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Gavião:

Corri pelos becos, escutando os tiros ficarem mais altos. O estrondo das bombas e os gritos. Olhei os seguranças fazendo cobertura e passei a mão na testa, sentindo o suor descer.

Escutei passos como se fossem entrar na viela e me abaixei, ajeitei o fuzil e mirei. Assim que o filho da puta colocou a cara dentro da viela, disparei duas vezes no peito dele e ele caiu. Os caras se aproximaram, atiraram na cabeça e pegaram o fuzil dele.

Saímos do beco, sempre atentos. O fuzil cantou pra caralho, meu coração ainda acelerado, garganta secando, corpo ficando cansado e minha mente só ia na minha menor no hospital. Na Heloísa. No Juninho. No Pedro. No Gustavo. No Vinicius. Na Helena. Em todo mundo. Na Camile. Na minha favela.

Parei, encostando na parede e respirei fundo.

Th: qual foi? – parou ofegante na minha frente – tomou tiro?

Gavião: não – falei sério e passei a mão no peito, no mesmo lado que tem a tatuagem com o nome da Helena. – só preciso respirar. – continuei sério.

Th: Já vai pra quase 5 horas seguidas de invasão – olhou o relógio. – Eles não vão recuar.

Gavião: E eu muito menos – falei sério e ajeitei o fuzil, me descontei da parede – Bora.

Fui na frente e entrei em um beco diferente do que eles entraram. Pulei para uma laje e olhei o movimento de cima. A favela tava parecendo um inferno.

Olhei um bonde de 4 subindo o morro correndo, passei a mão no colete e puxei a granada, tirei o pino e mirei, jogando na direção deles. Me abaixei e escutei o estrondo e os gritos. Sorri de canto e levantei, olhando na direção em que eu joguei. Todos mortos.

Pulei pra baixo, fui de canto e foi quando meu olhar parou em um corpo. Em pé. De costas. Do outro lado. Reconheci na hora. Era o carioca.

Respirei fundo, sentindo minha respiração descontrolada pelo cansaço e foi quando mirei a arma na cabeça dele. Engatinhei e, assim que ia puxar o gatilho, escutei o barulho de um choro e um sussurro: por favor, me tira daqui, tio.

Virei minha atenção e vi uma criança toda encolhida na parede, percebendo que estava sangrando.

Gavião: Puta que pariu – murmurei, jogando o fuzil para trás e me abaixando na altura dele. – O que tu tá fazendo aqui fora, caralho? Quer morrer?

Se pá, o menor tinha uns 6 anos. Olhei para a perna dele, vendo que estava sangrando pra caralho e passei a mão na cabeça.

Xxx: Eu não consegui chegar em casa quando a invasão começou. Me desculpa. – começou a chorar e eu neguei com a cabeça.

Virei meu olhar rápido para onde o carioca estava até uns segundos atrás e não vi mais o filho da puta.

Gavião: Caralho, se fuder – gritei, vendo que o menor se assustou. Peguei o rádio. – Vi o carioca na rua da Carla Barranqueira, ele sumiu. Vê se acha ele nesse caralho. Achei um menor ferido.

Passei a visão e olhei para o menor. Ajeitei o fuzil melhor e peguei-o no colo, arrombando a primeira casa que vi na frente e escutei o grito da dona.

Gavião: o menor tá ferido. Dá uma moral aí nele, depois passo aqui e te dou a recompensa. – falei, e ela concordou, ainda assustada, e deixei o menor no sofá.

Vi uma garrafa de água na estante e peguei, dando um gole.

XXX: minha... minha água benta – encarei-a e olhei para a água.

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora