Cuidados e Desastres.

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REAGAN

Hoje o colégio optou por realizar uma viagem para o Mount Hood, do grandioso pico nevado da montanha mais alta do Oregon até as florestas menos espessas e rios com corredeira até a vinícolas, restaurantes, lojas e tudo mais o que se possa imaginar. É uma viagem de quase três horas, mas me atraso por o despertador não alarmar na hora que programei. Preciso pegar o segundo ônibus que o colégio disponibilizou, assim como Carter e Meredith que me esperaram por quase uma hora em frente a Lewis H. High School. A patricinha quando me vê, lança um olhar presunçoso e entra no ônibus primeiro, emburrada e mal humorada pelo meu atraso. Ela senta no fundo, o único lugar com bancos disponíveis, porque todos os bancos dianteiros estão ocupados. Quando passo por Logan, ele toca a minha mão com um gesto discreto e me dou conta de que, apesar de ser o último ônibus, a maioria da nossa sala está nele.

Não fui a única a me atrasar.

— Vamos repassar o que combinamos? — Carter pergunta para mim e Meredith, quando me sento no banco atrás das duas.

— Nada de brigas, indiretas, diretas ou piadinhas. — Mer e eu falamos em coro, desanimadas.

— A mamãe aqui ensinou vocês direitinho.

Meredith de vez em quando dá umas cutucadas na cintura de Carter que a faz dar pulinhos no banco. O sorriso no rosto das duas é capaz de fazer qualquer pessoa perceber o quanto se amam e apesar de estar feliz pela minha melhor amiga estar ao lado do amor da vida dela, lembro de quanto tempo elas perderam uma com a outra antes de se acertarem. O orgulho é mesmo capaz de afastar amores. Sinto uma pontada de inveja. Queria ter Bessie aqui comigo hoje, queria estar com a cabeça deitada em seu ombro, sentir o cheiro do seu perfume e entrelaçar meus dedos aos seus até chegarmos ao nosso destino. Uma lágrima cai, a melancolia me pega mais uma vez desprevenida e me leva de volta para a semana passada quando ela me disse que estava noiva, relembro de tudo o que vivemos e que agora não passam de lembranças doloridas das quais eu quero esquecer. É doloroso pensar que quem antes me fazia feliz hoje se tornou a causa de toda dor que aperta o meu peito.

Erick entra no ônibus acompanhado por Ivy, eles vem conversando um com o outro sorrindo, felizes. Reviro os olhos quando ela dá bom dia para nós e um breve aceno de mão para Carter. Meredith se vira no banco, seus cabelos balançam de um lado para o outro conforme seus movimentos. É nítido como o tratamento vem se tornando cada vez mais evidente, o rosto de Erick aos poucos está perdendo todos os traços femininos que tinham e assumindo a sua verdadeira identidade. A barba vem se formando em seu rosto, o maxilar ganhando forma e o seu corpo, com ajuda da academia, ganhando os primeiros resultados. É um pecado ser tão bonito.

— Confessa, você tem uma quedinha por ele — ela cutuca.

— Claro que não, Meredith! — exclamo exaltada e ela arqueia a sobrancelha em dúvida. — Somos amigos e estou feliz por ele estar saindo com Ivy. Estão felizes e... — olho para os dois e vejo Erick colocando uma mecha do cabelo da sem sal da sua namoradinha atrás da orelha. — E é só o que importa.

— Qual o sabor dessas palavras em sua boca? — questiona com um biquinho irritante nos lábios. — Arrisco dizer que tem gosto de vidro.

Quero dizer a Meredith que está errada, que não estou com ciúmes de Erick, mas estaria mentindo, porque estou. Desde que ele e Ivy começaram a sair, isso vem me incomodando mais do que imaginei, achei que fosse possível porque ela me privava da amizade dele, mas a verdade é que me incomoda ela tirar ele de mim. Erick se disponibiliza para ela e faz com ela e por ela coisas que fazia comigo, e eu já perdi ele por tempo demais para perder de novo.

— Eles terminaram — Meredith cochicha e Carter dá um tapinha no ombro da namorada. — Desculpa não ter te contado, mas precisava contar primeiro para Reagan. — Meredith volta a olhar para mim. — Tem semanas que isso aconteceu, foi antes dele ir viajar com o pai. Aqueles dois ali não tem química nenhuma, então... Sei lá, assim, com certeza não devem estar conversando sobre nada importante.

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