta e que sufoca todo o meu ser, desmancho rapidamente o coque do meu cabelo e me dispo para deitar mais confortável. A noite será fria e longa, e espero poder dormir e esquecer durante toda ela.


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Sedução do PríncipeHistórias para pegar e não largar. Descubra agora