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Alguns dias depois...

Carioca:

Voltei pro Rio com a cabeça quente e o corpo cansado. A missão tinha dado certo, no geral. Alguns moleques mortos, outras áreas do interior dominadas, mas por dentro eu só queria paz. Uns dias em casa, longe de rajada, longe de plano. Só eu, meus irmãos e uma gelada.

Tava bolado com uns bagulhos que fiquei sabendo. Que o filho da puta do Neco quase colocou minhas favelas a perder e ele ainda vai ter o dele. Não dei aval nenhum para aquele arrombado sequestrar ninguém.

Cheguei no miolo da favela, a quebrada já mais tranquila. Alguns moleques acenaram, outros estavam no radinho, passando visão. Sentei na laje do barraco da Lúcia, minha outra irmã, abri uma lata de cerveja e fiquei ali, curtindo o barulho do morro e sentindo o peso das semanas longe bater no corpo.

Minutos depois, a Ana apareceu. Chegou quieta, com o olhar estranho.

Ana: Isaac, posso falar contigo? – Só me chamava de Isaac quando o bagulho era sério.

Carioca: Fala.

Ela ficou me olhando, séria, com o olho meio vermelho. Pensei que fosse sobre o Rogério ou o Neco ter feito mais alguma merda.

Carioca: Fala logo, porra. Que tu tá me assustando.

Ela respirou fundo, parecia que ia desabar.

Ana: Aquela mulher... que os meninos sequestraram há umas semanas. A Helena. – Revirei os olhos e respirei fundo.

Carioca: A mulher do Gavião? Que que tem ela?

Ana: Ela é tua filha, Isaac. – Dei uma risada seca, achando que era zoeira.

Carioca: Tu tá de sacanagem?

Ana: Ela não é só "a mulher do Gavião". Isaac, escuta o que eu tô te falando: essa garota é sua filha. – Senti o sangue gelar.

Carioca: Cê tá maluca? Que filha, Ana? Que porra é essa?

Ana: Tô falando sério. Ela é a cara da Nadja, mas parece muito mais com você. Eu olhei pra ela e vi você. Vi o Doda. Vi a porra da nossa família inteira no rosto dela.

A palavra "Nadja" me bateu no peito como um soco. A única mulher que me fez perder a linha de verdade. A mulher que me fez largar a Érika. Que me fez correr atrás igual a um cachorro sem rumo. E que sumiu sem deixar rastro.

Carioca: Tu tá dizendo que a Nadja teve uma... uma filha comigo? – perguntei, apertando a lata da cerveja que estava na minha mão. Ana assentiu, firme.

Ana: E essa filha é a Helena. Eu fui ligando os pontos. A idade bate, o jeito dela. Mas não foi só isso, Isaac. Eu senti. Quando olhei pra ela, quando vi ela chorando, com medo, mas também com sangue de justiça... era tua filha ali.

A cerveja na minha mão perdeu o gosto. Tudo ficou embaçado por um segundo. Meu coração bateu forte, tipo tambor em escola de samba.

Poderia ser que não, mas, porra, se a Ana estava falando isso com toda a convicção, então essa porra pode ser verdade mesmo. A Ana não mentiria. Não para mim. Não com um bagulho sério desse.

Carioca: Tu tá dizendo que os moleques pegaram minha filha? Que meus irmãos ajudaram a manter minha filha em cativeiro?

Ela só assentiu, com os olhos marejados.

Ana: Eu cuidei dela. O que eu pude. Ela tava fraca, sangrando... o Neco...

Carioca: O que tem o Neco? – travei a mandíbula. Eu já não estava bom com esse filha da puta pelas merdas que ele fez no tempo que fiquei fora, e se ele tiver feito mais merda, ainda mais com a Helena. Porra...

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora