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Gavião:

Eu nunca acreditei em Deus. Sempre achei que Ele tava lá só pra fazer a gente sofrer, fazer a gente se perder nos próprios passos. A vida já me mostrou isso cedo, e não foi com palavras bonitas ou promessas de salvação. A vida me mostrou a dureza de estar sozinho, de lutar contra o que não pode ser vencido, de ver gente boa indo embora e os filhos da puta continuando por aí, fazendo merda.

Mas a Gabi... ela tinha fé. Ela acreditava, porra, acreditava de um jeito que eu nunca entendi, de um jeito que me fazia sentir pequeno perto dela. Toda noite, ela me pedindo pra rezar, toda noite me dizendo que Deus ia cuidar da gente, que a gente tava protegido. Ela não tinha medo de nada. Ela dizia que Deus tava com ela, que tudo ia ficar bem, e ela parecia tão pura quando falava isso.

E agora? Agora ela se foi. Por que, porra? Me explica, por que ela? Ela acreditava tanto em tu, ela se entregava tanto à ideia de que tu cuidava de nós, por que você fez isso com ela? Ela que nunca fez mal a ninguém, sempre com o sorriso no rosto, sempre com aquele coração tão bom, por que você a tirou de mim?

Eu nunca fui bom com essas paradas, com esse papo de fé e oração. E sempre que ela me olhava com aquele jeito inocente e pedia pra rezar, eu fazia, mas não acreditava em nada. Eu sabia que a vida não era assim. Eu sabia que a dor era real, que a morte chegava pra quem fosse, sem aviso, sem piedade. Mas ela... ela ainda acreditava em algo além. Ela acreditava em você, Deus. E agora, você tirou ela de mim.

Eu não sei o que fazer com isso. Não sei como olhar pra frente sabendo que ela não vai estar aqui, sabendo que ela não vai mais olhar pra mim e dizer "tio, Deus vai cuidar de tudo." Eu não sei o que fazer com essa dor que me invade, com essa sensação de que o mundo acabou ali, no momento em que ela respirou pela última vez.

Hoje era o enterro dela e eu não fui. Não porque não quis, mas sim porque aqueles filhos da puta, metido a protetores da sociedade, estavam por lá ao redor do cemitério, esperando que eu ou qualquer outro bandido aparecesse lá e eles levassem a gente preso.

Bando de filhos da puta, que não respeitam a dor de ninguém. Porque se respeitassem, não faria um bagulho desse. Mas eu ia, pô. Eu ia é se fosse necessário nesse caralho, eu trocava tiro com aqueles pau no cu lá mesmo, mas a Helena falou uns bagulhos e disse que era melhor que eu ficasse pelo morro em segurança, que não queria mais perder ninguém.

Sai da boca de fumo, sentindo os pensamentos a mil, raiva e uma dor do caralho. Passei a mão na cabeça e coloquei o cigarro na boca, olhei para o outro lado da rua e parei a meu olhar na mesma senhora que vem aqui na boca dar aquele papo de propósito. A porra de um filme sobre tudo o que ela falou naquele dia passou pela minha mente e fiquei mais sério, indo na direção dela, vendo que ela estava com umas bolsas de mercado e tentando abrir a porta de casa.

Gavião: quero bater um papo com tu - falei sério e ela se virou na minha direção.

Xxx: sabia que você iria vir - estalei a língua, sem paciência para porra nenhuma e peguei as sacolas do braço dela, entrando na casa. - o que te incomoda, meu filho?

Gavião: o que me incomoda? - perguntei sério, sem paciência nenhuma - ela se foi, caralho. - falei, sentindo meu coração acelerar - era dela que você estava falando naquele dia? - ela ficou quieta - era dela, porra?

Xxx: gavião, meu filho...

Gavião: não tem gavião, porra - apontei, sentindo meu olho arder, mas eu não ia chorar nesse caralho - não tem gavião, não tem meu filho, não tem Igor, não tem porra nenhuma - me aproximei dela - só me responde nesse caralho, ela dela que você estava falando?

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora