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Gavião:

Era ela.

Era a minha mulher, porra. Eu não estava sonhando.

Depois de tanta guerra, tanto sangue derramado, tanta madrugada virada, ela tava ali. Na minha frente. Viva. Respirando.

Gavião: eu te amo, pô. Te amo pra caralho – segurei o rosto dela, olhando nos seus olhos e vi que ela estava chorando. Senti meus olhos arderem também e beijei ela.

Senti o corpo dela se tremer no meu abraço e juro por Deus, pô. Se tivesse demorado mais um dia, eu enlouquecia. Mas também não ia parar até encontrar eles. Eu ia descer o Rio de fuzil na mão até encontrar o último filho da puta envolvido nisso.

Mas agora ela tava aqui. Nos meus braços. E eu sentia o cheiro dela, o calor da pele dela. Não era um sonho. Ela me abraçou mais apertado e eu a segurei pela cintura, sua barriga tocando com a minha e foi quando senti, de forma leve algo se mexer entre a gente. Era meu filho, porra. Meu menor estava se mexendo.

Helena: Ele se mexeu... – Quando ela falou isso, com os olhos cheios d'água, foi como se o coração voltasse a bater no peito. O meu e o dela.

Meu moleque tava ali. Firme.

Abaixei a cabeça e beijei a barriga dela com cuidado. Fechei os olhos e respirei fundo. Como se aquele gesto fosse me salvar de tudo o que estava acontecendo antes.

Gavião: Papai tá aqui, filho... – falei, sentindo minha voz sair rouca e baixa.

Olhei pra Helena de novo e vi o quanto ela estava acabada. As olheiras fundas, os lábios ressecados, o cansaço no olhar. Mas apesar de qualquer bagulho, também vi a força. Porque minha mulher é forte pra caralho.

Gavião: Nunca mais... — sussurrei, segurando o rosto dela — Nunca mais vão tirar você de mim.

E não vão mesmo.

Nem que eu tenha que botar o Rio inteiro de cabeça pra baixo de novo.

Helena: eu não quero sair de perto de você nunca mais – balancei a cabeça e beijei ela de novo, subi na moto e ajudei ela a subir também e ela se segurou forte da minha cintura, e fomos direto para casa. Pra nossa casa.

Eu queria saber de vários bagulhos — como ela chegou, o que aconteceu, o que fizeram com ela — mas antes, eu cuidei. Levei ela pro banheiro, dei banho, vesti ela com calma, botei deitada na cama. Fui pra cozinha, abri a geladeira, procurei o que tinha. Fiz dois sanduíches — nem era o bagulho mais saudável, mas era alguma coisa.

Gavião: Eles mexeram com você? – perguntei sério. Ela ficou quieta.

Minha mandíbula travou. Fiquei mais sério ainda.

Gavião: Qual deles?

Helena: Era Neco – falou baixo, mordendo o pão – o nome dele era Neco. Ele era magro, alto, tinha uma tatuagem no pescoço. Era Danilo o nome da tatuagem. Ele tinha uma carpa na perna, uma outra no braço. Ele era explosivo – me olhou – ele chegou a me bater. Me chamou de vadia. Disse que tudo aquilo era porque você tava invadindo as favelas do Comando. Que você tinha mexido com a pessoa errada. Que ia pagar. Seria sangue por sangue.

Dei uma risada, sentindo o ódio subindo e me segurei para não surtar na frente da Helena. Danilo. Danilo é o Doda, o filho da puta que matei há um tempo atrás. Irmão do carioca.

Gavião: Ele te bateu... – falei baixo, soltando uma risada – Te chamou de vadia... tocou em você... – respirei fundo, tentando não explodir mais do que já tava. – Eu vou matar esse cara, Helena. Eu vou matar esse desgraçado.

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora