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Gavião:

Porra, o bagulho tava louco, tá ligado? Achava que o crime era cansativo e dava estresse, mas o que dá isso mesmo é ficar em um hospital, vendo alguém que tu ama passando sufoco, tá ligado?

Um mês já nesse bagulho, me arriscando pra caralho, descendo todos os dias para o asfalto para ficar com a Gabi e, de noite, ter que resolver os bagulhos que passei o dia todo sem fazer. Se antes eu mal conseguia dormir, agora eu não durmo mesmo.

Fico bolado pra caralho, porque a Gabi só é uma criança nessa porra e tá passando por tudo isso. Uma inocente, pô, que nunca fez nada de errado na vida e tá passando por essas porras todas. E ela ainda acredita pra caralho no tal Deus, mas adianta de que nesse caralho? Adianta de que se ele que tá fazendo ela passar por isso? Ela que nunca fez nada de ruim na vida, pô. Ainda falam que é um Deus justo. O caralho. Justo onde?

É justo o que ele está fazendo? Fazendo a Gabi, que só tem 5 anos, passar por um câncer? Não é, porra. Não é.

Estou sendo forte pra caralho, mas de que adianta ser forte se tudo que eu queria era poder mudar essa porra?

Gavião: vai ser bala na cara daquele filho da puta - olhei sério - né guerra que ele quer? Aquele filho da puta não quer vir pacificar minha favela? Vai levar bala na cara pra estragar o velório.

Careca: ele vai dar uma parada nas invasões, patrão. Passaram a visão de que ele vai viajar para o casamento da filha, na Argentina.

Gavião: quero saber a data certa desse bagulho. Quem vai e como vai. - pensei - se eu tiver bom, ainda deixo esse filho da puta participar do casamento da filha.

Careca: pode deixar, patrão - respirei fundo e encarei o Cobra.

Cobra: Th mandou passar a visão de que a Fernanda disse de uma propriedade que a família sempre vai no final do ano, ou em eventos. Mostrou umas fotos lá e o carioca estava também.

Pegou o celular e me entregou, mostrando as fotos. Olhei uma por uma.

Cobra: vai ter um evento daqui a 15 dias. A Fernanda chamou o Th, e o que tudo indica é que o carioca vai estar lá. - Passei a mão no rosto. - Se tu disser que sim, podemos preparar uma invasão e matar aquele velho de uma vez por todas.

Gavião: tem que ver esse bagulho direito - falei sério. - Se for bagulho de certeza, marca. - Ele concordou e eu peguei um baseado, acendendo. - Já recolheram os corpos?

Careca: Tomate que ficou lá de frente com os menores. - Concordei e me levantei. - Vai ter o toque de recolher o dia todo?

Olhei para o relógio no meu pulso e vi que já eram quase três da tarde. A invasão acabou tem umas meia hora.

Gavião: passa o carro avisando e coloca nos grupos que só vão sair de casa às quatro da tarde e que o toque de recolher vai ser às dez em ponto. Quem desobedecer, leva pras ideias.

Falei, eles concordaram, saí da sala e saí em seguida, respirando fundo. Foi uma invasão do caralho, das oito da manhã até agora, às duas da tarde. Ainda morreu um inocente; já passei a visão para os menores ajudarem a família no que for preciso no enterro e procurar saber mais.

Fiquei olhando o movimento da viela enquanto fumava e peguei meu celular, indo ligar para Helena. Chamou pra caralho e ela não atendeu; já fiquei cismado no bagulho e liguei de novo. Quando a ligação já estava caindo, ela atendeu.

Gavião: não me atendeu antes por quê, pô? - tirei o cigarro da boca e virei o rosto, soltando a fumaça.

Gabi: oi, tio - escutei a voz baixa da Gabi e ergui a sobrancelha, estranhando - cadê você? Você não vem?

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora