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Gavião:

Já tinham se passado alguns dias e eu pensei pra caralho. Pensei mesmo, tá ligado? A Helena é minha mulher, pô. A única mulher que me tem e, caralho, eu não me imagino mais sem ela.

Os dias em que ela ficou internada, em coma, me fizeram pensar, me fizeram chorar e eu só tive mais certeza ainda de que quero mudar, quero ela na minha vida. Eu já tinha dito que iria parar de vacilar, pô. De vacilar com ela, mas na hora da raiva, no ódio e no medo de perdê-la, eu acabei perdendo o controle. Fiz um bagulho do caralho e ainda perdi um filho.

A ideia de fazer outra casa já era antiga, tanto que já estava em reforma, mas depois desse acidente, eu mandei adiantar ainda mais esse bagulho e, quando a Helena realmente voltar para mim, porque ela vai voltar, nós vamos para a casa nova.

E agora não é só por questão de a outra casa ser maior, mas por necessidade, pô. Tenho medo de levar ela para a casa em que morávamos e ela lembrar de tudo e querer ir embora. Tenho medo dela entrar no quarto que era nosso e lembrar de toda a merda que aconteceu naquele dia. E eu não quero perdê-la. Eu não posso.

E eu quero que ela recupere a memória, que ela lembre dos momentos que passamos juntos, tá ligado? Mas, porra... eu não quero que ela lembre do dia do acidente. Não quero ter que escutar que ela vai embora de novo, que ela vai me deixar, que ela tem nojo de mim e que eu sou um monstro. Não quero ter que escutar essa porra de novo saindo da boca da mulher que eu amo, tá ligado? Não quero, pô.

Eu pedi uma segunda chance a Deus, falei que iria mudar, que iria ser um homem que eu nunca cheguei a ser 100% com a Helena e eu vou ser, mas esse bagulho do acidente, de tudo o que aconteceu, eu não vou falar. E não é só porque eu não quero, mas também porque não consigo.

Nós vamos seguir a nossa vida. Vou reconquistar ela de novo, contar sobre os momentos que passamos juntos e criar nossa família, pô. Vou fazer ela feliz e realizar os sonhos dela. Mas falar tudo o que aconteceu, eu não vou.

E ainda tem o carioca e a facção e, porra, tô colocando tudo em risco, mas não vou falar para ninguém que a Helena é filha dele. Não vou colocar a vida da minha mulher em risco de novo. Vou arrumar outro bagulho, procurar mais alguém, nem que seja a Nadja, mas da Helena, eu não falo.

E agora nem é só pela facção, mas também porque tenho medo de contar a ela e ela querer ir para ele. Tenho medo dela me abandonar.

E ninguém nunca vai me entender, e eu nem quero que me entendam também nesse caralho, porque quem está fazendo a minha vida sou eu. Mas eu nunca fui de ter esse bagulho de amor, paixão e essas paradas; nunca fui de demonstrar nada. Sempre fui na maldade, sem piedade. E do nada, chegou a Helena. Chegou toda cheia de si, me peitando desde o primeiro dia, querendo me escutar, querendo me entender, dando opinião sem nem saber se eu queria ouvir, falando de planos.

E que planos eu tinha, porra? Quando era pivete, até tinha uns planos, mas depois de toda a merda que rolou na minha vida, os únicos planos que eu tinha eram saber quem eu ia comer no outro dia, quem eu ia matar, quem eu ia torturar. Esses eram meus planos.

Não era nada de querer estar em um relacionamento, de querer ter filhos, de ter mais responsabilidade além da facção e muito menos de acreditar em Deus. Mas agora, porra. Agora tudo mudou.

Ela despertou em mim essa vontade de ter filhos, algo que eu nem imaginava mais. Era uma coisa de criança, tá ligado? Mas com ela, parece que tudo ficou real, e agora eu até sonho com isso: ter um menino e uma menina. Meu sonho de pivete.

Heloísa: Eu nem vou falar nada - encarei-a sério assim que ela abriu a porta - só não faz merda, tá entendendo? - estalei a língua e passei por ela, deixando a bolsa no sofá. - E você não perde essa mania, né? Se com essa idade já é assim, imagina quando estiver velho. Ninguém vai te aguentar.

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora