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Alguns dias depois...

Gavião:

Depois de Parada de Lucas, a gente não parou.

Na madrugada seguinte, metemos o pé em Vigário Geral. O bonde foi pesado — cinco carros, três motos. Invadimos pelas beiradas, pelas ruas de trás. Tomamos tiro de frente, mas os caras recuaram. Não tinham a estrutura que esperavam. Foi ali que a gente percebeu: estavam abandonando posições.

Não achamos ela.
Nem sinal do Carioca.

Pegamos dois dos deles vivos. Um tentou se matar.
O outro chorou, disse que só era vapor, que não sabia de porra nenhuma. Mentira ou não, quebrei a cara dele com o cano do fuzil.

Depois, fomos pra Pavuna, numa das bocas que ainda é forte do TCP. O bonde desceu pesado de novo. Mais tiroteio, mais corpo no chão.
Mas da Helena, nada.

Careca: Não tinha nenhuma mulher lá. Nem sinal dela.

MF: O cheiro era só de morte. O Carioca não está mais se movimentando como antes. – falou.

O velho realmente sumiu. Ou tá fugindo, ou tá preparando algo grande.

Hoje, vamos entrar no Pica-Pau. É uma das últimas favelas que ele tem forte na região.

Se não tiver nada lá, só me sobra um caminho: Buscar ela fora do Rio.

Porque se o Carioca levou ela pra algum sítio, alguma fazenda, ou base clandestina que esses filhos da puta usam quando o bagulho aperta, porra... aí vai ser guerra de outro nível. E eu vou levar o inferno comigo.

A cada dia que passa, meu ódio cresce mais.
E eu não vou parar até encontrar a Helena.
Até ter certeza de que ela e o meu menor tão bem.
E quando eu pegar ela, porra... eu vou matar cada um que tá envolvido no sequestro dela. Um por um. Na bala ou na faca.

Acendi mais um baseado, me sentindo agoniado, só querendo a cocaína, pra ver se eu relaxava melhor.
Mas eu tinha prometido nessa porra que não ia mais usar. E promessa, comigo, vale mais que palavra de pastor.

G2: É estranho essa porra – falou – o Velho não bota a cara. Nenhum sinal dele durante todos esses dias. Já invadimos duas favelas dele e até agora nada do velho aparecer.

Liguei o celular. Olhei a foto de bloqueio. O dia do chá revelação. Ela rindo, mão na barriga e eu atrás dela, com a mão sobre a dela.

Soltei um suspiro, sentindo o peito apertar.
Minha vida não faz sentido sem ela. Sem eles.

Loirinho: Se ele tá envolvido ou não com essa porra, de algum jeito ele já teria botado a cara.

Gavião: Não tem essa de não tá, caralho. Ele tá envolvido nessa porra. Se não for ele, é do mesmo chiqueiro que o dele. – esfreguei a mão no rosto, já de saco cheio.

Fiquei em silêncio por uns segundos. O baseado queimando devagar entre os dedos.

Careca: ae, tá tudo pronto – falou, depois de bater na porta e entrar na sala. Apaguei o baseado e levantei da cadeira.

Não pensei. Não hesitei. Só levantei, peguei o fuzil, e saí.

Lá fora, os menor estavam todos em silêncio. Todo mundo já entendeu que isso aqui não é missão. É penitência. E eu sou o primeiro da fila pra pagar.

Subi no carro e deixei o rádio no colo. A noite tava fria, o céu carregado. Favela tava tensa, sem muita movimentação. Passei a mão no peito esquerdo, onde tem a tatuagem com o nome dela e só pedi para que Deus me ajudasse a encontrar ela bem e viva.

Lágrimas de ilusão. Onde histórias criam vida. Descubra agora