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1 mês depois...

Helena:

Helena: Tu mal para em casa, Igor... — falei baixinho, nem era pra começar uma briga. Mas saiu.

Ele parou no meio do quarto, tirando a camisa suada e jogando em cima da cadeira, e virou o rosto devagar, os olhos cansados me encarando.

Gavião: Eu tô tentando proteger o que é nosso, Helena. Tu sabe disso.

Suspirei, apertando os olhos. Eu sabia, sim. Mas isso não fazia a dor passar. Nem a saudade. Nem o medo.

Helena: E eu tô tentando proteger o que sobrou da gente. Porque tá virando resto e tu nem tá vendo. — minha voz saiu embargada, mesmo que eu tentasse controlar.

Ficamos em silêncio por alguns segundos. O som do ventilador girando devagar parecia mais alto que tudo. Meus dedos alisavam a barriga quase sem perceber.

Era a primeira discussão nossa desde que voltamos. Eu nem queria falar nada, juro. Mas já tinha quase dois meses dessa guerra. Dois meses de sangue e grito. A favela tava um caos, os moradores pedindo arrego, paz, e nenhum dos dois lados dava trégua. E eu só queria meu marido de volta.

Helena: Daqui uns dias a gente vai completar um ano de casados. Um ano juntos, Igor. E tudo que eu consigo sentir é medo. Medo de chegar esse dia e não ter você aqui. Vivo.

Vi o rosto dele mudar. A firmeza sumindo aos poucos. Ficou só o homem que eu amava. O Igor. Não o da rua. O de casa. O pai do meu filho.

Ele se aproximou devagar e me puxou com cuidado, como se estivesse pedindo permissão com o gesto. Me abraçou forte, a mão na minha nuca, como se quisesse segurar tudo ali.

Gavião: Me desculpa. — falou baixinho, quase num sussurro rouco. — Eu tô errando contigo. Eu sei. Só que eu tô com medo de perder tudo, Helena. De perder vocês.

Há algumas semanas atrás, não sei como, o carioca tentou entrar em contato comigo. Eu não vi qual foi a mensagem que ele tinha me mandado, já que quem estava com o meu celular na hora era o Igor. E para ser sincera, preferi realmente não ter visto. Deveria ser alguma ameaça. E eu não quero ter que passar por nervosismo e sangrar de novo, tendo que ir ao hospital assim como aconteceu quando fiquei sabendo que o carioca estava atrás de mim.

Fechei os olhos e uma lágrima silenciosa caiu. O Igor sempre dizia que me amava, sempre me colocava como prioridade. Mas essa guerra, ela tava engolindo tudo. A gente, o nosso tempo, até o nosso silêncio.

Helena: Só não some de mim, Igor. Nem aqui dentro, nem lá fora.

Ele beijou o topo da minha cabeça e respirou fundo. O coração dele tava acelerado, mesmo parado. A cabeça, eu sabia, não parava. Já devia estar lá fora de novo, tramando contra os inimigos dele. Que agora se tornou nosso.

Gavião: Eu te amo. — disse firme. — E eu vou resolver isso. Do meu jeito. Mas vou.

Me afastei um pouco, olhando pra ele. A mão dele veio direto pra minha barriga, como se precisasse lembrar que ainda existia vida, ainda existia amor mesmo diante de todo esse caos que está acontecendo ao nosso redor.

Helena: Eu só acho que tu tá carregando tudo sozinho e esquecendo que a gente também sente.

Gavião: Eu tô tentando proteger vocês. Só isso.

Abracei ele de volta, mas com um aperto no peito. Porque proteger também era estar presente. E, por mais que ele estivesse aqui agora, eu sabia que a cabeça dele já tava lá fora de novo.

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora