118.

14.1K 844 309
                                        

+40 comentários.
Votem!!

14 anos depois...

Gavião:

Gavião: Espero que fique bem. – Levantei-me após deixar as flores sobre o túmulo dela. Você faz uma falta grande, minha gata. Espero que, aí de cima, algum dia você possa me perdoar.

As lágrimas não desciam mais, mas era a única coisa que mudou. Porque a saudade, a culpa e o remorso nunca foram embora. Eles nunca deixaram de existir ou, ao menos, de me perturbar.

Eu sei que foi tudo culpa minha e que, se arrependimento matasse, eu com certeza já estaria morto. Mas eu tinha uma filha para criar, um morro para comandar e uma culpa para conviver.

Heloísa foi a minha sorte. Me ajudou mais do que tudo. Estava segurando uma barra pesada, cuidava da Júlia, me ajudava nas crises, cuidava da creche, perdeu uma amiga e ainda tinha os gêmeos para cuidar.

Um inferno total. Devo muito a ela. Sempre fomos nós dois por nós dois. Mas hoje eu posso dizer que, com o tempo, tudo se acerta. Eu convivo e vou para sempre ter a culpa de tudo que aconteceu, mas a mudança e o arrependimento vieram. E vieram fortes. Como eu tive coragem de encostar a mão na mulher que eu amava?

Como eu tive coragem de ser tão possessivo? Como eu tive coragem de mentir tanto? Como eu tive coragem de trai-la? Como eu tive coragem de continuar com ela, sabendo que eu sempre fui um monstro?

Eu nunca mereci ela. Nunca mereci o amor dela. Nunca mereci nada de tudo que ela fez por mim. E ela também nunca me mereceu. Nunca mereceu minhas grosserias. Nunca mereceu minhas agressões. Nunca mereceu minhas traições. Nunca mereceu ter me encontrado.

Hoje eu me encontro aqui, diante do lugar onde se encontra o resto do que restou do seu corpo. Sem poder tocar, sentir ou tê-la comigo. Sentia o vento bater em mim, enquanto imaginava como seriam os bons momentos a três. Eu, Helena e Julinha. Quem sabe não teriam sido mais, não é?

Nunca foi meu sonho construir uma família; para mim, a Heloísa já bastava. Mas com a Helena, eu estava disposto. Com ela, foi diferente. Ela me prendeu desde o início, mas eu só soube dar valor quando quase a perdi. Para piorar, contei uma mentira para cobrir minhas burradas, e quando ela descobriu, fugiu, e com razão.

Alisei seu túmulo, me despedi e segui direto para casa, pensando que nada do que eu faça vai mudar o que fiz no passado.

...

Assim que abri a porta de casa, vi a Júlia no sofá com o namorado dela. Fechei minha cara, e ela pulou do sofá, vindo na minha direção.

Júlia: Pai, que bom que você chegou – passou o braço pelo meu pescoço, e eu resmunguei, abraçando-a pela cintura e senti seu beijo na minha bochecha.

Gavião: Tá afim de quê? – encarei-a, e ela já fez aquela cara de que não quer nada, mas no final quer até meu rim – Desembucha logo, Júlia, te conheço.

Júlia: Nós queríamos conversar com o senhor – resmunguei.

Davi: Boa tarde. – balançou a cabeça na minha direção.

Gavião: Tarde. – respondi seco. Não dou muita abertura para esse namorado da Júlia. Ele pega minha filha e acha que eu vou ficar na paz? Rum. O caralho.

Faço inferno mesmo; se aguentar, é porque quer algum bagulho sério com a minha menor. E ele até que está durando. Não sei se gosto ou não desse bagulho.

Davi: Queremos falar com você, Gavião. Mas só se você tiver tempo mesmo.

Gavião: É só falar – ajeitei a pistola na cintura e me sentei no sofá.

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora