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Ana:

Parecia que agora todas as peças do tabuleiro tinham se encaixado. Se encontrado.

Nadja. Nadja Fonseca. Uma ex-amante do meu irmão, que fez ele ficar maluco da cabeça por ela. Lembro como se fosse hoje o dia em que meu irmão — o "famoso" Carioca — decidiu largar, do nada, a Érika, que na época era sua fiel.

Isso pegou todo mundo de surpresa, tanto a família quanto quem era de fora. Ninguém esperava por isso. E quando descobriram o real motivo, o choque foi ainda maior: ele tava largando a fiel pra assumir a amante. Uma mulher que até então ninguém sabia quem era. Ou melhor, qual era.

Só que isso não aconteceu.

Não aconteceu porque, quando ele foi atrás de assumir essa tal amante, a mulher tinha sumido. Tinha caído fora. Não deixou nenhum sinal. Nenhum rastro. Redes sociais desativadas. Número de celular que não existia mais. Nenhuma gravação de câmera de segurança, nem em aeroporto nem em rodoviária. Nada.

E foi isso que deixou meu irmão louco por anos. Ele tava completamente apaixonado por ela. Tão apaixonado que largou a Érika pra ficar com essa outra. E essa outra se chamava Nadja. Nadja Fonseca. Ela era amante do meu irmão sem nem saber que era amante. E era meio que impossível saber mesmo, já que ela era do asfalto. E talvez tenha sido por isso que ela fugiu: porque descobriu que era a outra.

Meu irmão procurou por ela por uns cinco anos seguidos. Foi um caso que quase todo mundo no Rio de Janeiro ficou sabendo na época. Depois de um tempo procurando, ele parou. Mas, quase três anos depois, voltou a procurar. E não achou. Nada. Aí desistiu. De vez. Quase dez anos depois.

A Helena.

Até hoje esse nome me bate diferente no peito.

Ela foi sequestrada pelo meu outro irmão. O mais novo. Ninguém fala o nome dele por aí, mas no meio ele é conhecido como Neco. Um cara perigoso, movido pela raiva. E a verdade é que ele fez isso por vingança. Vingança pela morte do nosso outro irmão... o mais velho. Que o Gavião matou.

Só que quando eu fiquei sabendo do sequestro, não fazia ideia de quem ela realmente era. Só sabia que era mulher do Gavião e que tavam mantendo ela escondida, machucada, comendo mal, grávida... Grávida. Quando ouvi isso, foi como se alguma coisa dentro de mim gritasse. Não tinha mais como ficar parada.

Foi aí que comecei a me aproximar. Queria ajudar, mesmo que em silêncio. Mesmo sem saber por quê. E foi quando eu vi ela pela primeira vez...

A Helena tinha aquele olhar... um olhar de medo, sim. Mas também um olhar que eu nunca tinha visto em ninguém. Um olhar de quem sabia que todo mundo ali ia pagar. Que não ia esquecer. Que não ia perdoar. Aquilo me atravessou. Tinha algo nela que mexia comigo de um jeito que eu não conseguia explicar.

Com o tempo, fui notando os traços. O jeito de falar, umas entonações... as expressões. Era estranho. Me lembrava alguém. Me lembrava o Carioca. E foi aí que eu perguntei, do nada, no meio de uma conversa qualquer:
— Qual é o nome da sua mãe?

Ela respondeu. Nadja. Nadja Fonseca.

Na hora, minhas pernas quase falharam.

Era como se tudo tivesse feito sentido. Como se o quebra-cabeça tivesse se montado sozinho, ali, bem diante de mim. A idade dela batia com o tempo em que a Nadja sumiu do Rio. E quanto mais eu olhava pra Helena, mais eu via meu irmão nela. O olhar. O sangue quente. O silêncio carregado.

Se essa menina não for filha do Carioca, então que eu cegue agora.

Pensei em ligar pro Carioca.

Contar o que eu descobri. Que a Helena, a mulher que o Neco sequestrou é filha dele. Filha da Nadja. A mulher que ele passou uma década procurando, sem nunca saber que tinha deixado um pedaço dele no mundo. Pensei em ligar mesmo. Avisar que a filha dele tava aqui, sofrendo. Grávida. Sem saber quem é. Sem saber o sangue que carrega.

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora