Capítulo 64

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Tropecei em uma pedra e eu voltei dos pensamentos rápido percebendo que estava perto e meu coração acelerou do nada. Respirei fundo duas vezes e até fiquei tonta, continuei andando naquela direção sentindo meus passos pesados. Eu tenho vontade de sair correndo daqui feito uma covarde, mas uma covarde que tem uma ideia muito boa de fugir em vez de enfrentar.
Que vergonha fazer parte você.
Ignorei agora com passos firmes e rápidos, já sei oque tenho que dizer, não vai ser tão difícil se eu olhar por outro lado. Estou indo procurar as respostas pra tudo isso que fiz mesmo já desconfiando de uma coisa. Mas continuei roendo minhas unhas quando cheguei no centro das árvores, o silêncio me deixava sem coragem de quebra-lo com minha voz chamando por ele, tudo está me forçando a desisti de fazer isso.
-pai!
Não fui eu quem gritou por ele e eu fiquei assustada quando eu ouvi minha própria voz.
Fui eu covarde.
Não se meta nisso.
Me forcei a ouvi alguma coisa depois desse chamado que eu não fazia ideia de como deixei sair. Achei que ainda podia controlar oque sai da minha boca. Pelo visto eu acho que ele não vem essa noite. Aparece toda vez que o chamo, mas eu não estou atrasada nem nada. Minha cabeça não parava de pensar na ideia de correr daqui com a desculpa de que ele não apareceu. Eu me mandava aproveitar que ele ainda não apareceu e ir embora dizendo pra mim mesmo que eu tentei mas não conseguir. Mas não demorou muito para eu sentir sua mão fria no meu ombro de novo.
Pulei e me mantive séria assim que eu vi seus olhos normais em mim, organizei meus pensamentos e fiquei de cabeça baixa sem coragem de começar.
-achei que não viria
Ele comentou parado na minha frente, seu tom carinhoso comigo me deixou mais desconfortável ainda porque eu achava que não merecia começar dessa forma, tinha que dá o primeiro passo... Só não sei que pé devo usar. Que merda.
-é...
Limpei a garganta e apertei minhas roupas contra o peito sentindo um pouco de vergonha. Não sei por onde começar!
Deixa eu resolver pra você.
-pai eu... Não sei oque aconteceu comigo nos últimos dias, eu não sei como dizer isso mas... Algo está dentro de mim e isso me obrigou a...
-shh
Parei fechando minha boca com força arregalando meus olhos surpresa comigo mesma por ter dito isso como se não fosse a coisa mais difícil do mundo que eu estive pensando todo esse tempo. Olhei meu pai na minha frente me olhando de forma séria mais um pouco maldosa comigo. Fiquei confusa e me encolhi querendo abaixar minha cabeça mas fiquei presa nos olhos dele.
-eu sei filha, não precisa explicar eu sei que você está confusa com isso... Não achei que aconteceria tão cedo
Ele disse isso passando do meu lado em um ritmo devagar como se tivesse deslizando no chão, ele estava com uma mão embaixo do queixo pensando profundamente nisso. Fiquei de costas pra ele mas depois me virei ainda encolhida com vergonha e muito confusa, então ele sabe? Porque diz que acha que não aconteceria tão cedo comigo?
-não precisa sentir medo disso querida, eu sinto muito mas faz parte de você, senão aprender a controlar pode se tornar um pesadelo pra você. Eu sei que está confusa mas deve se acostumar, eu não queria que acontecesse agora por achar que você não estava pronta, entenda que não sou um ser bondoso nem um Deus... Oque fiz com você tem a ver com oque sou também, não podia salvar sua vida sem nenhum preço, e esse preço é oque está passando agora. Eu sabia que um dia você ficaria desse jeito, mas foi a única coisa que pude fazer senão você iria morrer
Então... Tudo isso é ligado ao que ele é também, e não teve escolha e preferiu me dá esse tipo de vida em vez de me deixar morrer.
-pois preferia ter morrido
Disse pra mim mesma mas ele escutou, minha respiração acelerou e eu fiquei sentindo aquilo se acumulando dentro de mim nesse momento. Deixei minhas roupas caírem no chão e coloquei as mãos sobre a cabeça de novo como se quisesse apertar meus pensamentos para eles não saírem de rumo. Me ajoelhei no chão chorando me sentindo amaldiçoada com isso. Apertei minha barriga sem saber oque estava acontecendo comigo nesse momento, era uma dor misturada com raiva e ódio de ser oque sou. Porque ele não me matou de uma vez e ficou com minha alma em vez de me dá essa maldição?
-porque não me deixou morrer?
Gritei chorando deixando minha voz falhar olhando pra ele sentindo muita dor, ele me olhava da mesma forma vendo meu sofrimento aqui. Mas não adianta senti dó de mim agora, a última vez que fez isso me transformou no que sou! Porque fez aquilo por uma humana idiota como eu era!?
Ele se aproximou de mim se ajoelhando na minha frente também me vendo chorar com a cabeça abaixada, queria descontar tudo nele agora, queria fazer ele pagar por que fez comigo. Mas é meu pai, e não posso. Então eu deixei ele me abraçar me envolvendo na sua capa macia me apertando contra ele de forma acolhedora sem dizer uma palavra, não tem oque me responder. Eu sei disso, eu sei que não existe resposta pra isso, como ele pôde sentir pena de uma criança... Eu não sei e ele também não sabe. Por isso continuei chorando com as mãos embaixo do meu queixo tentando colocar tudo pra fora agora porque não adianta ficar com isso preso dentro de mim.

Uma garota sozinha na floresta Histórias para pegar e não largar. Descubra agora