PARTE III

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O sol quase não aparecia naquela manhã fria e chuvosa. O mal tempo se prolongava e muito se falava em uma possível nevasca. Natasha não podia ter escolhido um momento pior para voltar, mas, levando-se em consideração a sua posição, o melhor a fazer era iniciar nossa estratégia.

Olhei o relógio pela milésima vez conferindo e confirmando o seu atraso. A tensão não abandonava o meu corpo. Do lado de fora da limusine, adequadamente comprada para recebê-la como deveria ser daquele momento em diante, apertei meu casaco ao corpo e acendi um cigarro. Não deixei de mais uma vez desejar abandonar aquele vício. Quem sabe depois que toda a loucura acabasse. Meu celular tocou em meu bolso. Bobbi.

— Oi – tentei não ser gentil da forma como gostaria de ser. Bobbi estava infiltrada no grupo Rogers Medical Systems desde que eu aceitei me envolver naquela bagunça. Tentava em vão me convencer de que foi um erro, porém o que eu não fazia por Natasha Romanoff?

— Ela já chegou – sua voz demonstrava impaciência.

— Mas ainda não apareceu. Estou aguardando.

— Se alguma coisa tivesse acontecido nós seríamos os primeiros a saber, Bucky – suspirei. Bobbi não merecia a minha aflição.

— Só quero que tudo dê certo. Apenas isso.

— Certo. Acabei de ser informada de que ela está desembarcando. Boa sorte.

Desliguei e voltei minha atenção para o imenso navio a minha frente. A princípio não a reconheci. Um pouco mais alta, devido aos enormes saltos, um casaco de pele aquecendo e protegendo o seu corpo. Óculos escuros, cabelos loiros... Loiro definitivamente lhe caía bem. Batom vermelho deixando seus lábios ainda mais desejáveis. Aquela não era a Natasha que eu conhecia.

Cada passo dado suportando uma pequena bolsa de mão era milimetricamente calculado. Ela era outra mulher. A mulher que levara três meses ensaiando para ser. Seria possível?

Sem desviar um único segundo a atenção do que acontecia ao seu redor, Natasha se aproximou. Séria. Parou por segundos, que me pareceram intermináveis, depois retirou os óculos e me encarou. Foi impossível não observar suas unhas perfeitamente pintadas ou as joias que ostentava.

—Natasha – não consegui desviar o olhar.

—Bucky – e então ela sorriu.

Aquele simples sorriso suavizou seu olhar e sua expressão. Por um breve segundo ela voltou a ser a Natasha que eu tanto amei um dia. Uma mulher doce, romântica, apaixonada e apaixonante. A mesma que havia sido enterrada pelas confusões de Steve Rogers.

— Como foi a viagem?

— Cansativa. Nova York está enregelante – e suas feições voltaram a endurecer. Outra vez ela se tornou aquela mulher fria e desprovida de sentimentos. Que exalava riqueza e luxuria. Uma mistura definitivamente perigosa. Instintivamente pensei em Bobbi. Ela era forte e decidida, e me amava como nunca fui amado antes, mas Natasha... — Podemos entrar? – dois homens devidamente escolhidos para acompanhá-la naquela viagem de volta ao lar, se aproximaram carregando malas, certamente contendo parte da farsa.

— Claro! – abri a porta dando-lhe passagem.

Ela passou por mim deixando seu perfume no ar. O mesmo de sempre. Talvez um indício de que manteria uma mínima fração do que realmente era. Quem sabe como um lembrete, para que não se perdesse pelo caminho.

Acomodou-se e permaneceu olhando para a frente. Puxei o ar frio deixando-o queimar em meus pulmões e entrei acomodando-me ao seu lado. Logo o carro ganhou movimento.

— Odeio esta peruca – mas ela sorriu e eu imaginei o quanto se divertia agindo daquela forma.

— É só por um tempo...

— Até amanhã – foi categórica. Suspirei. Natasha estava impossível desde que descobriu... Era difícil acreditar.

— Você tem certeza?

— Bucky...

— Só quero saber. Sei que passou os últimos três meses se preparando para esta batalha, mas preciso saber se você tem certeza.

— Tenho! – ela me encarou decidida. Natasha mudara muito. Tornara-se forte e determinada.

— Nat...

— Eu voltei Bucky. Vou cumprir com o combinado. Por favor, não agora.

— Eu prometi, não foi? Não vou deixá-la sozinha – desviei o olhar e fechei a divisória isolando-nos. — Você sabe que isso vai destruí-lo, não sabe? Tem consciência de que será um golpe duro e que pode ser irreversível?

— Eu tenho consciência de tudo. Vou cumprir com o planejado.

— Steve não deixou de procurar por você um único momento. Eu... Merda, Nat!

— Steve vai ter o que sempre buscou. Não foi ele quem decidiu que passaria por cima de tudo e de todos para levar esta batalha adiante? Não foi ele quem não soube desistir antes de tornar tudo um inferno?

— Você está sendo dura. Lembre-se que...

— Não passei três meses me escondendo como uma criminosa para voltar atrás porque não posso machucá-lo. Esta guerra é real e Steve terá que suportá-la.

— Tudo bem. Vamos seguir com o plano. Trouxe o documento?

— Sim – ela abriu a pequena bolsa e retirou de lá o papel que tanto ansiávamos.

— Deixe-me vê-lo – segurei o documento e o escaneei com meu celular enviando a mensagem automaticamente para Bobbi. — Pronto, em segundos ele será inserido nos arquivos de Nova York e terá validade legal.

— Obrigada – ela segurou firme em minha mão e por um segundo demonstrou insegurança, rapidamente se recuperou.

— Então... bem vinda ao lar, minha esposa.

— Que sejamos felizes, meu marido.

E voltou a sorrir, de uma maneira diferente, que anulava tudo o que eu conhecia e podia esperar de Natasha Romanoff.

Pleasure | Love (Romanogers)Onde histórias criam vida. Descubra agora