Uma vida à sua espera.

965 68 13
                                        

Meredith

Três meses atrás

Nunca senti tanta raiva e tanto ódio em uma conversa, por uma frase ou por uma pessoa como estou sentindo agora. A maioria das pessoas acham que não, mas amor e ódio são sentimentos semelhantes e vou te explicar o porquê; quando se está apaixonado, aquela pessoa passa a ser o centro do seu universo, dane-se o que dizem por aí sobre dependência emocional, não é a porra de uma dependência emocional, é só a droga do amor que gera a droga da dependência. E algumas pessoas conseguem manter o equilíbrio disso e outras nem tanto. O ódio gera dependência emocional também, mas de maneira diferente; a partir do momento em a gente passa a odiar uma pessoa, a nossa felicidade fica nas mãos da infelicidade dela. Como eu disse, são semelhantes.

— Que porra você está falando, Carter? — ela se afastou de mim quando gesticulei com a mão, temendo que eu a machucasse. — Por que você não me falou antes? O seu pai vai casar, você vai embora com ele para outra cidade e está me contando isso depois de ter comprado a porra da mala?

Carter jogou a mala de viagem em cima da cama e atravessou o closet de roupas, saindo de lá com mais peças do que podia carregar nos braços. Senti o vazio me corroer por dentro porque até então eu ainda tinha esperanças de que ela mudasse de ideia quando me visse na sua frente, que eu não precisaria pedir e nem implorar para que ela não fosse embora. Ela deveria olhar para mim e ter certeza de que queria ficar, de que não pode viver sem mim, então por que infernos ela está dobrando as roupas e colocando tudo dentro da mala?

— Se eu tivesse te contado antes, você teria feito um escândalo como está fazendo agora — seu tom de voz é tão agressivo que meus olhos marejam. — Escuta, não é como se a gente fosse terminar, ainda vamos nos ver.

— Isso não vai dar certo.

Ela me olhou com tanta dor que eu não fui capaz de manter contato visual, me afastei dela e fui até o outro lado do quarto, até a sua mesinha de estudos, onde tantas vezes eu vinha para sua casa, deitava na cama e ela ficava ali sentada e concentrada com algum assunto que não tinha entendido no colégio. A lembrança me fez sorrir, peguei o diário dela em cima da mesinha e o abri, estava parado na mesma página em que ela não conseguiu terminar de escrever da última vez em que estive aqui, aquela página meio preenchida com letras de médico que mais ninguém saberia desvendar, diziam que me amava. Com um pouco de esforço eu até conseguia ler o meu nome pela forma como ela puxou o M e desenhou um coraçãozinho logo abaixo.

— Quer terminar? — não olhei para trás quando ouvi a sua pergunta, não podia olhar para ela, não conseguiria manter as lágrimas em meus olhos se me virasse para encará-la. — Meredith?

— Você já terminou — devolvi seu diário à mesa e passei as mãos abaixo dos olhos para secar as lágrimas. Respirei fundo, dizendo a mim mesma para ser forte. — Carter, você acha mesmo que vamos sobreviver a essa distância? Estamos na faculdade, eu em uma e você em outra, cursos diferentes, rotinas diferentes, e agora, cidades diferentes.

— Você pode pedir transferência para...

— Eu não vou deixar a Reagan — a interrompi e senti o meu sangue ferver de raiva. — E muito menos vou mudar a minha vida para caber na sua sendo que você decidiu ir embora meses atrás e nem pensou em falar para mim sobre isso.

— Olha, eu também não gosto nem um pouco dessa situação, mas tem meses que a Reagan está em coma e os médicos não sabem quando ela vai acordar. A gente não pode parar de viver por isso, a vida continua, sabia? Não é porque vou embora que significa que vou esquecê-la. Eu vou vir visitá-la.

Carter pegou as escovas de cabelo, a pasta de dente, a escova de dente e a saboneteira para colocar dentro da mala, em um outro compartimento. As suas roupas estavam todas ali empilhadas, afundadas na mala para dar espaço para mais algumas peças, ela jogou dois casacos dentro e deixou um de fora, o meu preferido, o da Nike cor de rosa. Ela não me ofereceu, mas sabia que ficaria ali na cama até que eu o pegasse, era a sua maneira de deixar um pedaço seu comigo, uma lembrança.

Love AffairHistórias para pegar e não largar. Descubra agora