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1 semana depois...

Helena:

Eu não sei mais quantos dias tô aqui. O tempo virou uma coisa que só serve pra me machucar. Não tem janela, não tem relógio, não tem nada. Só esse chão gelado, esse colchão imundo e as paredes que parecem me apertar cada vez mais.

No começo, eu gritava. Batia na porta. Implorava.
Agora, eu só fecho os olhos e tento sentir o Kauã se mexer. Ele é a única coisa que me faz lembrar que ainda tô viva.

Meu corpo tá fraco, mas minha mente ainda resiste.
Não por mim. Por ele. Pelo Igor.

O cheiro desse lugar me enjoa mais que qualquer enjoo de gravidez. É uma mistura de mofo, suor e desespero. Às vezes, penso que vou enlouquecer. Mas aí ele mexe. Dá um chute. E eu lembro por que ainda tô aqui.

Eu não sei quem são esses caras. Nunca vi o rosto deles. Sempre cobertos, sempre armados. Um deles me arrastou pelo braço no primeiro dia, e eu quase caí. Depois disso, pararam de falar comigo. Só entram, largam comida, e saem. A comida sempre pouca. Sempre fria.

Mas tem uma mulher.

Ela apareceu no terceiro ou quarto dia — acho. Não falou o nome, só disse que tava ali pra "ajudar". Diferente dos outros, ela olha no meu olho. Me dá comida quente quando pode. Me traz chá quando vê que tô vomitando. E às vezes até senta no chão comigo, em silêncio.

Eu desconfiei no começo. Ainda desconfio. Mas o olhar dela... tem algo ali. Algo que parece verdadeiro.
Ela não sabe fingir. Ou sabe fingir bem demais.

Helena: Você tem nome? — perguntei ontem, com a voz baixa, a garganta seca de tanto chorar calada.

Ela hesitou. Demorou pra responder. Depois disse:

Ana: Me chama de Ana. Só Ana.

Acreditar ou não, tanto faz. Aqui dentro, tudo é relativo. Mas ela me deu uma toalha limpa. E me deixou tomar banho. Com a porta entreaberta, vigiada, claro. Mas foi o primeiro banho de verdade que tomei desde que fui sequestrada. Chorei debaixo da água até minhas pernas dobrarem. Ela segurou meu braço pra eu não cair.

Não sei por que ela tá me ajudando. Mas sei que ela sabe mais do que mostra.

E tem outra coisa: o nome Carioca já foi dito por um dos homens. Bem baixinho, num cochicho que achavam que eu não tava ouvindo.

Mas o mais estranho é que eles falam dele com distância. Como se ele não estivesse por trás disso.
Como se alguém aqui estivesse agindo por conta própria.

Talvez o Carioca nem saiba que eu tô aqui.
Mas isso não muda o fato de que eu fui arrancada do Igor, da minha vida. E alguém vai pagar por isso.

Helena: Você tem filhos? — perguntei pra Ana hoje de manhã, enquanto ela ajeitava a comida no canto da sala.

Ela ficou em silêncio. A mão dela tremeu um pouco.

Ana: Tive. — respondeu. E foi só.

Não insisti. Mas guardei aquilo. Assim como guardo cada palavra, cada passo que escuto do lado de fora, cada pedaço desse inferno.

Meu filho se mexeu agora. Forte.

Helena: Calma, amor, a mamãe tá aqui. — falei baixinho, acariciando a barriga.

Fechei os olhos e imaginei a voz do Igor. A mão dele na minha barriga. O jeito que ele falava com o Kauã, como se ele já estivesse aqui. O cheiro dele. O jeito bruto, mas cheio de amor.

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora