Helena:
Engraçado como a vida toma rumos que a gente nunca imaginou. Digo "engraçado", mas há algo de trágico nisso tudo também. Ainda assim, talvez tudo tenha acontecido como precisava acontecer.
Ver a Júlia, a minha Júlia, crescer, virar mulher, me aquece o coração de um jeito que nem sei se mereço sentir. Mesmo de longe, eu acompanhei cada passo. E, de alguma forma, ela sempre soube. Sempre sentiu.
Sinto um orgulho que não cabe em mim. De tudo o que ela enfrentou. De nunca ter desistido. De ter me chamado, mesmo quando parecia que eu não podia mais responder. Meu coração sempre foi dela. Da minha menina. Da minha tão sonhada menina.
Tenho orgulho do Igor também. Por não ter virado as costas. Por ter ficado. Por ter feito o que pôde com o que restou. Sei que a Helô teve um papel enorme, e sou grata demais. Mas eu vi, eu senti que ele tentou. Que ele amou.
Já senti tanta raiva dele. Tanta mágoa. Mas hoje, hoje eu só consigo sentir gratidão. Porque, mesmo com todos os erros, ele me ensinou. Me fez sentir. E, por mais que doa admitir, houve amor. Do nosso jeito. Bagunçado. Intenso. Real.
Lamento que não tenha dado certo. Porque, se teve uma coisa que eu desejei de verdade nessa vida, foi que tivesse dado certo. Que fosse eterno. Mas talvez, talvez nosso amor não fosse pra agora. Talvez fosse pra outra vida.
E o mais curioso é como essa frase — "outra vida" — carrega tantos sentidos. Pode ser depois da morte. Pode ser daqui a alguns anos. Pode até ser num reencontro inesperado. Não sei. Mas gosto de pensar que o amor não morre; ele só muda de forma. Só espera a hora certa.
No fim, a vida toda foi feita de Lágrimas de ilusão. Mas nem por isso deixou de ser amor. Nem por isso deixou de ser verdade.
E, às vezes... só às vezes... eu acho que ainda vou encontrá-los. Em algum lugar. Em algum tempo. Ou talvez... nem precise esperar tanto assim.
Júlia:
Nunca pensei que casar fosse me deixar tão nervosa. E olha que era só no civil. Sem vestido branco esvoaçante, sem buquê, sem marcha nupcial. Só a gente, em um sítio, algumas assinaturas e um amor que sobreviveu a tudo.
Minha mão suava dentro da dele. E ele, claro, achava graça. Disse que era a primeira vez que me via tremendo por algo que não fosse raiva, e eu realmente tive que concordar.
Assinar meu nome ali, naquela folha, com o dele do lado... foi diferente de tudo que já senti. Uma mistura de paz com vertigem. Como se o mundo girasse devagar só pra gente ter tempo de sentir tudo com calma.
Olhei para frente e vi a tia Helô com os olhos cheios d'água. Ela sempre foi mais que tia; foi mãe quando precisei, foi colo quando tudo desmoronou. Tive vontade de correr até ela e agradecer por nunca ter me deixado sozinha.
E, por um segundo, juro que senti como se ela estivesse ali também: a minha mãe. Minha mãe de sangue, de alma. A mulher que me deu a vida e o nome. A que, mesmo de longe, sempre me acompanhou. Talvez não com presença 100%, mas com amor. E amor de verdade nunca vai embora.
Não sei explicar, mas quando o escrivão falou "declaro vocês oficialmente casados", o tempo pareceu parar. Eu olhei para ele — o meu agora marido — e entendi que, mesmo com todas as perdas, com todas as ausências, eu tinha vencido. A gente tinha vencido.
Porque, no fim das contas, o amor que eu carrego é feito de muitas histórias. Histórias que começaram antes de mim. Histórias que sangraram, mas que deixaram flores. Histórias que eu só entendi depois de crescer.
E talvez seja por isso que hoje eu acredito tanto em recomeços, em outras formas de amar, em outras vidas.
Porque eu vi o amor resistir à guerra, à dor, à ausência. Eu nasci de um amor que não pôde ser vivido. Cresci entre promessas que não foram cumpridas. Mas cheguei até aqui. E hoje, eu assino meu nome com o coração em paz.
E enquanto assino, eu penso nela.
Na minha mãe.
Na mulher que viveu uma vida de lágrimas de ilusão, mas me deixou o presente mais verdadeiro que alguém pode deixar: a coragem de amar, mesmo depois de tudo. Foi ela que me ensinou isso.
Davi: agora, oficialmente minha mulher – falou, me puxando pela cintura para me beijar, e eu sorri. Assim que íamos nos beijar, escutei a tosse do meu pai.
Júlia: ah, não, pai – falou, rindo, e virei para encarar ele.
Gavião: Na minha frente? Mas não mesmo – negou, e o Davi riu. – Primeiramente, que na minha cabeça tu nem beija.
Júlia: Pai, eu já tenho 19 anos. – Cruzei os braços – e agora estou casada.
Davi: Comigo ainda, óbvio. – Meu pai resmungou.
Gavião: Não se acha muito não – apontou pro Davi, e o Davi riu, me abraçando de lado. – É o seguinte: se tu ver que não dá mais certo, tu devolve minha filha de volta, se ligou? Se tu fizer ela sofrer, faço tu conhecer o inferno cedo.
Júlia: Que horror, pai. – Neguei com a cabeça.
Davi: Pode deixar que vou fazer sua filha feliz.
Gavião: Hum, acho bom. – Apontou, e olhei um dos seguranças do meu pai se aproximar, com o semblante assustado e uma caixa na mão.
– Patrão... – percebi ele engolir em seco, e meu pai virou sério.
Gavião: Qual foi? Que caixa é essa?
– Chegaram com essa caixa aqui na entrada da chácara. Mandaram entregar para a Júlia. Tá no nome da Helena. Helena Fonseca.
Vi meu pai mudar de cor, e eu prendi a respiração. Não...
Fim...
Obrigada a todos que continuaram até aqui, seja lendo, curtindo e comentando a cada capítulo. Vocês são incríveis!
Um beijo da
Maluquinha!
⚠️
Próximo capítulo vai ser o final alternativo!!
VOCÊ ESTÁ LENDO
Lágrimas de ilusão.
FanfictionNunca espere demais da sorte ou dos outros; no fim, não há quem não decepcione você.
