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Gavião:

Já não estava em um dia muito bom, ainda tive que ir resolver um BO na Rocinha. Passei a tarde toda lá e, quando saí, minha mente só pensava em ir para a Praia do Vidigal. Um dos meus lugares preferidos desde pequeno.

E, antes da minha mãe morrer, fiquei sabendo que era o dela também, o que se tornou mais importante para mim.

A saudade estava batendo forte da coroa, papo reto. Logo neste mês, que vai completar mais um ano desde que ela partiu. A revolta ainda está aqui, mesmo que eu tenha vingado a morte dela, mas a revolta continua presente.

Não tem essa de que, quando você cresce, não sente mais falta, não. Isso é mentira. Você cresce e parece que sente mais falta ainda.

Assim que desci as escadas e cheguei à praia, caminhei mais um pouco para ficar mais distante e não acreditei quando vi a mandada lá. Ainda estava chorando no bagulho.

Começamos a trocar ideias, e ela disse que era um dos lugares preferidos dela. Nesse meio tempo, acabei soltando que era o meu também, mas me arrependi quando ela veio perguntar o porquê, e eu lembrei da coroa de novo.

Minha mente voou exatamente para o dia em que vim aqui jogar as cinzas dela. Fiquei quieto, mas não demorou muito, já que ela mudou o assunto para si mesma.

Dava para negar, não; ela sabia puxar assunto, pô. Mesmo que fosse um assunto chato para ela, ela sabia conversar no bagulho.

Bonita, gostosa e com um papo bom, só queria saber se beijava e se era boa na cama também. Perguntei logo se ela namorava, e ela começou a rir, nem parecia que estava chorando há uns minutos atrás.

Quando achei que ia beijar ela, a porra do meu celular tocou, e atendi puto da vida, vendo que era o menor do morro. Só atendi mesmo porque eu já estava há horas fora da minha favela e porque era ele que estava de frente da segurança da Heloísa hoje.

Assim que ele falou que escutou uns barulhos dentro de casa e que, quando foi falar com ela, ela não abriu a porta por nada, logo me liguei de que ela estava tendo mais uma das crises dela e nem pensei muito em ir embora atrás dela.

Helena: Posso ir com você? - perguntou assim que eu disse que iria embora e olhei bem para ela.

Ia falar que não, já que, quando a Heloísa tem essas crises, ela não quer ver ninguém e a única pessoa que ela deixa se aproximar sou eu. Mas era amiga dela; vai que depois ela queira conversar.

Concordei com a cabeça, ainda sério, e fui em direção às escadas. Assim que cheguei na parte de cima, já fui direto na direção do meu carro, vendo que a Helena tentava acompanhar meus passos.

Entrei no carro e esperei por ela, que vinha quase correndo, e assim que entrou no carro percebi a respiração dela acelerada, como se tivesse corrido 10 quilômetros.

Gavião: Coloca o cinto - avisei e já liguei o carro. Assim que ela colocou, acelerei o carro para chegar o mais rápido possível ao morro e até passei alguns sinais.

Minha mente só pensava em como a Heloísa deveria estar, e eu só estava torcendo para ela não ter se machucado. Caralho, era para eu ter ido direto para casa.

Respirei fundo e apertei o volante.

Helena: Eu não sei o que aconteceu, mas não adianta você ficar assim e querer dar um de Flash. É capaz de a gente sofrer um acidente e aí sim a Helô vai ficar pior.

Encarei-a sério e desviei meu olhar, voltando a prestar atenção na pista. Passei a mão na cabeça, nervoso, e coloquei a mão no bolso, tirando o celular. Desbloqueei e coloquei no telefone para fazer a ligação.

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora