Capítulo Bônus 2

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[ 05 de setembro, segunda-feira ]


  Passei um mês e meio em negação, tentando me convencer de que estava doente, maluco ou, como na maioria das teorias da conspiração, em coma e alucinando. Mas não, isso é real. Eu estou apaixonado por Ariane Elizabeth Greene, e todo esse tempo sem vê-la diariamente não fez com que o sentimento diminuísse nem um pouco. Sair com outras garotas também não; eu sempre via o rosto dela quando estava quase chegando ao finalmentes, e terminava a noite sozinho, bebendo e vasculhando seu Instagram. Infelizmente, ela quase não posta fotos de si mesma. 

  Na segunda metade das férias, aceitei meu destino. Vou confessar meu amor, ser brutalmente rejeitado, e passar boa parte do terceiro ano sofrendo como um cachorro que levou um chute. Por que vou falar a verdade? Porque sou um imbecil que não consegue esconder o que sente por muito tempo, e tê-la visto toda semana no Hummingbird já desgastou boa parte da minha força de vontade. Por que não penso positivamente? Porque não tenho nenhuma razão para acreditar que Ariane também gosta de mim. A não ser que… Talvez exista uma possibilidade. Talvez ela sinta o mesmo, mas não disse nada por receio. 

  Uma pequena chama de esperança se acende em meu peito enquanto piloto, rumo ao primeiro dia de aula, mas não permito que cresça demais. Prefiro não criar expectativas; o golpe será maior se isso acontecer. Não. Se o universo resolver sorrir para mim, quero ser surpreendido. 

  Quando adentro o estacionamento, o fusca preto já está lá. O único carro desse tipo em toda a escola. Fico automaticamente ansioso. É o que tem acontecido sempre que estou prestes a ver aqueles malditos olhos castanhos incríveis. Que porra! Como pude permitir que aquela… coisinha… me enfeitiçasse desse jeito? Nenhuma garota por quem me interessei no passado me fez sentir borboletas no estômago. Isso é tão… argh! Que merda. 

  O que a direção quer que façamos no primeiro dia de aula é ir direto para a secretaria, onde pegamos o plano de aulas e a senha do novo armário, mas faço um desvio de rota e vou para os lugares onde acredito que encontrarei minha garotinha. Ou melhor, a Greene. Minha nossa, eu estou pirando. Não a encontro em lugar nenhum, então opto pela opção mais óbvia: o pátio externo. E lá está ela, com um copo de café ao lado, analisando uma folha de papel. 

  — Sentiu saudades? — provoco, sentando-me ao seu lado. 

  — Com você aparecendo no meu local de trabalho para importunar minha vida durante as férias inteiras? — ela retruca, sem tirar os olhos do papel. — Não mesmo. 

  — Está dizendo que não esperava ansiosamente pelo momento em que eu passaria pela porta? Sei que eram os minutos mais felizes do seu dia. 

  — Você me conhece tão bem — Ariane finalmente me olha, abrindo um sorrisinho sarcástico, e sinto meu coração derreter. 

  Seria muito mais fácil se ela não fosse tão bonita. 

  — E é por isso que você me ama — dou uma piscadinha, sorrindo de canto. 

  Ariane revira os olhos, soltando o ar pela boca. 

  — Que mala. 

  — Isso aí é seu plano de aulas? 

  — É, sim. Já pegou o seu? 

  — Não, eu vim direto te encontrar. Estava doido pra te ver — respondo com sinceridade.

  Um riso de escárnio. É claro que ela não acredita. A observo pegar o copo de café e levar o canudo à boca. Esse simples movimento envia um arrepio pela minha espinha. Puta que pariu, Greene, puta que me pariu. Minha boca seca. Essa menina vai acabar comigo, e não está se esforçando nem um pouco para isso. Nada de decotes, lingeries sensuais — não até onde sei, pelo menos —, roupas de vinil ou olhares sedutores. Tudo o que tenho em minha frente agora são jeans de pernas largas, uma blusa preta de mangas compridas e os típicos all stars de cano longo. Quase não há pele exposta, e estou quase subindo pelas paredes.

  Abro a boca, pronto para deixar sair uma declaração vergonhosa ou um comentário irritante, mas sou interrompido pela chegada de outra pessoa. Um cara tão alto quanto eu, com cabelo prateado e olhos de cores diferentes. Deve ser um aluno novo. Ele sorri como se fosse alguém familiar, e Ariane ajeita a postura, ficando corada e sorrindo docemente. Porra. 

  — Oi, Ari — ele cumprimenta. — Passei na secretaria e vi que estamos na mesma turma. Não é ótimo? Vai ser maravilhoso começar em uma escola nova já conhecendo alguém. 

  — Ah, é-é... huh...

  — Eu sou Lysandre — estende a mão para mim. — Sou novo na cidade. 

  — Percebi. 

  Ele assume um olhar confuso e um pouco constrangido, então recolhe a mão e se despede com um aceno. Volto a atenção imediatamente para a garota ao meu lado.
 
  — Você gosta dele — constato. 

  — O que?! Não fale besteiras — ela se levanta, corando mais ainda e evitando meu olhar. — Lysandre é amigo da minha irmã, só isso. Nos conhecemos durante as férias. 

  — E você gosta dele — afirmo outra vez.
 
  — Não, não gosto. Me deixe em paz. 

  E com isso ela se vai, me abandonando com um coração partido. Eu não esperava realmente que ela sentisse algo por mim, mas saber que Ariane está apaixonada por outro cara é arrasador. Isso aniquila de vez todas as minhas chances. E o que aquele imbecil tem de mais, afinal? Olhos diferentes e covinhas? Grande coisa. Aposto que não passa de um mauricinho enjoado, sem nada na cabeça. 

  De qualquer forma, a garota por quem estou apaixonado está a fim de um cara que é totalmente o meu oposto. Isso significa que ela nunca pensou em mim como algo além de um estorvo, e nunca pensará. Terei que conviver com essa dor. 

  Volto para o estacionamento, subo na minha moto e vou direto para casa. Que se foda o primeiro dia de aula, só quero voltar para a cama. E é exatamente o que eu faço. 
  


O aniversário é meu, mas o presente é de vocês \o/
Espero que gostem do capítulo, mesmo ele sendo curtinho kkkk o próximo será o um cap normal, ok?

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