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Helena:

Hoje eu entrei em contato com alguns colegas do meu antigo trabalho e falei sobre a ideia que tive de vir atender na ONG daqui do morro.

Alguns negaram porque iriam estar em algum plantão ou porque não poderiam vir mesmo. Entendi, mas mesmo assim fui falando com outros e, no final, consegui.

Vai vir um médico e uma enfermeira. Daí, vai ser nós três atendendo: um médico e duas técnicas de enfermagem.

Eu falei com eles e confirmei tudo, mas tinha esquecido de uma parte: não avisei ao Gavião. Porque, querendo ou não, são pessoas desconhecidas que vão subir o morro.

Aí agora estou subindo essa ladeira para ir na boca de fumo, que eu nem sei direito onde é, para falar com o Cavalo. Mas eu liguei para a Helô e ela me explicou de forma bem resumida como chegar lá.

Todos os dias ela vai para a ONG e eu, às vezes, até vou, mas a maior parte do dia fico em casa, fazendo nada. Não vejo a hora do postinho inaugurar e, pelo que eu fiquei sabendo, já vai ser na próxima semana.

Suspirei, já cansada, e consegui enxergar o Juninho na esquina, com um fuzil nas costas. Aproximei-me mais e, bem na hora, ele virou sério, mas, quando me viu, abriu um sorriso e veio na minha direção.

Juninho: Qual foi, mãezona? Fazendo o que por aí? - passou o braço pelo meu pescoço e eu coloquei minha mão para trás das costas dele.

Juninho ainda era maior que eu, não muito, mas era. Fico me perguntando o que esses meninos comem para crescer tanto.

Helena: Falar com o cavalo - falei. Ele me encarou sem entender e sorri de lado - com o gavião.

Juninho: Chamando o paizão de cavalo? - riu - Vou chamar ele assim também, combina. - Dei risada e encarei outros meninos que estavam no beco, todos armados. - Encarar ela não, hein, caralho. Tira o olhar.

Ele falou e eles riram, virando para o outro lado.

Helena: Credo, Juninho - belisquei ele, que se virou de lado e passou a mão onde belisquei - isso é convivência com o cavalo, é?

Juninho: Isso dói, pô - me encarou - e eles não podem olhar, não mesmo. Paizão vai gostar nada.

Helena: Ele tem que gostar nada, não - neguei - mas ele tá aqui ou não tá?

Juninho: Tá lá na salinha dele - resmungou - mas já vou falando mesmo, tem uma nega lá dentro. Só não sei se ele tá comendo ela.

Fiz careta e, bem na hora, escutei o barulho de uma porta se abrindo. Virei minha atenção para cima e vi a tal Jessica, a que é madrinha do Guilherme e ficou com o Tomate. Ela saiu baixando o vestido e me encarou, dando um sorriso como se fosse de deboche, e eu sorri também, mas, diferente dela, eu sorri por educação.

Percebi quando um dos meninos que estavam por ali se aproximou de mim e olhei estranho.

Juninho: Minha mãezona não vai arrumar confusão, não - se aproximou - pode sair de perto dela.

Jessica: Até porque não tem motivos para arrumar, né - falou, e eu juro por Deus que me segurei para não revirar os olhos, e nem foi por nada não, foi pela voz dela mesmo.

Voz enjoada e, ainda por cima, falava com deboche.

Jessica: Sou antiga aqui - sorriu forçada e respirei fundo, ignorando-a. Vou bem dar ibope, porque sei que, só pelo jeito dela, ela deve ser daquelas que amam arrumar confusão, e de uma coisa que eu tô correndo é de confusão.

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora