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No meio da noite Avril suspirou sonolenta e despertou, abrindo os olhos tentou entender como havia chegado ao quarto.

Afastando o cobertor, colocou os pés no chão,observou seus sapatos organizados aos pés da cama.

Sem fazer barulho caminhou para fora, a porta do quarto de Jason estava escorada, afastou lentamente até ter a visão de Henry dormindo ajoelhado no chão e seus braços dobrados na cama próximo ao rosto do filho.

Uma mistura de sentimentos se fez presente. Avril cruzou os braços e afagou afastando as sensações confusas. Silenciosamente como fatasma aferiu a temperatura de Jason e ajeitou o cobertor. Desviou sua atenção para o rosto adormecido de Henry.

'Nao! Não amoleça! Ele mentiu para você! Ele queria mata-la! Usou você! Não se impor.... Importe....'

Suspirou com resignação e cutucou Henry. Ele acordou assustado, procurando por algo de errado no rosto do filho. Vendo que a criança  estava bem olhou para trás, observando a mulher próxima a porta. Ela olhou por cima do ombro e acenou sutilmente com a cabeça para a seguir.

Com receio se levantou e a seguiu.

— Está com fome?

— Sim!

Henry arqueou a sobrancelha e concordou alisando os cabelos. Ele ainda estava com sono. A casa estava silenciosa. A lareira ainda faiscante no final de suas chamas.
Avril acendeu a luz da cozinha e abriu a geladeira tirando os ingredientes para um chocolate quente. Havia biscoitos feitos por Rafaella.

Henry apenas a observou. Os pés descalços, a saia de couro justa até os joelhos, a camiseta de seda branca. Ela preparou e colocou em duas canecas e serviu os biscoitos. Os levou para perto da lareira e Henry apenas a seguiu em silêncio.

Avril colocou na mesa de centro, se aconchegou na poltrona e cobriu as pernas com a manta.

Henry sentou na poltrona a frente dela,  pegou as duas canecas entregou uma a Avril.

— Me lembro da primeira vez que ele teve febre.  Estava com quase 39.8°..._ Avril sussurra olhando para o que restava do fogo na lareira. _ Ele ainda não tinha um ano. Foi assustador!

Henry abriu a boca para procurar palavras, mas parecia que ouvi-la em silêncio era melhor. Algo em seu coração estava feliz com esse tipo de informações.

— O que você fez?

— Estava fora do país. Liguei desesperada para minha mãe ela me acalmava enquanto eu pegava um táxi no meio da madrugada até o hospital mais próximo. Pouco tempo depois ele disse a primeira palavra ' Vovô' minha mãe ficou furiosa com o meu pai.

Henry riu baixo e experimentou o chocolate quente.

— Ele tinha 9 meses quando deu o primeiro passo sozinho. Quando tinha um ano e meio o levei a Suíça. Ele estava apaixonado pela paisagem. Pelo espaço.... Jason sempre foi uma criança espaçosa. Aos dois anos ja sabia falar alguns frases. Ele sempre cativou as pessoas. É amoroso e energético com os mais próximos e ele sempre é sério com desconhecidos. Ele ja sabe os números e a o mais surpreende é que ele sabe nome de armas e tipos de munições.

Henry abriu a boca para protestar contra a última informação, mas vendo o sorriso sútil nos lábios de Avril congelou em silêncio.

— Isso parece formidável...

— Dois meses atrás ele deslocou o braço enquanto tentava subir em uma árvore na casa dos meus pais. Ele mal chorou, apenas culpou Mathew. Foi engraçado. Ele é tão insolente que é inegável que é um Bradson! Você devia ter o visto...

Se dando conta do que estava falando o sorriso sumiu de seu rosto e seus olhos se perderam em um mar de amargura fixados na lareira. Ela tomou um pouco do chocolate quente em silêncio.

— Eu gostaria muito de ter visto. _ Henry sussurrou e deixou um sorriso ladino escapar. _ Hoje ele fez Rafaella correr atrás dele na chuva. Ele não parou até que ela desistisse e o deixasse continuar brincando pulando nas poças que se formavam no jardim. Um dos guardas fez um barquinho de papel para ele. Eu vi um brilho no olhar, uma paixão pelo simples... Ele é extraordinário! É tão bonito! Inteligente! Jason é o sonho de qualquer pai... Eu sou muito sortudo! Você o criou muito bem!

Avril suspirou pesadamente e pegou um biscoito.

— Mathew lhe contou dos ataques?

— Sim! _ o sorriso desapareceu dando lugar ao semblante sério. _ Não vou deixar que isso aconteça novamente! Agora estarei sempre por perto e...

— Não é verdade! Não se iluda! _ o tom áspero quebrou as esperanças de Henry.

— Mas estarei la por ele mesmo mantendo a distância...Sempre que eu estiver aqui, ou onde ele estiver!

   Avril terminou com a caneca e a levou para a pia, mal ouviu os passos atrás dela e quando se virou, Henry estava a encarando bem próximo.

— Você está muito bonita. Parece que os  anos me fizeram esquecer o quanto você é linda...

— É melhor você se afastar!_ Avril tocou o peitoral para o empurrar para longe, mas Henry a segurou suavemente nos braços e a encarou nos olhos. A luz da lareira fornecia um pouco de luminosidade na cozinha. Ambos se encararam sem expressão.

— Eu senti sua falta! Todos os dias... Eu passei a correr antes de todos, porque o céu azul com os primeiros raios do sol me lembravam dos seus olhos. Eu não queria compartilhar isso com mais ninguém, mas eu também tinha me esquecido que não da para comparar ... _ A expressão de Henry parecia tortuosa, talvez sua mente estivesse fazendo isso, seus pensamentos e arrependimentos eram tão fortes que estavam nítidos em seu olhar.

Avril o afastou em silêncio, seus olhos nublaram ao ver aquele olhar, ela colocou as mãos firmes no balcão da ilha e abaixou a cabeça tentando se acalmar. Se gritasse com Henry acabaria acordando Jason.

— Eu disse que deixaria você observar Jason, mas nunca permite que voltasse a me tocar! Espero que tenha ficado claro! Não abuse da minha gentileza...._ Avril saiu da cozinha_ Pode dormir no quarto de hóspedes hoje, mas amanhã você volta a ser um estranho para nós! _  e foi para o próprio quarto.

Henry voltou para a sala e sentou na poltrona diante da lareira, encarando a dança suave das chamas, parecia que Avril o acendia e o apagava. Ela fazia dele o que quiser, o prendia e depois o soltava.

Passou as mãos no rosto, e pegou o álbum novamente, havia uma foto que o chamou atenção. Era de Avril segurando no ar Jason ainda bebê com poucos meses, ela estava sorrindo, seus olhos azuis, de ambos, mãe e filho, foram muito bem captados, assim como seus sorrisos. Henry pegou a foto e a encarou por pelo menos dez minutos antes de enfia-la no bolso.

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Boa leitura!

❤️


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