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Helena:

Hoje fui ao salão e fiz aquele dia de diva: retoquei minha raiz, cortei o cabelo, diminui um pouco meu mega, fiz manutenção nas unhas, sobrancelha, unha do pé e depilação. Estava me sentindo outra pessoa, nova em folha.

Passando horas lá, tentando relaxar e cuidar de mim, o Igor não parava de me ligar e mandar mensagens. Aí eu lembro: não era ele que odiava grude? Não era ele que sempre dizia que não gostava de muito contato? Pois é... Mas agora tá assim, me mandando segurança e tudo, só porque eu estou fora do morro, num salão da pista.

E ele não para de me ligar. Acho que, na cabeça dele, eu vou fugir a qualquer momento. Já avisei: se ele continuar assim, vou bloquear igual da última vez, e dessa vez vai ser sem dó nem piedade. Pronto.

Agora eu estava subindo o morro e, assim que chegamos na entrada, vi o menino que estava dirigindo o carro pegar o rádio e falar.

Xxx: Chegamos agora na entrada, patrão - falou, e eu suspirei. O menino parou o carro onde estavam os outros meninos e baixou o vidro.

Ele falou umas coisas, e um dos meninos baixou a cabeça, olhou para dentro do carro e me viu. Estreitei os olhos, não entendendo e vi ele pegar o rádio também e se virar, falando alguma coisa.

Xxx2: Patrão tá desconfiando de todo mundo mesmo, né? - olhei para o menino da frente e falei - e tá com mais segurança com a patroa. - Ele virou, me encarando, e eu sorri de lado, vendo o outro menino que estava no volante empurrá-lo com o cotovelo. - Qual foi?

Xxx: Cala a boca, caralho - falou sério, e eu acabei dando risada, vendo ele virar para me encarar. - Foi mal.

Helena: Tudo bem - ri e vi o outro menino voltar e falar com ele, dizendo que podia subir. O carro continuou seguindo o caminho e logo parou em frente de casa. Desci do carro e agradeci aos meninos.

Assim que estava entrando em casa, escutei o barulho da moto do Igor e dei risada, continuando a entrar. Deixei a minha bolsa em cima do sofá e fui em direção à cozinha, escutando o barulho da chave.

Gavião: Isso não é normal, pô. Quase 10 horas na rua? - Fingi que não escutei e coloquei água no copo. - Achei que ia morar lá.

Helena: Nem demorei tanto - dei de ombros e virei para ele, bebendo da minha água. - Você que é exagerado.

Gavião: Rum - veio sério na minha direção e puxou meu rosto, alisando meu cabelo. - Tá bonitão - me cheirou. - Mas cortou por quê? - Dei risada. - Tô falando sério contigo.

Helena: Nem sabia que você ia reparar - coloquei o copo na pia. - Só diminui um pouco.

Gavião: Tá maluca? Tu é minha mulher, reparo em tudo, caralho - passou o braço pela minha cintura e baixou o rosto, me beijando. - Hoje à noite vai ter pagode lá na Cinco Boca. - Olhei desconfiada para a cara dele.

Helena: Por isso que você está vindo assim, né, seu sonso? - tentei empurrá-lo e escutei sua risada enquanto ele me puxava de volta - não quero saber.

Gavião: Tá na neurose, caralho? - falou rindo ainda, e eu fechei a cara - tô te avisando, porque você vai comigo, porra. - segurou meu rosto - você só foi lá duas vezes, perdida; o povo tem que saber que é a dona de verdade daquele lugar.

Helena: Eu não sou dona de nada, não, porque eu não sou traficante - cruzei os braços - e eu não gostei muito de lá, não. Prefiro mais aqui. - ele estalou a língua e me puxou para a gente sentar na cadeira, me deixando no colo dele - tô falando sério, lá fica um monte de mulher me encarando e a pessoa já percebe que é na maldade.

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora