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Helena:

Era incrível como ele poderia ser tão cara de pau ao ainda sentar na minha frente e ficar me encarando. Eu sentia o seu olhar; era óbvio. Mas eu me negava a olhar para ele.

Já faziam horas desde o acontecido? Sim. Mas isso não mudava o fato. As palavras que ele falou contra mim ainda estavam aqui e, mesmo que eu não esperasse muita coisa dele, eu ainda estava decepcionada.

Nunca tivemos nada sério, e isso eu sempre tive em mente. Nunca me deixei levar a pensar que tínhamos algo sério, mesmo que ele sempre estivesse me cobrando e viesse com os ciúmes dele.

Mas eu não vou negar que, às vezes, me sentia meio mal quando ficava sabendo das meninas com quem ele ficava. Não sei exatamente o que eu sentia, mas era uma sensação estranha.

Nunca cheguei a falar isso para ele e muito menos a cobrar, assim como ele fazia; primeiro, para não sair como emocionada e, muito menos, para dar esse gostinho a ele. Mas que eu não me sentia completamente bem, eu não me sentia.

Não nego que talvez, talvez eu estivesse começando a gostar dele. Já eram dois meses que estávamos ficando e não era só uma ficada e pronto. Não. Nós ficávamos, conversávamos, já chegamos a desabafar um com o outro e, ainda por cima, já tínhamos dormido juntos.

Tinha como não se apegar? Não tinha. E, por mais que eu nunca tenha chegado a admitir ou falado qualquer uma dessas coisas para ele, eu sentia.

Não queria parar de ficar com ele, mas, depois de tudo o que ele falou, não tive outra escolha. Ele foi babaca e estúpido.

Olhei na direção da Gabi e do Gui, que tomavam seus sorvetes e conversavam juntos, dando risadas. A presença leve deles e a pureza faziam com que o clima daquela mesa não ficasse tão pesado.

Gabi: quando o tio vai fazer nevar de novo? - tomou mais sorvete e, sem nem conseguir controlar meus pensamentos, lembrei de quando fiquei pela primeira vez com o Gavião.

Heloísa: você realmente amou a neve, né? - perguntou, rindo, e eu acabei sorrindo também, vendo a Gabi sorrir com o jeito dela, meio vergonhoso.

Gabi: amei muito - pegou o guardanapo e limpou a boca, feito gente grande.

Gavião: se der certo, só vai ter no Natal, pô. - respondeu a Gabi, e continuei evitando olhar para ele.

Gui: eu vou poder ir também? Eu também quero ver a neve.

Gavião: claro que pode, pô. - Gui sorriu todo alegre.

Gabi: Tia, você vai continuar ficando com o tio Gavião? Ele tá muito quietinho hoje...

Comecei a tossir, me engasgando com a pergunta da Gabi. Eu não sabia como responder sem fazer com que as coisas ficassem mais desconfortáveis. Gui, sempre mais observador, também me lançou um olhar curioso, mas com aquele jeitinho infantil de quem ainda não entende tudo.

A fofoca já estava rolando tão a solta que até as crianças já estavam sabendo.

Olhei para Helô, buscando ajuda, e ela sorriu, olhando para as crianças.

Heloísa: São coisas de adulto, amor - falou - a vida de adulto é complicada, entende?

Gabi: Ah, tá bom então - balançou os ombros - mas a tia Lena nem olhar para o tio Gavião está.

Lágrimas de ilusão. Histórias para pegar e não largar. Descubra agora