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Helena:

Eu não sabia o que falar para ele, mas ele parecia entender ou, pelo menos, não ligar. A história de vida dele me pegou em cheio, porque nunca tinha passado pela minha mente que ele havia matado o pai. E muito menos que a Helô presenciou a mãe dela sendo morta pelo próprio pai.

Ela só tinha 6 anos e, pelas minhas contas, quando o Gavião matou o pai dele, ele só tinha 12 anos, por aí. Uma criança.

E, parando para pensar agora, talvez seja por isso que ele tem esse jeito mais fechado e ignorante. Toda essa postura rígida que ele tem e o jeito de ser mais reservado talvez sejam uma forma que ele encontrou de se proteger da dor. Pode ser que ele nunca tenha sido assim, mas, com tudo que viu e teve que fazer desde novo, ele se viu forçado a se tornar essa pessoa.

Foi uma "estratégia" de autoproteção que ele construiu, mas, com o tempo, ela foi se tornando parte de quem ele é. E, mesmo quando as situações não exigem mais essa defesa, esse comportamento se tornou um reflexo constante da sua personalidade. Algo que ele não consegue simplesmente deixar para trás.

Gavião: ele sempre foi muito rígido, tá ligada? - jogou a cabeça para trás no banco e eu já tinha perdido as contas de quantos cigarros de maconha ele tinha fumado. - Desde quando eu era menorzinho, ele me mostrava os bagulhos de como comer mulher.

Meu Deus do céu.

Olhei assustada para ele, mas ele já não me olhava mais. Só ficava olhando para o teto do carro.

Gavião: perdi minha virgindade no meu aniversário de doze anos. Ele levou umas mulheres lá pra eu comer - riu.

Helena: Gavião - falei, ainda assustada - misericórdia.

Gavião: e ele sempre me levava para alguma mulher, só parou mesmo depois que eu matei ele.

Helena: Isso era abuso; você só era uma criança. - Ele me olhou e estalou a língua.

Gavião: Tu acha que ele ligava para isso?

Parece que a situação só piora. Deve ser por isso, então, que ele sempre está com alguma mulher e tem esse jeito rodado de ser. Porque ele foi influenciado desde novo a ser assim. Como se a forma de buscar uma distração só viesse através do sexo. Todos esses comportamentos dele vieram através da dor.

Vi ele pegar a garrafa de uísque de novo e virar diretamente na boca. A garrafa já estava na metade, e ele estava tomando isso tudo sozinho.

Helena: Já está bom de bebida - peguei a garrafa da mão dele, e ele me encarou sério - estou falando sério, e a gente ainda tem que voltar para casa.

Tampei a garrafa e virei para trás, colocando-a no banco de trás, e virei para ele.

Helena: E de cigarro também - falei quando vi que ele já ia acender outro. - Tu não pode ficar doidão agora não.

Peguei o cigarro da mão dele e coloquei dentro da bolsa.

Helena: Para onde você vai? - perguntei quando ele abriu a porta do carro e saiu, sem me responder. Respirei fundo e abri a porta, saindo do carro também e vendo-o encostado no capô do carro, olhando para frente. - Você quer um abraço?

Gavião: Mané abraço - resmungou, e revirei os olhos, sentindo-o puxar meu braço, fazendo eu ficar no meio das pernas dele.

Helena: E você quer o que, então? Porque você está quase me abraçando. - Coloquei minhas mãos na cintura dele, vendo-o baixar o pescoço e deixar o rosto próximo do meu.

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora